São Paulo SP 04 05 2020- A partir da proxima quinta feira será obrigatorio uso de mascara em toda as cidades do estado de São Paulo A informação foi dada hoje (4) pelo governador João Doria. Foto: Rovena Rosa/Agencia Brasil

Diários do isolamento: por que a quarentena não cola?

Depois de semanas de queda na adesão à quarentena, uma pergunta insiste em se insinuar. Será que a situação da epidemia vai piorar nos próximos dias?

Por Silvana Salles, no Medium

A adesão ao autoisolamento está caindo em São Paulo pelo menos desde a volta do feriado de Páscoa. E em breve, para andar na rua, será obrigatório o uso de máscaras.
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil, via Fotos Públicas

Parei de contar há quantos dias estou em casa. Muitos amigos dizem que pararam também de acompanhar o noticiário. Por aqui, continuo trabalhando com o canal de notícias ligado do meu lado. São ossos do ofício, não há como evitar. Às vezes, as notícias nem parecem novidades; são mais como resultados há muito anunciados de um acontecimento que vem se desenrolando lentamente. Creio que uma epidemia é exatamente isso: um acontecimento que não acontece de uma vez. Que, ao invés, vai atropelando nossos planos como uma grande onda que arrasa praia por praia, continente por continente

Imagine que duas praias vizinhas e outras cinco mais distantes já foram atingidas pela grande onda. A praia onde você está é a próxima do mapa. Algumas pessoas, mais precavidas, já saíram da praia, reuniram a família e foram procurar abrigo para se proteger da enchente que está prestes a chegar. Outras riram da preocupação alheia e deram de ombros: “é só uma ondinha, e nem vai chegar aqui”. Quem é você nessa praia?

No caso da covid-19, a onda já chegou aqui, e não chegou como marola. As covas coletivas e as UTIs lotadas estão nos noticiários todos os dias para quem quiser ver. Acontece que, no Brasil real, os nossos dois tipos de personagens praianas hipotéticas têm a companhia de mais outra: a pessoa que não aderiu ao autoisolamento porque não terá o que comer se ficar em casa.

Ao longo de semanas de crise sanitária, perdi a conta de quantos especialistas em saúde, biologia ou políticas públicas afirmaram que os governos deveriam pagar os cidadãos para ficar em casa enquanto o risco de contágio pelo coronavírus for crítico. Inúmeras vezes o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou em coletivas que o auxílio financeiro é fundamental para garantir que os mais pobres e vulneráveis também possam se proteger da covid-19. Mas o governo brasileiro não parece ter levado a recomendação a sério.

“A gente tem de fato um quadro epidemiológico, mas o mais grave é o quadro político do país, que não contribui para que possamos construir políticas públicas” capazes de enfrentar a pandemia, disse Maria José Menezes, da Coalizão Negra por Direitos, em uma entrevista à jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo. A Coalizão Negra por Direitos é um grupo que reúne entidades do movimento negro em todo o país e se organiza para levar a pauta antirracista ao Congresso Nacional e a fóruns internacionais.

A entrevista foi feita na segunda-feira (4) em um webinar promovido pela Fundación Gabo, uma fundação que promove iniciativas de apoio ao jornalismo na América Latina. A ideia do webinar era discutir como as pessoas em situações de vulnerabilidade estão passando por esse conturbado período de pandemia.

A conversa aconteceu no mesmo dia em que a imprensa noticiou mais e mais filas nas portas das agências da Caixa Econômica Federal pelo país — algumas pessoas viraram a madrugada na rua para conseguir sacar o auxílio de R$ 600 que o governo federal demora tanto a liberar. Aqui no noticiário local, mais uma vez lemos que a covid-19 está avançando nos bairros periféricos de São Paulo, com Brasilândia e Sapopemba liderando o triste ranking de mortes por distrito. São bairros como esses os que registram menor adesão à quarentena.

Este mapa da Prefeitura de São Paulo mostra o número de mortes causadas pela covid-19 em casa distrito. Os dados contabilizados vão até o dia 30 de abril.

Mas por que as pessoas não ficam em casa? Na avaliação da Maria José, da Coalizão Negra por Direitos, trata-se de um problema político que passa pelo complicado sistema que o Ministério da Economia inventou para conceder o auxílio emergencial e também pela forma como as instituições se comunicam com a população. “As campanhas estão muito no nível de classe média. ‘Fique em casa’, mas fique em casa sem comida, sem água, sem energia elétrica?”, questionou a ativista, lembrando também do problema da violência doméstica, que cresceu em alguns estados após o início das medidas de distanciamento social.

Segundo Maria José, as periferias continuam na rua porque é nesses bairros que se concentram os segmentos da população que convivem com maior precariedade e informalidade no trabalho. E são esses bairros os que estão mais vulneráveis ao vírus porque contam com menos aparelhos públicos e assistência médica. Além disso, a população periférica está mais exposta, já que muita gente não só não tem a possibilidade de fazer home office como trabalha em setores essenciais para o combate à pandemia, como saúde, vigilância e limpeza.

O número exato de pessoas que estão com covid-19 nas periferias continua a ser uma incógnita. Só para manter a conversa aqui no nível local, essa matéria da Folha comenta que a elevada letalidade da doença na capital paulista — atualmente, 8,4% — indica a possibilidade do número de casos ainda não notificados ser bastante alto.

Informações como essa balizam o entendimento da Coalizão Negra de que, no Brasil, a dinâmica da epidemia está vinculada aos grupos vulneráveis. Como a vulnerabilidade é atravessada não só por classe, mas também por raça, a entidade se uniu à Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) para pedir ao Ministério da Saúde que inclua dados sobre raça nas declarações de óbito por covid-19. É uma forma de conhecer melhor como a doença afeta desigualmente a nossa população e permitir um atendimento à saúde adequado para as pessoas que precisam. A SBMFC publicou em seu site uma nota sobre a importância de ter acesso a esses dados nas declarações de óbito e nas notificações de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave, a síndrome que o coronavírus desencadeia nos quadros mais complicados.

Eu aproveitei a oportunidade do webinar da Fundación Gabo para perguntar à Maria José como as campanhas de prevenção à covid-19 poderiam ser melhores, de modo a levar em conta a realidade das periferias brasileiras. “Tem uma tradição de achar que a população pobre, periférica, não tem direitos. É (preciso) tratar das questões estruturais das periferias. Que o estado, no nível municipal, estadual e federal, cuide da população. Não deixe sem água, sem saneamento básico, sem alimentação e sem condições materiais para as pessoas sobreviverem”, respondeu ela.

Ou seja: para lidar com a pandemia, ainda falta o básico ao nosso povo. Falta, principalmente, que os governos cumpram com as suas obrigações com o povo.

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