Diários do isolamento, a série

Por Silvana Salles

Em tempos de isolamento social, é importante cuidar da cabeça e lembrar que não estamos sozinhas. Algumas anotações diárias durante esse período para manter a rotina — e estimular um pouco de conversa.

Em tempos de pandemia de coronavírus, ninguém sabe muito bem até quando vai o isolamento social. Com organizações adotando o teletrabalho, aulas suspensas, eventos cancelados, shoppings e academias recebendo ordens para suspender as atividades, a adoção da política de distanciamento social fica cada vez mais visível nas ruas de São Paulo.

Será que a quarentena é o fim do mundo? É a pergunta que me faço, enquanto penso em como me organizar para passar os próximos dias aqui em casa da forma mais saudável possível. Isso porque, no meu caso, o saudável sempre envolveu passar muitas horas fora de casa, mais do que a jornada de trabalho diária. Agora, pelo menos por algum tempo, fazer exercício físico, conversar com as amigas e amigos, estudar e muitas outras atividades terão de ser muito mais privadas do que foram até então. Esse podcast da Folha de S. Paulo tratou do assunto e o recado é que a quarentena não é o fim do mundo; tem muita coisa que podemos fazer em casa e curtir.

Aliás, nos Estados Unidos, as pessoas têm marcado happy hours remotos. Os grupinhos se encontram digitalmente em salas de reunião do Zoom, cada um da própria casa, para beber e conversar juntos. Surgiu até um drink novo: o quarantini. Infelizmente, essa reportagem do Washington Post não conta quais são as receitas de quarantini que o pessoal tem feito por aí — só diz que são melhores gelados, servidos em frente à câmera do computador ou do celular. (Parece que teremos que inventar a nossa receita por aqui.)

Por outro lado, com o forte impacto econômico e social que a pandemia do novo coronavírus causa e ainda causará, pode ser que a quarentena seja, sim, o fim do mundo como conhecemos. Um estudo de pesquisadores do Imperial College London mostrou que, se queremos evitar o maior número possível de mortes e o completo colapso dos sistemas de saúde, a quarentena deveria ser mantida até que exista uma vacina para prevenir novas ondas da covid-19. Na conta do editor-chefe do MIT Technology Review , isso deve dar, pelo menos, 18 meses de quarentena.

Neste texto, o jornalista arrisca algumas previsões sobre como poderá ser o mundo do outro lado do túnel da pandemia. Não pude deixar de notar que tem toda cara de distopia a ideia de ter um monitoramento em tempo real das informações e condições de saúde dos cidadãos de um país por meio de dispositivos digitais, bem como a de que algumas pessoas poderão ser barradas de entrar em determinados locais ou acessar determinados serviços a partir de sinalizações deste grande banco de dados dos nossos prontuários médicos.

Não sabemos como será o mundo após a pandemia. Mas espero, sinceramente, que sejamos mais democráticos e igualitários. E que possamos cuidar dos nossos sem sucumbir às tentações de aceitar mansamente esse Leviatã digital ávido por controlar os aspectos mais básicos dos nossos corpos.


Silvana Salles é ex-virajovem e possui o seu blog na plataforma Medium. Ela se define como “uma jornalista que se enrolou em um labirinto de assuntos e está tentando se achar no meio dele”.

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