Educação e economia solidária: que práticas e saberes estamos produzindo?

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Por Fernanda Nagem/ MG e Rosana Kirsch/ RS *

No dia a dia de um coletivo de trabalhadoras/es, saberes são constantemente elaborados e partilhados. Inclusive, hoje com a internet é possível que um coletivo cujas/os integrantes trabalham/ vivem em diferentes lugares desenvolva suas atividades diariamente em conjunto, trocando e construindo novos saberes[1].

Partimos assim do pressuposto que todas/os têm saberes e que o conhecimento pode ser partilhado tanto numa roda de conversa como numa reunião virtual. Talvez, isto não seja novidade. Afinal, estamos há mais de cinquenta anos debatendo e avançando em reflexões e práticas de educação popular. Mas, sempre os saberes são partilhados quando se está num coletivo? E, em que medida as ferramentas que temos para atividades à distância contribuem para o trabalho associativo e a ampliação de práticas da economia popular solidária?

Diversidade de coletivos: a prática como produtora de saberes

A economia solidária ou as práticas de trabalho associativo autogestionário apresentam diversas diferenças entre si, como o tamanho dos grupos, os produtos ou serviços oferecidos, a área de abrangência do trabalho, a participação de jovens, idosos, mulheres, homens e de tantas etnias. Esta diversidade é uma de nossas características, assim como a solidariedade com as pessoas que estão no coletivo que participamos, com a comunidade que vivemos e com o planeta onde habitamos. Solidariedade também é o valor que produzimos ao partilhar saberes.

Entendemos que as práticas geram os princípios com que costumamos explicar o que é a economia solidária: cooperação, autogestão, solidariedade, justiça, autonomia. Então, as práticas que um coletivo desenvolve poderão gerar relações de proximidade e partilha entre as pessoas envolvidas. Mas sabemos que na sociedade em que vivemos as práticas mais presentes na economia e no mundo do trabalho ainda são aquelas que levaram o capitalismo a se desenvolver até aqui e que geram competição, obediência, desigualdade e prestígio para apenas alguns.

Ao mesmo tempo, a internet está trazendo a prática do compartilhar – apenas em um“clic”. Diferentes ferramentas permitem que as pessoas compartilhem o que estão vivendo, sabendo ou descobrindo. Compartilhar não é uma prática nova, afinal os encontros em família ou com amigos/as têm um significado especial quando as pessoas podem contar o que estão vivendo seja para rir um tanto ou para ter apoio em determinados momentos. O mesmo acontece com o ato de curtir uma postagem numa rede social da internet, pois há tempos sabe-se que o reconhecimento do outro é importante, que isto envolve olhar para o mundo e dialogar.

Na economia solidária, afirmamos que o conhecimento deve ser livre e que todos/as temos saberes. Se você observar as práticas do coletivo de que você faz parte: quais são as práticas de partilha e de reconhecimento de cada integrante? Há relações igualitárias entre trabalhadores/as e dos/as trabalhadores/as com organizações de apoio/ assessoria/ fomento?

Um olhar para nossas práticas pode fazer a gente perceber as práticas que temos realizado para partilhar saberes e produzir novos conhecimentos: numa reunião do coletivo, no diálogo com outros/as profissionais ou, ainda, quando estudamos com algumas pessoas do grupo para, então, ter um momento de formação com o coletivo todo. Quer dizer, educação em economia solidária não é somente quando há horário destinado para formação ou uma assessoria técnica realizada por uma organização. É todo momento de partilha de saberes entre as pessoas, seja no intervalo para o cafezinho, na hora do almoço, num almoço de integração num final de semana, ou seja, ocorre no dia a dia, a todo momento.

É preciso observar se a dinâmica de trabalho do coletivo está permitindo que as pessoas se encontrem, dialoguem, descubram temas ou problemas que podem e/ou precisam tratar juntas para que o coletivo se consolide, se articule com outros coletivos, se apresente para a sociedade como uma realidade que promove solidariedade. Os encontros, de distintas naturezas, são fundamentais para a partilha de saberes e precisam ser valorizados e incentivados como uma prática educativa, tão importantes quando os momentos previamente preparados de formação. Afinal, saberes são muitos, seja para se organizar coletivamente; para produzir ou prestar serviços de um jeito que fortaleça a economia solidária; saberes contábeis, financeiros, jurídicos que precisamos conhecer para, muitas vezes, ir para a peleia para mudá-los e tantos outros. Cada coletivo de trabalhadores/as traz consigo uma imensa bagagem de saberes e sentirá necessidade de outros tantos que irá criar e/ou buscar.

Neste sentido, uma dimensão também fundamental nos processos educativos está na apropriação de conhecimentos já produzidos. Seja em relação à sistematização de experiências de trabalho associativo autogestionário da mesma forma que em relação à disponibilização e acesso aos conhecimentos produzidos pelo meio acadêmico e nas diversas organizações de assessoria e fomento. A internet aparece como uma possibilidade viável para divulgação, mas por qual canal? Até aqui, temos que usar ferramentas de busca para achar os escritos, vídeos ou áudio produzidos na economia solidária. Não é contraditório que muito pouco do que produzimos de artigos, teses, dissertações, cartilhas, livros, músicas, vídeos seja disponibilizado no site do Fórum Brasileiro de Economia Solidária? Esta é uma iniciativa que cabe às /aos pesquisadores/as, assessorias, educadores/as, trabalhadores/as autogestionários: publicizar para o mundão o que estão produzindo de conhecimentos.

A distância e a partilha: ferramentas e organização popular

As mobilizações populares ocorridas especialmente a partir de 2008 por todo mundo, incluindo o Brasil mais recentemente, com pautas de distintas naturezas, como saúde, educação e críticas mais profundas ao sistema capitalista, são exemplos de como a internet foi e pode ser utilizada para organizar-se coletivamente. No campo específico da educação, uma integrante do movimento campesino ao avaliar uma ferramenta web desenvolvida para favorecer o contato e a troca de saberes e de informações entre participantes de curso em alternância que o movimento vinha realizando, ressaltou que era “uma ferramenta de luta!”.

O uso da internet e de ferramentas para educação não-presencial estão presentes em atividades da economia solidária e de outros movimentos sociais populares. Mas, quais são as reflexões e avaliações que temos sobre este uso e sua relação com a educação popular? Se nossa opção é pela organização popular, como um processo educativo à distância, que pode ser realizado individualmente e sem demandar necessariamente a relação com a turma, pode contribuir para a economia solidária? Estas perguntas inquietam? Pra gente, inquietam sim.

Se temos um território grande que dificulta o encontro entre pessoas de diferentes regiões, se temos uma estrutura que oferece condições para chegar em vários lugares uma EAD (educação à distância) e se já há oferta de cursos com temas que se relacionam com nosso projeto, o que fazer?

Um curso à distância pode ser uma maneira de conhecer e se relacionar com pessoas que estão na luta, atuando em movimentos sociais populares, construindo experiências vivas de autogestão no trabalho e em outros setores da vida. A questão está em qual postura temos numa atividade à distância. Por um lado, como também pode acontecer nos processos educativos presenciais, podemos reforçar a educação bancária, esperando os depósitos de conhecimento que virão de quem prepara o curso. Por outro lado, podemos interagir e refletir de modo coletivo o contexto mais amplo de nossa América Latina ou do território que articula aqueles/as que estão no curso.

Uma atividade educativa da economia solidária que tem a participação de pessoas de diferentes lugares realizada de modo não-presencial é uma oportunidade para organizar a ação do movimento. É uma oportunidade para perceber os rumos que estamos tomando a partir das experiências presentes, ainda que à distância.

Mas, ainda que o virtual possa ser ferramenta de apoio para a construção de um outro mundo, o encontro presencial não é dispensado. Estar no mesmo espaço físico, face a face, para juntos/as aprendermos uns com as/os outros/as, sentir um/a ao outro/a e, porque não, fazer uma ação com a comunidade local onde o curso/oficina/congresso/simpósio acontece, é fundamental. A pedagogia da alternância articulada à educação popular tem sido uma prática educativa que reconhece as lutas locais, as distâncias territoriais e contribui para a organização popular pelo encontro das pessoas presencialmente e à distância.

Neste início do século XXI, as distâncias aparentemente desapareceram com o mundo virtual. Mas, lembremos, a internet é uma ferramenta utilizada por apenas uma pequena parte dos/as brasileiros/as. No Brasil, mais da metade de população não tem acesso à internet, segundo dados fornecidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD, 2011), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No que diz respeito à população rural, apenas 1,7% de trabalhadores/as usam a internet e a grande concentração de acesso está na população com mais de três salários mínimos.

É preciso estar sensível à questão do acesso à internet e sua potencialidade para as lutas sociais. E, vale reforçar que, a verdadeira luta não é por democratização de acesso, para que todas/as se incluam no sistema capitalista. Não. A luta é por um planeta democrático radicalmente e as experiências que já estamos fazendo, partilhando, refazendo com uso ou não da web podem construir este outro mundo.

Notas

 * Fernanda Nagem e Rosana Kirsch fazem parte da EITA – Cooperativa de Trabalho Educação, Informação e Tecnologia para Autogestão (eita.org.br).

[1]     Coletivos que trabalham com tecnologia da informação, por exemplo, organizam-se para trabalhar à distância, mas em conjunto com associados/as da cooperativa e com quem contrata seus serviços.

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