Diários do isolamento: uma parábola sobre sermos sementes

O desânimo bateu lá pelo quarto mês de quarentena. Agora, às vésperas do início do 11º mês sitiada pelo coronavírus e com a compreensão de que o “novo normal” não vai chegar, retomo o fio da meada por aqui

Por Silvana Salles

Confesso que, lá pelo meio do ano passado, bateu um desânimo tão grande que não tive mais vontade de escrever. Parecia que tudo que poderia ser dito já estava sendo dito por outras pessoas. Foi só perto do réveillon que compreendi que não escrevo para dizer “o que precisa ser dito”, mas para me comunicar com outras pessoas e dar sentido ao mundo. Quem sabe não damos, juntes, algum sentido ao que estamos vivendo? É o que procuro fazer quando leio algum livro.

Algum tempo atrás, já na reta final do horroroso ano de 2020, li a A Parábola do Semeador, de Octavia E. Butler. Nunca tinha lido nada dessa premiada autora de ficção científica e foi maravilhoso descobrir essa escritora negra norte-americana que teve de enfrentar a pobreza, a dislexia e o racismo para fazer da escrita seu ganha-pão.

A primeira coisa que chama a atenção no livro é o título, uma óbvia referência a uma passagem bíblica que fala sobre dificuldades, perseverança e a força das ideias. A Parábola do Semeador de Butler começa em um condomínio na Califórnia na década de 2020. Em uma “gated community”, como dizem os norte-americanos. Nesse condomínio, os muros servem para proteger os moradores da comunidade de todo tipo de ameaça, real ou imaginária: pedintes, assaltantes, traficantes, estupradores, assassinos e animais ferozes. No entanto, eles não são suficientes para poupar os habitantes das condições impostas pela desigualdade, pela corrupção e pelo clima extremo da Califórnia distópica de Octavia.

Imagem mostra capa do livro 'A parábola do semeador', de Octavia Butler.
Apesar de ter sido publicado pela primeira vez em 1993, A Parábola do Semeador foi o livro para ler em 2020

Nessa Califórnia de extremos, quase não chove, a água e os alimentos são caríssimos, os empregos são escassos, abusivos e mal pagos, os jovens não têm nenhuma perspectiva para o futuro. Há hordas de pessoas em situação de rua após perderem suas casas, fazendo o que tiverem de fazer para sobreviver. Existe um governo, mas ele é distante e ineficaz, e quase ninguém mais acredita que eleições mudem alguma coisa. A polícia é violenta, corrupta e complacente com a criminalidade. Serviços públicos essenciais custam taxas exorbitantes; prédios queimam sem que bombeiros ou poder público se incomodem minimamente. Grandes empresas, porém, seguem acumulando lucros em meio ao caos. E, no dia a dia, racismo e machismo continuam infestando as relações entre as pessoas.

Quem nos apresenta esse panorama de completo desalento é a protagonista, a adolescente Lauren Olamina. Ela está angustiada porque enxerga que as esperanças de seus vizinhos estão bastante descoladas da realidade. Sejam essas esperanças as de que o resultado da próxima eleição melhore as coisas, a chuva no próximo ano garanta o sucesso de suas hortas ou a gleba privatizada de terra urbana ao sul de onde vivem represente a solução de seus problemas. Pior ainda, ao alimentar falsas esperanças, seus vizinhos deixam de aprender e desenvolver habilidades essenciais para a sobrevivência quando os muros não puderem mais protegê-los.

Para enfrentar essa realidade, Olamina estuda muito, reúne todo conhecimento e ferramentas que tem à disposição e se prepara para emergências. Ela tem uma ideia de como navegar pelos escombros do mundo da geração de seus pais, e essa ideia passa por costurar uma nova religião, impregnada de valores que ajudem as pessoas a sobreviverem à completa desagregação da economia, do Estado e dos laços comunitários. Com essa nova religião, aos poucos e com muito esforço, seria possível semear um mundo novo.

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Olamina é meio mística e, às vezes, soa um pouco como uma profetisa do apocalipse. É com seu pai, professor universitário, pastor e liderança da comunidade, que ela aprende qual é o valor da esperança. Muito para o aborrecimento da adolescente, seu pai tolera as falsas esperanças dos membros da comunidade. Ele organiza a comunidade de forma que todas as crianças e adolescentes possam aprender a ler, escrever, fazer contas, consultar mapas, cultivar alimentos e usar armas. Monta equipes de autodefesa para repelir invasores, media conflitos e convida a todos para se juntarem na igreja aos domingos.

Apesar desses esforços, para a jovem Olamina, seu pai não é devidamente contundente quanto à iminência do perigo. Ela demora a entender que é graças à esperança que seus vizinhos conseguem cooperar entre si: trabalhar juntos, trocar favores e gentilezas, cuidar dos desassistidos, criar e educar as crianças, continuar cultivando suas hortas mesmo quando o tempo quente e seco esturrica todas as plantas.

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Imagem mostra uma senhora negra - a autora de ficção científica Octavia Butler - autografando um livro.
Octavia E. Butler demorou 44 anos após a publicação de seu primeiro livro para chegar à lista dos best sellers do New York Times. A Parábola do Semeador é tão atual que chegou lá — vejam só — em 2020

Terminei de ler A Parábola do Semeador pensando que o livro poderia ter sido escrito por uma mente afiada durante a quarentena. Mas Octavia E. Butler morreu em 2006, sem conhecer o coronavírus, o negacionismo de extrema-direita do governo Trump ou a crise financeira de 2008. O livro, aliás, foi publicado nos Estados Unidos em 1993, oito anos antes do ataque às torres gêmeas.

Os melhores escritores de ficção científica — na minha opinião, pelo menos — são aqueles que conseguem projetar um futuro a partir de uma denúncia do presente. Em 1993, a ganância desenfreada do capitalismo globalizado já estava instalada há tempos, deslocando empregos, reduzindo salários, produzindo desigualdades e se apropriando, com a ajuda dos políticos, de bens coletivos fundamentais à manutenção da vida, como a água, por exemplo. Os cientistas já tinham dedicado uma década de trabalho para sistematizar dados sobre a atmosfera, o solo e os mares do nosso planeta e alertar para a iminência da crise climática. Dou apenas dois exemplos, mas o livro de Octavia é permeado por muitos outros.

Eu, que nasci nos anos 1980, costumo lembrar da década de 1990 como um mundo bastante diferente deste que estamos vivendo em 2021. Não por causa do SARS-CoV-2, exatamente. Mais por causa da internet, dos smartphones, dos acontecimentos da política, das pautas feministas terem entrado na agenda até mesmo de uns homens bem machistas, da gente poder falar sobre a chaga do racismo num almoço de família após décadas fingindo que o problema não existia. A aventura de Olamina, tão forçada pelas circunstâncias, funcionou como um beliscão para me trazer de volta ao presente, expondo a memória como ela realmente é: algo que é construído e reconstruído a todo momento e que não é, nem poderia ser, um retrato fiel do passado.

Nossas vidas são atravessadas por temporalidades diferentes; nossa história é um tecido com uma aparência meio desconjuntada, com fios de diferentes tamanhos e cores que se agregam à trama em padrões diversos, formando uma bagunça terrível. Isso significa que, embora o smartphone seja uma relativa novidade, a crise climática não é. A exploração capitalista também não. O mundo de 1993 era muito mais semelhante ao de 2021 do que nossa memória admite. O que faremos daqui para frente para sobrevivermos às condições impostas por ameaças que já estavam colocadas há 30, 40 ou 150 anos? A Olamina de Butler não tem mais respostas a essa pergunta do que qualquer um de nós. Ela conta apenas com empatia e com as relações de cooperação e confiança que conseguiu construir.

Arte em fundo branco. Na lateral esquerda, linhas finas coloridas e a foto de uma jovem branca de cabelos crespos e óculos. Texto: Silvana Salles. Ex virajovem, hoje uma jornalista que estudou história e ciência política. Gosta de falar sobre livros e participação política.
Escreve em seu blog na plataforma Medium. logo medium quemparticipa. logo twitter @quemparticipa

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