Editorial | Jovens comunicadores pela democracia

A Agência Jovem de Notícias é um espaço onde adolescentes e jovens de diferentes lugares exploram diversas linguagens na produção de conteúdos que contemplam suas realidades – em muitos casos, que foram historicamente ignoradas pela mídia hegemônica, visto que é produzida na maioria dos veículos por pessoas mais velhas e que, também por outras características, se encontram em posições privilegiadas na sociedade. Assim sendo, nosso princípio se baseia na democracia — das mídias e também política. Nós, adolescentes e jovens colaboradores da AJN, produzimos a partir dos nossos pontos de vista o que chamamos de conteúdo engajado em causas sociais que fazem parte do nosso universo. Acreditamos que a comunicação e o acesso à informação, enquanto Direitos Humanos, são fundamentais para o exercício da cidadania e para a democracia. Por isso, nos unimos para escrever este editorial que declara o lado que assumimos na conjuntura atual do país – o da luta pela democracia e pelos Direitos Humanos.

“Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?” (Paulo Freire)

Assim como o patrono da Educação no Brasil — que tem sido duramente atacado por pessoas que não conseguem ver o tamanho de sua contribuição para com a educação no mundo todo — também não acreditamos na ideia de imparcialidade. Valer-se de um posicionamento isento em conjunturas nas quais se apresentam ameaças à nossa democracia — e, principalmente, à vida digna de certa parcela da população que está mais vulnerável às diversas violações causadas pela enorme desigualdade que afeta o país — faz com que o veículo de comunicação se torne excludente e nossa luta enquanto jovens comunicadores da AJN é e sempre será por uma sociedade mais inclusiva.

O segundo turno das eleições deste ano está sendo disputado por dois candidatos que representam lados opostos em diversos sentidos. Fazendo a leitura de tudo o que os dois apresentam e representam, consideramos que de um lado há um projeto democrático para o país e, do outro, ideias anti-democráticas e perigosas — representadas pelo candidato Jair Bolsonaro, às quais nos opomos e apontaremos a seguir os porquês de as caracterizarmos assim.

Fake News e a manipulação da Opinião Pública: uma conduta anti-democrática

A campanha de Jair Bolsonaro tem se apoiado na disseminação de notícias e informações falsas que vão desde falsos apoios de celebridades à sua candidatura à graves calúnias contra os outros candidatos – em especial, seu opositor à candidatura no segundo turno Fernando Haddad e a vice Manuela D’Ávila. Essas informações falsas são tanto criadas e disseminadas oficialmente por ele quanto por seus apoiadores.

Na manhã da última quinta-feira (18), a Folha de São Paulo revelou que empresários têm bancado a distribuição de Fake News em massa contra o PT por Whatsapp, um esquema ilegal que se qualifica enquanto um crime eleitoral, conhecido como “caixa dois”. Se comprovado o crime, a chapa do PSL pode até mesmo ser impugnada destas eleições. O ministro Jorge Mussi, corregedor do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), aceitou a denúncia do caso, feita pelo PT, na sexta-feira (19) e abriu uma ação para investigar essa suposta compra de pacotes de disparos de mensagens.

Bolsonaro no Jornal Nacional acusando Fernando Haddad por ter distribuído nenquanto ministro da Educação livro de conteúdo impróprio para crianças de 6 anos. Imagem: TV Globo.

Entre as informações falsas que tem ajudado a alavancar sua campanha, Bolsonaro tem acusado Haddad de ter sido responsável por distribuir materiais de conteúdo impróprio para crianças, o que ficou popularmente conhecido como “kit gay”. Além do candidato e seus apoiadores utilizarem as redes sociais para disseminar essa fake news, Bolsonaro também utilizou seu tempo na sabatina em que participou no Jornal Nacional da Rede Globo para fazer a acusação, mostrando um livro de conteúdo impróprio para crianças de 6 anos que supostamente teria sido distribuído em escolas.

Fernando Haddad nega as acusações, a editora do livro e o próprio Ministério da Educação (MEC) também desmentiram, entretanto o boato continuou circulando nas redes. Até que o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Carlos Horbach, deferiu, no final da noite da segunda-feira passada (15), uma liminar proibindo a chapa de Jair Bolsonaro de divulgar nas redes sociais publicações sobre o “kit gay”, visto que ele comprovadamente nunca existiu.  

Em entrevista para a coluna de Caetano Veloso no Mídia Ninja, Manuela D’Ávila comentou sobre o quanto essas notícias falsas tem provocado a indignação e ódio das pessoas à chapa do Partido dos Trabalhadores, visto que envolvem questões muito sensíveis às pessoas, como a proteção às crianças e a segurança pública. A candidata à vice-presidente ainda afirma que, se de fato essas informações fossem reais, a postura que as pessoas tem assumido perante elas seria totalmente compreensível.

Enquanto jovens comunicadores que lutam pelo direito à comunicação e ao acesso à informação, não podemos concordar com o ato de disseminar informações falsas e graves como estratégia de campanha eleitoral. Enxergamos tal conduta como anti-democrática, visto que é capaz de manipular a opinião pública, o que interfere em cheio no processo de escolha dos nossos representantes políticos.

Desprezo às normas democráticas

O candidato do PSL já demonstrou diversas vezes desprezo pelas normas democráticas, o que levou diversas mídias, intelectuais, artistas e pessoas influentes do mundo inteiro, tanto da direita quanto da esquerda, alertarem do perigo à democracia caso ele se eleja. Dentre eles, conceituados jornais do mundo. Como o New York Times, que alertou para o fato de que o candidato é “um populista de direita, defendeu a deplorável ditadura militar que governou o País entre 1964 e 1985 e justificou o uso da tortura”, o Washington Post, que apontou a ascensão de Bolsonaro como um novo golpe para a democracia liberal, o The Guardian que declarou que democracia está em perigo no Brasil e a revista The Economist, que afirmou que o deputado é uma “ameaça para América Latina” e suas propostas para o Brasil são “brutais“.

Em entrevista ao Câmera Aberta, Bolsonaro declarou que o voto não é capaz de mudar nada no país e apontou que a única alternativa possível para uma mudança seria uma guerra civil que “fizesse o trabalho que a ditadura não fez, matando uns 30 mil”. O deputado ainda fez pouco caso sobre em meio a esse número se contabilizarem pessoas inocentes. Além disso, já afirmou que o economista Chico Lopes, que junto com Pérsio Arida, André Lara Resende e Edmar Bacha, formulou o Plano Cruzado, deveria ser submetido a um “pau de arara”; se declara a favor da tortura e da sonegação de impostos e disse que fecharia o congresso nacional e daria um golpe no primeiro dia de governo.

Bolsonaro já fez declarações onde demonstrou não saber lidar com oposição, parte tão importante da nossa democracia. Em campanha no Acre, Bolsonaro disse: “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre. Vamos botar esses picaretas para correr do Acre. Já que gostam tanto da Venezuela, essa turma tem que ir para lá”. No último domingo antes das eleições (21), o candidato ameaçou os “PTistas”, seus opositores, dizendo que se vencer há apenas dois caminhos para eles: a cadeia ou o exílio.

O desrespeito à imprensa

Para além das Fake News, Bolsonaro e seus apoiadores também descredibilizam a imprensa, tratando-nos de maneira agressiva e supondo que qualquer uma que se oponha a suas ideias o faça por ser comunista – tratando esse posicionamento político como o gerador de todo o mal que afeta mundo. Mesmo as mídias que se declaram liberais, como a The Economist, tem sido chamadas de comunistas por terem se posicionado diante da ameaça que veem representada pela figura de Bolsonaro.

Além disso, há diversos vídeos nos quais o candidato assume uma postura autoritária e desrespeitosa contra jornalistas, chegando até mesmo a agressões verbais, como no caso que ocorreu contra uma jornalista da RedeTV.

Jornalistas têm sido constantemente atacados nestas eleições. Segundo a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) em matéria divulgada no dia 8 deste mês, mais de 130 casos de violência no contexto político-eleitoral foram registradas. Depois da matéria sobre o recebimento de caixa dois no dia 18, por exemplo, a jornalista Patrícia Campos de Mello, que fez a investigação e publicou a matéria, foi duramente atacada em suas redes sociais.

A postura agressiva e autoritária contra nós representada por uma figura pública pode ser capaz de incentivar violências.

Incitação da violação dos Direitos Humanos

De acordo com o Código de ética dos jornalistas no artigo 6º, é dever desse profissional “opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão”, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Acreditamos e seguimos esse preceito. Por isso, nos declaramos contrários às diversas declarações do candidato do Partido Social Liberal (PSL) contra os direitos humanos, que vão desde o ataque direto à Declaração Universal às pessoas e organismos que lutam pela manutenção e conquistas desses direitos. O candidato já chegou a se referir a essa luta como “o esterco da vagabundagem”.

Fonte: https://twitter.com/jairbolsonaro/status/765728819126951936

Seu filho, Carlos Bolsonaro, chegou ainda a sugerir para a redação do ENEM, num cenário em que seu pai se eleja, a temática “Direitos humanos: o esterco da vagabundagem”:

Fonte: https://twitter.com/CarlosBolsonaro/status/926653960064307201

Além disso, Bolsonaro já declarou que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), documento que além de defender os direitos dos indivíduos nesta faixa-etária é um símbolo da luta pela proteção que deve ser feita a esses, deveria ser “rasgado e jogado na latrina”, após afirmar que seus próprios filhos deram o primeiro tiro quando tinham 5 anos de idade.

Bolsonaro ensinando a uma criança como fazer o símbolo de uma arma. Imagem: Reprodução / Twitter

 

O candidato já se declarou favorável à tortura e fez até mesmo uma homenagem a Carlos Brilhante Ustra — um dos mais cruéis torturadores da ditadura militar no Brasil, a qual ele se refere como um grande momento em nossa história.

Discurso de ódio contra as minorias

O Candidato também já expôs, inúmeras vezes, repugnância aos grupos já marginalizados em nossa sociedade. Mulheres, negros, indígenas, LGBT+ e refugiados são alvos constantes de seus discursos que, além de incitarem a violência – como no caso de incitação ao estupro em que se referiu à deputada Maria do Rosário – inferiorizam e desumanizam – como quando declarou que foi a um Quilombo e “o afrodescente mais leve de lá pesava oito arrobas [unidade de medida usada para pesar gado], não servem nem para procriador” – potencializando ainda mais agressões de toda sorte.

Bolsonaro já se referiu à sua própria filha como resultado de uma “fraquejada” e em entrevista à revista Playboy em 2011, disse que seria incapaz de amar um filho homossexual. Quando questionado durante entrevista ao Jornal Nacional se comprometeria-se em diminuir a discrepância salarial entre homens e mulheres, limitou-se a dizer que isto é de responsabilidade da CLT.  O candidato já declarou que caso eleito, “índio não terá mais 1 cm de terra”, em incisiva negação aos direitos que lhes são garantidos.

O candidato também encoraja os pais a baterem nos filhos para “entrarem na linha” e mudarem a orientação sexual.

Bolsonaro, durante entrevista ao Roda Viva, posicionou-se contra as cotas das Universidades Federais e disse que, se eleito, vai propor ao Congresso Nacional redução do número de vagas reservadas a negros.

Tendo em vista que o Brasil ostenta índices alarmantes que vão desde o assasinato de um jovem negro a cada 23 minutos à 170 mulheres serem agredidas por dia, cogitar ter como presidente uma pessoa que apoia todas essas vilipendiações é, no mínimo, irresponsável.

Enquanto deputado por quase 30 anos, Bolsonaro aprovou apenas dois projetos de lei e votou contra projetos que beneficiam a população – como o da Lei que protege as pessoas com deficiência – e à favor de projetos que prejudicam a população – como a PEC do Teto de gastos, que congela os investimentos em setores como saúde e educação por 20 anos.

Os principais jornais do mundo já alertaram para o perigo que ele representa à nação. O jornal francês Liberácion o definiu como “homofóbico, racista, misógino e pró-ditadura”. A revista The Economist o classificou como “a última ameaça da América Latina”. O The New York Times, em artigo escrito por Carol Pires, relembra da referência que Bolsonaro fez ao coronel Ustra, líder das torturas durante a ditadura militar.

No próximo domingo, muito do futuro do país estará em jogo. Nós, enquanto jovens comunicadores colaboradores da Agência Jovem de Notícias nos posicionamos ao lado do caminho que não signifique um regresso para o nosso país em questões fundamentais: democracia, direitos humanos e liberdade.

 

Agência Jovem de Notícias

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