Diários do isolamento, 2: agressões a profissionais de saúde

Por Silvana Salles

São Paulo é uma cidade triste. Não bastasse a ansiedade que a pandemia de covid-19 causa em todos nós, há ainda quem descarregue a própria angústia em cima das pessoas que estão todas os dias na linha de frente da batalha contra o coronavírus.

Dois profissionais de enfermagem relataram à BBC News Brasil que foram alvo de preconceito e agressões no transporte coletivo nesta semana. Com medo de pegar o vírus, os outros passageiros trataram os trabalhadores da saúde como vilões. Muito diferente das imagens que nos chegam, por exemplo, de Buenos Aires, onde das sacadas e janelas os argentinos aplaudem esses trabalhadores.

Na primeira matéria da cobertura especial que está sendo publicada em parceria pela Gênero e Número e a revista AzMina, as repórteres dão um panorama da situação que profissionais de enfermagem enfrentam no cotidiano do trabalho nas cidades brasileiras. Em suma: falta equipamento, faltam trabalhadores e sobram preocupações com a curva epidemiológica da covid-19, que tende a crescer nas próximas semanas.

Elas também traçam um perfil da categoria, a partir de dados do Conselho Federal de Enfermagem. No Brasil, as equipes de enfermagem são compostas principal por auxiliares e técnicas de enfermagem. As mulheres somam 85,5% das profissionais da área. São, ao todo, 1,2 milhão de técnicas e auxiliares de enfermagem no Brasil e 357 mil enfermeiras.

Segundo uma pesquisa da Universidade Federal da Bahia, as enfermeiras brasileiras atribuem à falta de acesso a equipamentos e procedimentos as principais causas de precarização do trabalho da enfermagem. Já para as auxiliares e técnicas de enfermagem, o ritmo e o desrespeito às pausas e funções são pior.

Ainda de acordo com a reportagem, as enfermeiras brasileiras não estão sozinhas na falta de condições de trabalho. Jornadas exaustivas e falta de equipamentos pesam sobre as equipes de enfermagem também na Itália e nos Estados Unidos. Em Wuhan, na China, quando a epidemia de covid-19 obrigou as equipes de enfermagem a atuarem em condições extremas, as enfermeiras chegaram a raspar a cabeça devido à falta de equipamentos de proteção, usar fraldas adultas para não precisar ir ao banheiro e tomar pílula anticoncepcional para retardar a menstruação, tal era a demanda de trabalho.

Aliás, a falta de equipamentos de proteção individual foi um dos assuntos abordados por dirigentes da Organização Mundial de Saúde (OMS) em coletiva nesta sexta-feira. O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, criticou os governos que fecharam as fronteiras para evitar as exportações desses materiais durante a pandemia. Ele propôs como solução ao problema de escassez de equipamentos o aumento da produção e uma distribuição mais igualitária dos produtos globalmente.

A líder técnica da OMS, Maria Van Kerkhove, afirmou que até mesmo decisões individuais podem prejudicar as equipes de saúde no momento atual. “Precisamos nos certificar de que estamos priorizando os trabalhadores da saúde que estão na linha de frente”, afirmou Maria.

Resumindo: não seja a pessoa que usa máscara por pânico ou para postar selfie no Instagram. Também não seja uma dessas pessoas que xingam os profissionais de enfermagem no metrô. Se possível, fique em casa. E confira as sugestões do psicanalista Christian Dunker nessa matéria que saiu no Jornal da USP. Ele dá dicas para reorganizar a rotina e cuidar da sua saúde psíquica durante a quarentena.

Silvana Salles é ex-virajovem e possui o seu blog na plataforma Medium . Ela se define como “uma jornalista que se enrolou em um labirinto de assuntos e está tentando se achar no meio dele”.

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