Diários do isolamento, dia 68

Após mais de dois meses fechada dentro de casa e 20 dias sem vontade de postar coisa alguma, volto para relatar os não acontecimentos da quarentena

Por Silvana Salles

“Conquista de Lisboa aos mouros sob o patrocínio de São Crispim e São Crispiniano”: a representação do anônimo pintor do século 17 tem a mais a ver com as referências e imaginário do tempo dele do que com o que foi realmente o cerco de 1147. Fonte: acervo online do Museu de Lisboa.

Demorei mais de 60 dias, mas finalmente consegui terminar o livro que peguei para ler no comecinho da quarentena. Não poderia ter escolhido um título mais adequado para me acompanhar nessa sucessão de dias todos iguais, preenchidos por tarefas cotidianas repetitivas, com muito pouco de aventura. As exceções, vocês sabem, são as invenções gastronômicas, que dominam o topo da lista de coisas aventureiras que alguém pode fazer dentro de casa.

Minha companhia literária dos últimos dois meses foi um livro que estava na minha estante há exatos 17 anos: a História do Cerco de Lisboa, de José Saramago. Desde que peguei o livro nas mãos pela primeira vez (sem nem juntar vergonha na cara para pelo menos tirá-lo do plástico), muitas coisas aconteceram. Fiz faculdade, adotei uma profissão, conheci pessoas, visitei lugares. A estante de livros mudou de formato e endereço algumas vezes. Trintei, depois o próprio livro também — a primeira edição foi publicada em 1989. Já se vão aí dez anos desde que Saramago faleceu e o livro continuava pegando poeira.

Tento me desculpar pelo atraso de 17 anos nessa leitura convencendo-me de que se houve algum momento ideal para chegar à última página da História do Cerco de Lisboa, esse é agora, durante a quarentena. É que, apesar do nome pomposo, o livro é um romance que acompanha algumas semanas na vida de um revisor entediado. Arriscaria dizer que quase tão entediado quanto estamos todos que nos trancamos em casa há dois meses e só saímos para ir ao mercado, à farmácia, essas coisas. Porém, nessa conta o protagonista Raimundo Silva sairia na vantagem, já que ele tem toda a liberdade de se sentar num café ou visitar um castelo medieval esteja o tempo bom ou ruim, enquanto nós estamos dentro de casa mesmo com o sol dos trópicos brilhando lá fora.

Longe de ser um herói de cavalaria digno de uma história de cerco, Raimundo Silva vivia uma vida regrada e cheia de pequenas manias. Também aproveitava muito mal sua quase pornográfica liberdade de ir e vir quando bem entendesse. Em vez do grande carnaval que muitos de nós gostaríamos de estar vivendo, o máximo que ele fazia era talvez ir até a esquina para algo nada emocionante. Nem na cozinha ele se aventurava. No entanto, tudo muda, ainda que mude muito pouco, quando ele tem um belíssimo surto de saco cheio do trabalho e comete um erro proposital numa revisão.

E aí, o livro entra num jogo metalinguístico no qual o autor escreve sobre um cara que está escrevendo um livro. Tem um duplo pacto narrativo: entre o leitor e o autor Saramago, e entre o leitor e o autor Raimundo Silva. Assim, temos a oportunidade de ler o rascunho que o protagonista se mete a escrever de uma história alternativa (embora não tão alternativa a ponto de virar uma série do tipo The Man in the High Castle, por exemplo) da conquista de uma Lisboa então muçulmana pelo exército cristão liderado por Afonso Henriques, que veio realmente a ser o primeiro rei de Portugal.

Apesar de sua história ser uma não-história, Raimundo Silva olha pela janela do quarto com o cuidado de se colocar nos sapatos das pessoas que viveram o episódio do cerco de Lisboa. E mesmo não sendo historiador, esforça-se para escapar do pecado máximo do anacronismo, tentando evitar pôr na boca de suas personagens palavras e conceitos que não existiam em 1147.

Fechada no meu quarto lendo sobre um cara fechado no quarto dele, escrevendo sobre um tempo longínquo, lembrei do historiador francês Fernand Braudel, que nada tem a ver com o personagem do Saramago. Fiquei pensando em que medida se imaginar nos sapatos de pessoas que viveram muitos séculos atrás é importante para dar verossimilhança a um trabalho escrito, seja ele um livro de ficção ou uma tese de doutorado em história.

Alguns anos atrás, produzi um vídeo sobre um livro importante de Braudel, O Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo na época de Filipe II, para o finado Núcleo de Divulgação Científica da USP. Publicado na França em 1949, o livro era a tese do historiador e foi escrito num campo de prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial. Braudel era tenente de artilharia do exército francês. Nunca chegou ao front porque foi capturado pelas tropas da Alemanha nazista antes de qualquer combate, ainda em 1940.

Talvez porque o presente como prisioneiro fosse péssimo e oferecesse poucas perspectivas, Braudel voltou sua atenção a outro tempo e lugar para contar como era a economia, a política e a relação das pessoas com a geografia na Espanha do século 16. Ele descreveu o cotidiano dos camponeses num tempo marcado pela guerra entre os príncipes cristãos da Europa com o sultão do Império Otomano. Acabou descobrindo a longa duração, um termo usado para qualificar processos históricos que se desenrolam muito lentamente, tão lentamente que as mudanças demoram muito mais que nosso tempo de vida para chegarem.

Na interpretação do professor Lincoln Secco, com quem gravei a entrevista para o vídeo que publicamos na época, era como se Braudel estivesse olhando para a ocupação nazista e dizendo, “apesar do presente, há uma França que permanece e que continuará a existir quando tudo isso passar”. Qual terá sido a medida de Braudel para imaginar as vidas cotidianas dos camponeses espanhóis do século 16? Terá sido sequer parecida com a do fictício Raimundo Silva na História do Cerco de Lisboa? E quanto a nós? Em meio a uma crise sanitária, uma crise econômica e uma crise política, qual será a melhor medida para pesquisarmos, ou mesmo imaginarmos, como viveram as pessoas que estiveram aqui em tempos marcados por guerras e crises?

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