Educação Inclusiva, uma trajetória de avanços e retrocessos

É preciso olhar a pessoa com deficiência antes como a pessoa que ela intrinsecamente é, abandonando posturas veladamente ofensivas ou descaradamente preconceituosas e capacitistas.

Por Lucas Schrouth

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Um longo caminho

A trajetória da pessoa com deficiência na sociedade esteve marcada por contextos específicos – seu principal traço na visão que a pessoa com deficiência tinha de ser (um) humano. Essa ideia foi revolucionada a partir das garantias dos direitos fundamentais – esta, sim, uma ideia moderna.

Apesar deste marco histórico, a evolução da comunidade deficiente não foi uma linha linear de progresso positivo. Há evidências de que no antigo Egito pessoas deficientes integravam-se nos mais diversos espaços da sociedade, enquanto que já na Grécia, em Esparta, justamente por seus caráteres militaristas e expansionistas, as pessoas com deficiência eram ditas “disformes”, atrasos ao plano da nação e vergonhas para a imagem da cidade. 

Vejam, a primeira sociedade (egípcia) milhares de anos antes enxergava essas pessoas com um olhar mais inclusivo (no sentido atual da palavra) do que os futuros gregos, espartanos e até romanos, que permitiam que pais de crianças com deficiência as matassem.

Os que seriam os vanguardistas da democracia e novas ciências naquele momento adotavam posturas homicidas e desumanas.

Com a crescente do Cristianismo e sua influência, uma nova postura foi tomada, a de um olhar mais humano à pessoa deficiente – entendendo que se todos tinham alma, todos mereciam uma chance de salvação. 

A Idade Média foi marcada como um período muito difícil para diversos grupos de pessoas, inclusive com o emprego das crendices a fim de justificar perseguição. Para os deficientes não era diferente: eram vistos como castigo às pessoas que praticavam impureza. No século XVII, o Renascimento traz uma disruptura com a mentalidade teocêntrica e adota uma visão mais centrada na pessoa humana, visão que se estendeu aos diferentes.

Os próximos séculos marcaram avanços significativos, mas o maior deles é o olhar humano, uma visão não coisificada do outro. As guerras trouxeram sequelas que não puderam ser relevadas ou disfarçadas, e a pauta da pessoa com deficiência e da assistência que realmente necessitava estava entre diversas discussões – o meio científico contribuiu muito para este avanço, promovendo intervenções e posicionamentos claros de órgãos internacionais como a ONU.

Conceituando

O que é uma pessoa com deficiência?

Pergunta errada. O correto é se perguntar ‘QUEM É’ a pessoa com deficiência. 

Algo muito importante que a comunidade diferente conseguiu construir foi o entendimento de que ‘antes de ser deficientes, são pessoas’. As deficiências são condições psicofisiológicas e/ou físicas que caracterizam diferentes níveis de déficit no desempenho de determinada ação, podendo ser adquiridas por trauma/acidente ou de forma genética.

O conhecimento é a única forma de libertar; desaprisionar-se dos preconceitos é a primeira atitude concreta.

Deficiência não é contagiosa: uma deficiência psicofisiológica pode se manifestar de formas diferentes – não padronize comportamentos; nem sempre uma deficiência torna alguém totalmente incapacitado, é preciso entender o indivíduo e suas capacidades; esteja disposto a sempre ajudar; no entanto, aceite que nem sempre uma pessoa deficiente precisa da sua ajuda. 

Não use o termo ‘portador de deficiência’: a deficiência daquela pessoa não é um relógio, é uma característica de sua existência. Pessoa com deficiência é o termo correto e não é ofensivo. Também não se usa pessoa deficiente – a pessoa com deficiência não é deficiente em sua existência como pessoa.

As pessoas não deficientes não são as pessoas ‘normais’: a pessoa com deficiência não é um sujeito anormal (que foge da normalidade), nada nele é anormal e sim características do ser ele. Mais deficiente é aquele que não consegue estar disposto a entender e ressignificar-se frente a situações que pedem isso.

A educação básica tem papel fundamental na construção da real imagem da pessoa com deficiência. Um olhar atento e uma postura de disposição a mudar é o que é preciso para solidificar as verdadeiras mudanças.

O capacitismo é uma postura que deve ser abandonada e antes entendida – é preciso compreender para repudiar o preconceito velado ou explícito à pessoa com deficiência. Subestimá-la por achar que não consegue realizar alguma ação, tratá-la com exímio cuidado demonstra a crença na ineficiência do outro, DUVIDAR DA CAPACIDADE DO OUTRO – é hora disso ter um fim.

A mudança

Imagem: Appenzell Ausserrhoden – reprodução

A educação é direito fundamental de TODOS. É até redundante dizer que isso inclui as pessoas com deficiência. Por lei, o seu direito deve ser garantido, preservado e cumprido. No entanto, a pergunta que muitos fazem é se a escola está para a criança com deficiência, tanto quanto a criança com deficiência tem de estar para a escola.

A escola regular e a comunidade educacional moveram-se, ao longo dos anos, para tentar criar o melhor ambiente possível para receber e garantir a permanência construtiva dos alunos com deficiência.

É preciso compreender que a educação básica pública brasileira enfrenta diversos desafios, conceituais e estruturais, mas esse diagnóstico negativo que se faz do espaço e da vivência escolar é prejudicial quando o debate sobre se o aluno com deficiência deveria estar em escolas especializadas se acende.

Esta é uma questão importante, é ponto chave entender que a escola é feita por pessoas e estas constroem, desconstroem e promovem o ambiente que conseguem enxergar em seus limites. Assim a formação docente e de profissionais da educação é fundamental se quisermos mudar certas posturas segregacionistas que infelizmente encontramos. É preciso entender as mais diversas deficiências e ações que podem ser tomadas frente a elas para estimular o processo de ensino-aprendizagem.

Acompanhamento, compaixão, caminhar ao lado da família e com um olhar centrado na pessoa é o que pode mudar a vida das pessoas com deficiência que confiam em dedicar sua educação em um ambiente escolar regular.

O amparo à família é essencial. Ninguém sabe lidar de forma absoluta com a maternidade/paternidade, ainda mais com a ansiedade de se ter um filho com deficiência – os pais projetam em seus filhos seus anseios e divagam sobre seus futuros desafios na vida, é preciso ter informação além do afeto para que sua criação seja construtiva.

Como dito, é preciso olhar a pessoa com deficiência antes como a pessoa que ela intrinsecamente é, assim deixando posturas veladamente ofensivas ou descaradamente preconceituosas e capacitistas.

Aos docentes: a pesquisa é fundamental na prática de seu ofício, portanto, procure conhecer e pensar novas maneiras de lidar com o aluno com deficiência – existem posturas que não cabem mais, não podem mais, não são mais ignoráveis.

#NÃOAOCAPACITISMO

Diversidade. Imagem: reprodução Pinterest

A audiodescrição deste conteúdo foi feita por Monise Berno.

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