Educadores exigem ensino diferenciado para indígenas durante Seminário Índio Marcelino

Aléxis Góis, colaborador da Agência Jovem em Ilhéus (BA) | Foto: Edson Kayapó

A roda de conversa sobre Educação Indígena e Educação Escolar Indígena, na tarde do dia 28 de setembro, no IV Seminário Internacional de História e Cultura Indígena Caboclo Índio Marcelino, na Aldeia Itapuã (Olivença, Sul da Bahia) foi marcada pela exigência de ensino diferenciado em escolas indígenas. Os educadores também exigiram o cumprimento da lei 11.465/03, que estabelece a inclusão da temática da história indígena nas redes de ensino.

A professora de história Circe Bittencourt, aposentada da Universidade de São Paulo (USP), atualmente na PUC-SP, destacou que “ninguém melhor que escrever a história indígena que os próprios indígenas”. Circe começou a trabalhar com a questão indígena no começo da década de 1990, com os Terena, de Mato Grosso do Sul.

A professora lembrou as palavras de Florestan Fernandes no livro Nota sobre a educação da sociedade Tupinambá: “A escola do branco, do capitalista, é uma escola que prepara um aluno para ser um indivíduo consumidor dentro da sociedade capitalista e a escola indígena prepara as crianças para uma vida em comunidade”.

Terezinha Marcis, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz destaca que “a história indígena é muito rica. Simplificar a história indígena é um grande erro científico, acadêmico e um desserviço para a educação em geral”.

Uma das falas mais marcantes da roda de conversa foi a do educador indígena Edson Kayapó, professor doutor do Instituto Federal da Bahia (IFBA) de Porto Seguro. Nascido em uma aldeia do Amapá, Edson foi estudar em um internato religioso com 12 anos de idade. Fez o ensino médio em outro internato, na cidade Petrópolis (RJ), onde sofria preconceito por ser indígena. Ao concluir o ensino médio, sem opção, virou missionário na Zona da Mata de Minas Gerais. Em Belo Horizonte, graduou-se em História e percebeu que, ao longo de seu aprendizado na escola, desaprendeu a sua própria cultura.

Depois de graduado, voltou para o Amapá e se envolveu com movimentos na floresta. Começou a desenvolver um trabalho com educação indígena e com escolas de educação diferenciada.

“Esta é a trajetória dos povos indígenas em geral. Chegaram para impor diferentes formas de ser, que os índios têm uma organização inferior. A escola é um instrumento para emplacar esta ideia, impondo outras línguas, outra cultura, outra forma de vida, outro jeito de ser”, comenta Edson.

O educador indígena lembra que “a legislação internacional e nacional garante manifestação diferenciada, mas o estado atua de outra forma. O primeiro a quebrar o direito que ele próprio oficializou é o Estado. É importante fortalecer a educação diferenciada para ser uma prática e não apenas discurso”.

Na Bahia, desde janeiro de 2011, foi instituído o quadro efetivo indígena, que ainda não é cumprido. Na Escola Estadual Indígena Tupinambá de Olivença (EEITO), que foi construída pelos próprios indígenas, por exemplo, 87% dos alunos são índios, mas 75% do quadro de professores não são índios.

“Dentro da história da educação indígena, este é o momento que a população indígena tem a oportunidade de assumir o papel de principal protagonista do ensino em suas escolas. A escola indígena é uma das frentes de luta”, argumenta a professora Terezinha Marcis.

A cobertura do Seminário está sendo realizado por indígenas que participaram do laboratório de apropriação de Artes e Tecnologias, promovido pela Oca Digital, projeto da ONG Thydêwá e Cardim Projetos e Soluções Integradas, com o Patrocínio da Telefonica/Vivo e do Fundo de Cultura da Secretaria de Cultura da Bahia.

 

 

Jornalista, professor e educomunicador. Responsável pelos conteúdos da Agência Jovem de Notícias e Revista Viração.

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