Do rádio à internet, indígenas e ribeirinhos usam a comunicação para enfrentar Covid-19

Iniciativas no Xingu e Rio Negro buscam levar informações e alertas sobre a pandemia para povos indígenas e comunidades tradicionais

Por Victória Martins, com colaboração de Juliana Radler e Silia Moan – ISA

Não há nenhuma novidade no uso de ferramentas de comunicação nas aldeias e comunidades tradicionais. A jovem liderança Kayapó Maial Paiakan conta que na década de 1980, o rádio, entre outros meios, foi um grande aliado na luta contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, na época conhecida como “Kararaô”, e nos debates sobre a Constituinte. Mas hoje, no Xingu, são plataformas como o Whatsapp, o Facebook e o Instagram que conectam indígenas e ribeirinhos às notícias da pandemia de Covid-19 que se espalha pelo país.

“Usamos essa ferramenta do kuben (branco), não apenas para mostrar nossa cultura, mas para fazer nossas vozes ecoarem pelo mundo,” conta Maial, que tem participado da produção de áudios informativos em sua língua materna.Fazemos denúncia e estamos informando por meio de podcasts e informativos, para que as lideranças e a comunidade possam ouvir e ler na própria língua todas as informações do que está acontecendo.”

É o que também conta Roiti Metuktire, em áudio enviado da aldeia Piaraçu, Terra Indígena Capoto Jarina, no Mato Grosso, para quem o uso da internet facilita o trabalho de comunicação, já que assim ele não precisa ir até a cidade para acessar dados atualizados sobre a Covid-19.

A ferramenta, que já é usada há cerca de cinco anos na TI Capoto Jarina, também permite mais rapidez na hora de repassar as informações para os demais moradores. “Daqui mesmo a gente consegue baixar as informações, comunicar com o pessoal, com nossos parceiros, com o próprio Ministério da Saúde e a Funai,” diz.

Papre Metuktire entrevista Bedjai Txucarramãe sobre receio da chegada da Covid na TI Capoto Jarina|Roiti Metuktire

Desde meados de março, antes até da confirmação do primeiro caso de Covid-19 em um indígena no país, povos indígenas e comunidades tradicionais estão se mobilizando para proteger seus territórios frente à pandemia. Três indígenas Kayapó morreram nesta semana vítimas de Covid-19 na Terra Indígena Kayapó, no Pará, os primeiros casos de óbito dentro de uma TI na bacia do Xingu. Já foram confirmados 67 mortes e 2,6 mil casos de Covid-19 nos 53 municípios vizinhos às Áreas Protegidas da bacia, entre o Pará e Mato Grosso.

Em um esforço para manter o isolamento e impedir que a doença se aproxime, elas têm usado os meios de comunicação para difundir informações qualificadas e atualizadas para suas comunidades.

O fotógrafo Kamikia Kisêdjê na TI Wawi|Kambrinti Suya

“A gente leva as informações até onde não tem nenhum acesso, para que eles [os indígenas] fiquem sabendo o que está acontecendo lá fora,” comenta o cineasta Kamikia Kisêdjê, que vive na Terra Indígena Wawi, no Território Indígena do Xingu. Suas fotos fizeram parte de uma campanha de arrecadação para a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), além de serem um importante material para alertar sobre a situação nas comunidades indígenas.[Saiba mais sobre o cineasta]

A internet é apenas um dos pontos de uma estratégia de comunicação emergencial combinada entre cada parceiro xinguano e a Rede Xingu +, articulação de indígenas, ribeirinhos e parceiros, como o ISA, que atuam na bacia do Xingu.

Na Terra Indígena Cachoeira Seca, no Pará, por exemplo, não tem televisão. Por lá, a ponte entre a comunidade e o que acontece fora dela é um orelhão. Ao menos uma vez por semana, a equipe de comunicação da Rede Xingu + entra em contato com pontos focais na Terra do Meio, Território Indígena do Xingu e territórios Kayapó, via telefone ou Whatsapp, para compartilhar novidades sobre o avanço da pandemia e receber dúvidas e informes dos povos.

A partir disso, são produzidos vídeos, cards, áudios e informativos com dados atualizados e orientações de prevenção, que são divulgados nas aldeias, comunidades e cidades pelas redes sociais e aplicativos de mensagem. Um exemplo é o vídeo de animação Corpo Vivo, Parente!, que circulou dicas de prevenção à Covid-19 nas comunidades tradicionais através do Whatsapp, Youtube e Instagram.

Kokowiriti Kisêdjê, Diretor Regional do Leste Xingu (Atix)|Kokokahratxi Sompré Suyá

No entanto, em lugares onde a internet não chega, ainda é o rádio que garante que as informações tenham o maior alcance possível. Kokowiriti Kisêdjê, Diretor Regional do Leste Xingu (Atix), vive na aldeia Kinkatxi, Terra Indígena Wawi, e explica que agentes de saúde, equipes de educação e instituições como a Funai, a própria Atix e a Rede Xingu + enviam radiogramas “avisando a toda a comunidade para se cuidar, pra não sair para a cidade”, que são então repassados para as aldeias. Quando chegam novidades, todas as comunidades se ligam no rádio em um mesmo horário para receberem orientações e fazerem perguntas. “Todo mundo está trabalhando junto para ajudar a comunicar as aldeias,” diz.

Naldo Lima, assessor das associações de ribeirinhos da Terra do Meio e um dos locutores do “áudio informativo do beiradão”, explica que as comunicações falam de tudo um pouco. “São dúvidas que vão desde números da doença, cuidados que estão sendo tomados, como também essa questão do auxílio [emergencial],” diz. Além dos áudios, ele também envia os boletins informativos diários da Secretaria Estadual de Saúde e de outras organizações às técnicas de enfermagem das Reservas Extrativistas, por Whatsapp e pelo rádio.

Anderson Castro, da Resex Riozinho do Anfrísio, transmite o áudio informativo para a Terra do Meio|Naldo Lima

Roiti Metuktire confirma que os áudios, vídeos e cartazes extrapolam as informações sobre a Covid-19 e tocam também na proteção do território.Qualquer entrada é vista como uma ameaça, alguém pode estar infectado, a gente não sabe de onde a pessoa veio. Então tudo isso é repassado,” comenta.

Os materiais informativos também exercem um importante papel no controle social das comunidades, incentivando que as pessoas permaneçam nas aldeias e territórios nesse momento.

“Nós conseguimos meios de levar informações aonde a gente não consegue chegar e com isso tem permanecido muito pessoal nas aldeias,” diz Roiti Metuktire. Ele cita a produção de cartazes digitais com os dizeres Fica em Casa, parente! e Fica em casa por nós! e de um vídeo pessoal, compartilhado internamente por Whatsapp, onde ele orienta sobre os perigos de ir para a cidade. “Por mais que alguns ainda não nos ouçam, a gente tá aqui tentando manter o pessoal seguro da melhor forma possível,” diz.

Voz das fronteiras

No Alto Rio Negro, o mais importante meio de comunicação é o rádio. São aproximadamente 300 estações distribuídas em três municípios, Barcelos, São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro, através das quais os comunicadores indígenas veiculam produtos de comunicação em diversos formatos, de boletins de áudio à leitura de decretos e entrevistas com profissionais de saúde.

“Se não fosse radiofonia, hoje os nossos parentes do interior, que moram bem distantes de São Gabriel, não teriam acesso à informação nenhuma,” comenta Edineia Teles, que integra a equipe de comunicação da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). Além do contato com as comunidades mais remotas, onde há pouco ou nenhum acesso à internet, é o rádio que conecta os comunicadores aos polos de saúde indígena. “Sem ele, eu não sei o que seria de nós,” diz.

Edineia Teles, do povo Arapasso, orientando sobre a Covid-19 via rádio|Arquivo pessoal

O Comitê de Enfrentamento à Covid-19, criado em março, encarou desde o começo a comunicação como uma arma estratégica no combate à doença no Rio Negro. Juliana Radler, assessora do Instituto Socioambiental (ISA) no Alto Rio Negro, explica que antes mesmo da confirmação do primeiro caso em São Gabriel Cachoeira, a cidade mais indígena do país, a Foirn, a Rede Wayuri de Comunicadores Indígenas e o ISA se responsabilizaram por ações de comunicação em apoio à Secretaria de Saúde de município e ao Dsei Alto Rio Negro.

“Em um primeiro momento, a perspectiva era toda trabalhar a prevenção,” diz Juliana. Assim, os comunicadores se apressaram em produzir cartilhas em português e nas línguas indígenas Baniwa, Tukano, Nheengatu e Daw com orientações de cuidado e permanência nas aldeias, para serem entregues aos agentes de saúde e nas UBS da cidade.

Carro de som em São Gabriel da Cachoeira|
Arquivo pessoal

Nessas primeiras semanas, áudios e podcasts informativos feitos pelos comunicadores indígenas também começaram a ser transmitidos, tanto através da rádio quanto em carros de som, que passaram a circular pelo município com o alto índice de aglomerações no início da pandemia. “Há muitas pessoas que não têm acesso à internet e com o carro tivemos oportunidade de deixar informados,” diz Edineia.

Com a chegada da Covid-19 à São Gabriel, no dia 26 de abril, a comunicação precisou se tornar mais ágil, e o trabalho do carro de som foi fortalecido. Atualmente, além de São Gabriel, o carro está circulando nas áreas periurbanas, via BR-307 e Estrada Camanaus, onde diversos sítios e comunidades, por não estarem nem dentro de TIs e nem próximas às cidades, podem ficar desassistidas. A intenção é fazer com que os moradores evitem ir à sede de São Gabriel, onde já há transmissão comunitária. O carro de som tem circulado principalmente através de recursos arrecadados pela campanha Rio Negro, Nós Cuidamos, da Foirn.

A produção e compartilhamento de áudios e boletins pela rede de radiofonia e pelos celulares também se intensificou. O Whatsapp se tornou um grande aliado, principalmente na sede de São Gabriel, mas também com comunidades mais remotas, onde os Pelotões Especiais de Fronteira do Exército recebem as informações e repassam para as aldeias por bluetooth. O Instituto Socioambiental também está produzindo boletins diários por Whatsapp que relatam a atuação do Comitê de Enfrentamento e o avanço da doença no Alto Rio Negro.

Elizângela Baré repassa informes sobre a Covid-19|
Arquivo pessoal

A comunicação tem sido referência para a população tanto na sede como nas comunidades Indígenas. Através disso combatemos fake news,” comenta Edineia. “Muitos não vêm à cidade e têm agradecido por levarmos informações das quais não tinham conhecimento,” finaliza.

Médicos sem Fronteiras

Com a chegada da equipe de Médicos Sem Fronteiras (MSF) a São Gabriel da Cachoeira para apoiar as estruturas de saúde da região no enfrentamento à pandemia, o trabalho de comunicação e promoção à saúde será fortalecido. O ISA e a Foirn, com apoio técnico do MSF, vão atualizar as cartilhas inicialmente produzidas, quando ainda não havia transmissão comunitária da Covid-19 na região.

Agora, a ideia é trabalhar intensamente junto com os profissionais de saúde, intensificando os aspectos de isolamento social, higiene de toque, início dos sintomas e uso correto da máscara para as populações indígenas. Também será desenhada uma estratégia de comunicação e formação para os agentes indígenas de saúde (AIS), com foco na biossegurança, testagem e busca ativa da doença nas comunidades.

“A promoção de saúde vai atuar fortemente para não permitir que os casos de Covid-19 se agravem entre os indígenas. Percebemos que as pessoas estão ficando doentes e em alguns casos demoram a buscar ajuda médica. Então, a comunicação será um instrumento importante para acelerarmos o diagnóstico e atendimento dos pacientes indígenas”, ressalta o enfermeiro do MSF, Julio Rennê.

Importante também concentrar esforços na população indígena da área urbana e periurbana. Esse é o grupo mais vulnerável à contaminação. Os registros apontam que a etnia mais afetada pelo coronavírus em São Gabriel da Cachoeira é a Baré, que também mora há mais tempo em área urbana e convive mais intensamente na cidade. Por isso, os informes através das rádios AM, FM e uso das mídias sociais também serão intensificadas neste momento de transmissão comunitária em São Gabriel, que já soma, até o dia 28 de maio, 1.539 casos e 21 óbitos.

Texto originalmente publicado no site do Instituto Socioambiental, em 29 de maio 2020.

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