Vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 2014 concedeu entrevista à Vira há um ano atrás

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O vencedor do Prêmio Nobel da Paz Kailash Satyarthi já foi pauta na Viração há um ano atrás. Era outubro de 2013, quando os adolescentes comunicadores que cobriam a 3ª Conferência Global sobre Trabalho Infantil entrevistaram o ativista indiano que, desde a infância, milita pelo direito à educação. Na ocasião, Kailash sensibilizou-se com a presença dos adolescentes comunicadores na conferência, os únicos a participarem de um evento destinado a debater seus próprios direitos e que reuniu cerca de 5 mil ativistas de todo o mundo. Em uma demonstração de alegria por esse reconhecimento internacional, reproduzimos a seguir a entrevista concedida por Kailash, há um ano, na capital federal. Confira!

Alanna Mangueira (SE), Daniel Mendes (SC), Danielle Fiel (PB), Dayana de Araújo (PA), Fábio Souza (AP), Hilamy Moreira (AM), Ítalo Meotti (DF), Júlio Cesar de Araújo (MG), Laiana Souza (BA), Laisnanda de Sousa (MA), Lucas Matheus Farias (RN), Lucas Soares (MS), Marco Antonio Gama (TO), Rafael Lima (CE), Rogério da Silva (RS), Sarah Susane (AC), Suzana Gabriele Balbino (PE), Thailane de Oliveira (RJ), Thamires da Hora (AL), Wesley Pizzol (ES) e Weverson da Silva (MT) 

A simpatia e humildade de um indiano comoveram os adolescentes comunicadores que fizeram a cobertura da 3ª Conferência Global sobre Trabalho Infantil. Em uma plenária, chamou a atenção dos adultos presentes no evento sobre a participação desses jovens. Kailash Satyarthi tem uma história de vida inspiradora.

Durante sua infância se questionava sobre o motivo de estar na escola estudando e ter meninos e meninas trabalhando. Movido pela curiosidade, perguntou ao pai de um garoto que trabalhava porque seu filho não estava na escola. O homem olhou para Kailash como se a pergunta não fizesse sentido e, pacientemente, respondeu: “Nós nascemos para trabalhar!”. Essa resposta o inspirou a promover uma transformação.

Após os 30 anos, Kailash conseguiu promover dois movimentos dedicados ao direito à educação e ao enfrentamento do trabalho infantil. E seu esforço lhe rendeu a indicação ao Premio Nobel da Paz em 2006. Confira o bate-papo que os adolescentes tiveram com Kailash em 9 de outubro, em Brasília (DF).

Viração: Como você começou, qual foi a sua primeira ação para combater o trabalho infantil?

Kailashi Satyarthi: Era meu primeiro dia de aula, eu tinha cinco anos, vi um menino sentado nos degraus do lado de fora, trabalhando como engraxate com seu pai. Perguntei ao meu professor por que essa criança estava lá fora. Ele me disse: “existem muitas crianças como esse menino. São pessoas pobres, nada de novo”. Um dia, quando eu criei coragem, perguntei ao pai dele: “Por que o senhor não leva seu filho à escola?” Ele ficou surpreso e respondeu: “Ninguém nunca havia me perguntado isso, eu nunca pensei no assunto. Meu pai trabalhava desde a infância, isso aconteceu comigo e, agora, meu filho também trabalha. Nascemos para trabalhar”. Essa frase que me acompanha até hoje. Aquilo foi terrível, mas encarei o caso como um desafio.

Qual a origem do trabalho Infantil?

Há centenas de ano, as crianças fazem trabalhos domésticos nas casas, não sei citar uma data, mas há muitos anos isso é uma realidade. A origem, de tudo, começa com o desrespeito à criança enquanto sujeito de direitos. Quando esse desrespeito se inicia, as pessoas usam as crianças explorando-as como mão de obra barata na prostituição, exploração de órgãos, entre outros trabalhos. Outro ponto é que também o governo não garante educação de qualidade a essas crianças. Então, os professores não são treinados, as escolas não tem estruturas, não só nas zonas urbanas, mas principalmente nas zonas rurais, o que acaba criando um movimento das crianças estarem fora da escola. Além disso, muitas vezes as escolas que nós temos não são amigáveis com às crianças, onde elas se sintam à vontade para se expressar.

Como as pessoas, no dia a dia, podem contribuir para a erradicação do trabalho infantil?

Precisamos pensar que cada indivíduo é parte de uma grande sociedade e que esse indivíduo compõe o todo. Se você passar a pensar que toda essa sociedade te afeta, o indivíduo também afeta essa sociedade. Como indivíduos, somos consumidores. E não sabemos que a nossa calça, bolsa, sapato são frutos de trabalho infantil. Enquanto consumidores, precisamos ser conscientes, e garantir que o que consumimos está livre de trabalho infantil. Se na casa dos seus parentes ou amigos você ver uma criança trabalhando você precisa ter atitude de falar, que não vai tomar uma água, um chá sequer. Mesmo sendo parente, tem que falar. E todos nós estamos conectados com a mídia, com a comunicação. Antes, o conhecimento estava no livro, no professor. Agora temos as tecnologias, por meio das quais podemos nos expressar.

 Quais foram seus maiores desafios na luta para erradicar o trabalho infantil?

O maior desafio é a mente fechada, um modo antiquado de pensar. As crianças normalmente não são respeitadas, as pessoas amam as crianças, mas não a respeitam como indivíduo. O maior problema para se mudar é essa mentalidade. A maioria das pessoas do mundo acredita que isso é normal, isso é parte da vida, em vez de entenderem a educação como prioridade.

Você acreditar que é fundamental a participação de adolescentes do mundo na próxima conferencia global de trabalho infantil?

Sim, francamente falando o que estamos fazendo agora é a melhor parte dessa conferência, a oportunidade de conversar com um grupo de adolescentes. Há mais de 30 anos venho falando com políticos, pessoas de grande poder, adultos, mas quando a gente vai ficando adulto, a nossa alma vai ficando poluída. Nas próximas conferências é preciso mais adolescentes e crianças inclusive de faixa etária menor, que sejam ouvidos, pois eles têm seu jeito próprio de se comunicar. Eles também precisam participar desses processos.

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“As crianças normalmente não são respeitadas. As pessoas amam as crianças mas não as respeitam como indivíduo”

Kailash Satyarthi

 

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