ECOFASCISMO E A HIPOCRISIA DE PAÍSES DE PRIMEIRO MUNDO

Ideias xenófobas, racistas e eugênicas têm encontrado abrigo no chamado ecofascismo

Por Antônia Tauanne Rodrigues de Sousa

Ainda no início da pandemia pelo novo Coronavírus, foram amplamente divulgadas imagens e vídeos que preconizavam uma espécie de triunfo dos animais selvagens sob a vida coletiva.

Não raro, pessoas de todo o mundo passaram a compartilhar imagens centradas nessa narrativa, ainda que a maioria não tenha passado de postagens virais falsas, como é o caso da suposta volta de golfinhos em Veneza, que teve cerca de 40.000 curtidas, mas foi desmentida pela  National Geographic.

Diante disso, erroneamente é anunciada uma tragédia social preconizada por benefícios ambientais, premissa que oculta o perigo que reside na atribuição de vantagem ambiental associada ao COVID-19, sob o discurso de que a perda da massa de vidas humanas vale a pena ou é necessária para o bem do meio ambiente. As declarações “Nós somos o vírus” presumem que a humanidade e o planeta são mutuamente exclusivos.

Imagem de Dr StClaire por Pixabay

Os perigos que estão nisso são uma reminiscência de movimentos ambientalistas que no passado defenderam a redução das populações não brancas e não ocidentais (Garcia, 2020) e, infelizmente, a perpetuação do chamado ecofascismo

Os ecofascistas são “obcecados pela natureza, anti-semitas, supremacistas brancos que argumentam que a pureza racial é a única maneira de salvar o planeta”, diz o New Statesman.

A RUNA ALGIZ ASSOCIADA AO ECOFASCISMO CIRCULANDO NAS REDES. Reprodução: New Statesman

Esse movimento tem origem nos anos 1900, quando surgem ideias atreladas ao nacionalismo racial “do sangue e do solo”, em que se pregava que um grupo de pessoas denominadas de “racialmente superiores” teriam uma conexão com a terra em que vivem. 

Essa lógica reverte toda a cadeia de sujeitos e consequências, alocando hipocrisia, preconceito e distorção para uma insinuação que em nada reflete a realidade. Para se ter uma ideia, Jeff Sparrow, em seu livro Fascists Between Us: Online Hate and the Christchurch Massacre”, em um dado trecho cita que conservacionistas como Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, buscava preservar os animais grandes nos quais gostava de atirar, mas censurava os empobrecidos, chamando-os de “caçadores de maconha” por fazerem a mesma coisa para se alimentar.

‘superpopulação’ – ‘os humanos são um câncer para a Terra’ – ‘escassez de recursos’ – ‘Tragédia dos comuns’ – ‘sobrevivência do mais forte’ – Ecofascismo

Logo, o movimento do ecofascismo não busca a responsabilidade das grandes corporações poluidoras, instituições que promovem danos transfronteiriços,  mas objetiva tão somente apontar o dedo e fazer pesar a culpa nas populações deslocadas, inclusive os grupos minoritários.

Foi isso que aconteceu no início de agosto de 2019, em El Paso, no Texas. Um jovem, Patrick Crusius, foi acusado de matar 22 pessoas e deixar dezenas de feridos, influenciado por uma teoria popularizada por Renaud Camus, segundo a qual os “povos europeus” estariam sendo substituídos por imigrantes. Ele abriu caminho com balas de um rifle e um fuzil AK-47 semi-automático, incluindo ideias eco-fascistas no manifesto que ele intitulou como “Uma Verdade Inconveniente”, o mesmo nome dado ao documentário que alerta sobre os riscos do aquecimento global roteirizado por Al Gore, ex vice-presidente dos Estados Unidos e ativista ambiental.

Portanto, é necessário entender toda a equação para que argumentos que reduzem a população marginalizada a um excesso a ser eliminado não sejam reverberados, pois enquanto os países de primeiro mundo exploram exageradamente os recursos do planeta, eles criam cada vez mais barreiras para que os indivíduos adentrem no seu território.

Quer saber mais? Dá uma olhada nessas recomendações:

  1. Livro “Colapso : capitalismo terminal, transição ecossocial, ecofascismo” de Carlos Taibo
  2. Filme de Animação: Princesa Mononoke dirigido por Hayao Miyazaki
  3. Ecofascismo: em defesa do planeta, movimento prega xenofobia e ‘limpeza’
  4. Reflexões sobre Ecofascismo em tempos de Pandemia – LabHeN
  5. Autor do massacre de El Paso disse que seu alvo eram os ‘mexicanos’
  6. Ecofascismo: como a extrema direita quer “salvar” o meio ambiente com xenofobia

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2 Comentários

  • Parabéns, um trabalho muito bem elaborado e que aborda temas de grande relevância para os leitores, principalmente para aqueles que se preocupam com o meio ambiente.

  • Excelente notícia, parabéns

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