Diário de uma ativista na COP26

As aventuras da Amanda Costa, uma ativista climática antirracista na Conferência de Mudanças Climáticas da ONU

Por Amanda Costa

Amanda Costa na COP26 / Acervo pessoal

Olá minha lindeza climática 🙂

Em 2021, tive a honra de participar como jovem delegada da AJN na Conferência sobre Mudanças Climáticas, a COP 26, que reuniu Estados membros da ONU, o empresariado global e a sociedade civil de diversos países para discutir soluções em prol do clima em Glasgow, na Escócia.

Foi uma experiência intensa, divertida, com muito amadurecimento, descobertas e realizações! Neste ano, o Brasil teve uma grande participação de jovens e de pessoas pretas, que mandaram o papo reto e contaram a reaaaal do que está acontecendo na nossa nação.

É triste dizer, mas viramos motivo de chacota internacional. Muitos amigos gryngos me questionaram sobre o governo genocida, ecocida e negacionista do presidente Bolsonaro, o qual prejudica, principalmente, as pessoas mais vulneráveis da nossa nação. 

Agora que as emoções se assentaram e tive tempo de refletir sobre tudo o que vivi em novembro do ano passado, quero compartilhar parte das memórias daqueles dias gelados de Glasgow. Vem comigo?

Amanda, Ellen, Mahryan e Vitória – integrantes do Instituto Perifa Sustentável / Acervo Pessoal

28 a 30 de outubro – COY 16

Amanda e Mahryan na COY 16 / Acervo pessoal

A COY 16 é a Conferência da Juventude organizada pela YOUNGO. Neste ano os objetivos foram:

  • Manter o 1,5ºC no centro dos debates climáticos;
  • Mobilizar a juventude global para responsabilizar os tomadores de decisão de seus respectivos países;
  • Ampliar vozes de ativistas locais para cobrar soluções para os territórios.

Precisamos empoderar as pessoas de todas as idades para agir e liderar.

Patricia Espinosa, Dir. Executiva da UNFCCC

No final do evento entregamos a Declaração Global da Juventude, um documento sinalizando as demandas de jovens ativistas, mobilizadores e líderes de todo mundo sobre nossas prioridades para cuidar do planeta.

29 de outubro – um convite especial

Fui convidada pelo Fundo Conjunto das Nações Unidas para os ODS (UN Joint SDG Fund) para participar do painel The Green Pathway: Climate Finance for a sustainable world (O Caminho Verde: Financiamento Climático para um mundo sustentável).

Na minha narrativa, trouxe a importância do financiamento chegar nas comunidades locais a partir de uma lógica decolonizada e antirracista, que lute contra o modelo de dependência norte-sul. Para isso, é necessário articulação de base e um olhar atento contra o neocolonialismo climático. Você pode assistir a conferência aqui:

02 de novembro – luta antirracista

Representantes do Movimento Negro brasileiro na COP26 / Acervo pessoal

A delegação do Movimento Negro Brasileiro da COP 26 foi recebida oficialmente na City Chambers – Municipal Building Headquarters, a camara municipal de Glasgow, pelo vereador do partido SNP e líder do Black Lives Matter (Vidas negras importam) da cidade, o Graham Campbell.

No encontro, denunciamos o racismo ambiental, pedimos o reconhecimento dos territórios quilombolas, indígenas e ribeirinhos e ressaltamos a emergência em promover o desmatamento zero.

03 de novembro – articulação global

Registro do encontro / Acervo pessoal

Uma das minhas funções é coordenar o Global Shapers HUB SP, a comunidade de jovens do Fórum Econômico Mundial (WEF – World Economic Forum), em São Paulo. Em virtude disso, fui convidada pelo próprio WEF para participar de um talk show com algumas lideranças do Global Shapers Community sobre os desafios climáticos no sul global.

Não dá mais para a gente falar de crise climática sem colocar na mesa as pessoas mais afetadas, né? Confira um pouco do que rolou:

Reunião de articulação / Acervo pessoal

Já no período da tarde, as organizações do movimento negro brasileiro presentes na COP se reuniram com o Senador Jaques Wagner, presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado e com o Deputado Nilto Tatto, membro da Comissão de Meio Ambiente da Câmara Federal. 

Os representantes das organizações ressaltaram a importância dos investimentos públicos de adaptação e mitigação climática passarem pelo reconhecimento dos líderes quilombolas e indígenas e na cidade, das lideranças periféricas locais.

Os parlamentares saíram da reunião com o compromisso de conseguirem uma audiência no Senado que trate das mudanças climáticas a partir de recortes étnicos, raciais e de gênero.

04 de novembro – a juventude do Brasil se encontra

Nesse dia, tive um jantar meeeeega especial com a galera do #Muvuca, o programa de ativismo climático do NOSSAS.

Durante cinco meses, fiz amigos ativistas em todo esse Brasilzãaao e recebemos treinamentos, participamos de aulas sobre clima e suas intersecções, praticamos inglês, estudamos estratégias de mobilização e comunicação climática e finalmente nos encontramos em Glasgow, na Escócia!

Eu amoooo o Muvuca, escrevi 20 artigos sobre o programa e fiquei muito contente pela oportunidade de encontrar meus migos #muvuquereiros pessoalmente <3

05 de novembro – Brazil Climate Hub

Debates sobre justiça climática e racismo ambiental no Brazil Climate Hub / Acervo pessoal

Não dá para falar de justiça climática sem falar de justiça racial!

Foi com essa frase que Douglas Belchior, historiador e uma das principais lideranças do movimento negro abriu o painel “Terra, territórios e o enfrentamento ao racismo nas lutas contra a crise climática: o Movimento Negro Brasileiro na COP 26”, que aconteceu no Brazil Climate Hub.

No meu momento de fala, ressaltei que as periferias são as mais impactadas pelas consequências da crise climática, causada pelo modelo patriarcal, heteronormativo, elitista e de supremacia branca que rege a nossa sociedade.

Uma coisa é fato: não podemos falar de clima sem falar de raça, gênero e classe social! É necessário trazer diversidade e pluralidade de vozes para o debate, pois só assim encontraremos soluções verdadeiramente sustentáveis que possam salvar o nosso planeta!

06 de novembro – fomos pra rua

Marcha pelo Clima / Acervo pessoal

O primeiro sábado da COP é conhecido por mobilizar pessoas do mundo toooodo para participar da Marcha pelo Clima.

A Elda Cardoso, co-fundadora da @frentepretauk -coletivo de ação política antirracista, decolonial e interseccional no Reino Unido- desenvolveu uma estratégia massa para que o Movimento Negro Brasileiro liderasse a marcha!

Utilizamos faixas e cartazes para denunciar o racismo ambiental, ecocídio e genocídio promovido pelo presidente Bolsonaro contra a população negra e indígena no Brasil.

Chegou o momento de promover uma política ambientalista que seja intrinsecamente antirracista!

Mahryan Sampaio

07 de novembro – celebrar potências negras

Global Reception para lideranças negras / Acervo pessoal

No domingão, tivemos a confraternização do Global Reception para lideranças negras. Foi tãooooo gostoso, divertido e potente!!! Lembro que tive um choque quando cheguei: só tinha gente preta como convidados e os colaboradores que estavam servindo no evento eram todos brancos!

Eu, enquanto jovem mulher negra, fiquei muito feliz em ver essa alternância de poder. Lembro de olhar para os lados e comentar com Deus, em meu coração:

Olha quanta gente linda!!! Olha o sorriso desse cara, olha a beleza desta mana. Eu estou no paraísoooo?! 😍

08 de novembro – a juventude brasileira encontra os CEOs

Registro do evento / Acervo pessoal

O Carlo Linkevieius Pereira, diretor executivo da Rede Brasil do Pacto Global (e um grande amigo <3) convidou alguns representantes da juventude brasileira para um café da manhã chiquérrimoooo com os CEOs de empresas conectadas à ONU.

No meu momento de fala, compartilhei que não existe juventude, mas juventudesssss: somos plurais, diversos e trazemos realidades múltiplas. Além do mais, falei para a galera ryyyca que enquanto estávamos naquele banquete, grande parte das pessoas pretas e pobres no Brasil estavam em uma situação de grande vulnerabilidade, pois nossa nação voltou para o mapa da fome. E aí perguntei:

O que vocês estão dispostos a fazer para mudar essa realidade?

Falei com jeitinho, mas falei. Às vezes o óbvio precisa ser dito, né?

09 de novembro – novos negócios e clima

Registro do evento / Acervo pessoal

O IBRAF – Instituto Brasil África me convidou para participar do evento Startups, Youth Empowerment and Climate Change: ESG in the International Agenda (Tradução: Startups, Empoderamento Jovem e Mudanças Climáticas: ESG na Agenda Internacional).

Nesse evento, provoquei meus ouvintes a abandonar a ideia das favelas apenas como um local de pobreza, escassez e perigo, mas pensar nesses territórios como um espaço de potência, onde podemos encontrar soluções decolonizadas para as múltiplas crises que estamos vivendo.

10 de novembro – debate e articulação

Amanda Costa e Rodrigo Agostinho / Acervo pessoal

Cássia Moraes, diretora executiva do Youth Climate Leaders (YCL) e membro do Centro Brasil no Clima (CBC), me convidou para uma live com o Deputado Rodrigo Agostinho e o pesquisador André Santos.

Falamos sobre as decisões da conferência, pontos de atenção no acordo climático e compartilhamos fofoquinhas ativistas sobre o que estava rolando no evento 😝.

Confira nosso papo no Insta do @youthclimateleaders 🙂

11 de novembro – entrevista

Amanda Costa e Bruna Veríssimo / Acervo pessoal

Para fechar o rolê COP, entrevistei a Diplomata Bruna Veríssimo 🎉

A Bru é facilitadora do Grupo UBIQUE, um curso preparatório para o CACD – Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata e também compartilha diversas dicas no seu Insta para quem tem o sonho de seguir carreira na diplomacia e precisa de uma forcinha nos estudos.

12 de novembro – meu último dia na COP26

Ufa, chegamos no último dia!

A COP é um evento glamouroso, de muita articulação, influência e visibilidade. Contudo, nem tudo é close e existem muuuitos objetivos por trás. Entendi na prática o que é disputa de poder, jogos de interesse, luta por narrativa e estratégias de enfraquecimento político.

No final da conferência eu estava D-E-S-T-R-U-I-D-A. 

Não quero romantizar o debate climático, por isso decidi encerrar esse artigo trazendo a minha verdade.

Eu super curti participar da COP, mas paguei um preço alto: foram meses de preparo, articulações, mobilizações, engajamento, projetos de captação e muitas orações para que eu não surtasse durante esse processo 😂.

Apesar da loucura, estou realmente engajada com a luta climática antirracista e preciso de parceiros e aliados. Esse ano a COP será no Egito e debates importantes vão acontecer nesse lugar. Bora levar uma delegação AJN?

Jovens brasileiros na COP26 / Acervo pessoal

Quer saber mais sobre a COP? Confira as matérias que participei:

Leia também as matérias produzidas em português pelos jovens da delegação da Agência Jovem na COP26:

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1 Comentário

  • Quanto orgulho de vocês jovens brasileiros, engajados na luta pela preservação do meio ambiente.

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