Dia da Abolição da Escravatura

Reflexões dos impactos do dia 13 de maio na sociedade brasileira.

Por Amanda da Cruz Costa

Ilustração de Ricardo Chucky. Reprodução Instagram

Hoje é um dia muito importante para o povo brasileiro, pois celebramos a Abolição da Escravatura. Há 134 anos, a princesa Isabel teve um ato corajoso, altruísta e heróico: com muita ousadia, ela assinou a Lei Áurea, documento que extinguiu a escravidão no Brasil e garantiu a liberdade para todos os negros!

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Parece até piada contar a história desse jeito, né?

Mas muitos livros de história sustentam essa narrativa mentirosa e fraudulenta, enaltecendo as pessoas que deveriam ser responsabilizadas. Nossa nação foi a última das Américas a abolir a escravatura e, por cerca de 350 anos, o Brasil foi destino de 4,5 milhões de pessoas africanas escravizadas.

Nosso país é considerado o maior território escravagista do Ocidente.

A real é que sinhazinha Isabel foi obrigada a abolir a escravidão por pressão da Inglaterra, que simplesmente queria ter acesso a um mercado consumidor para exportar seus produtos.

Além da pressão estrangeira, o sistema escravagista já se mostrava insustentável. Inúmeras lutas foram travadas e diversos fatores antecederam o Dia da Abolição; diversas cidades brasileiras passaram por um período de “Revoluções Liberais”, como a Revolução Pernambucana de 1017, a Confederação do Equador em 1824, a Revolução Praieira de 1848, a Revolta dos Malês de 1835. Esses atos demonstravam que se o governo não mudasse a postura, o povo daria um jeito.

Apesar de abolir a escravidão, o governo imperial não criou nenhum projeto, política ou estratégia de inserção dos negros na sociedade, fazendo com que muitos ex-escravos fossem obrigados a viver na extrema pobreza, sem direito a usufruir a terra que trabalharam por tanto tempo.

Sem acesso à terra, moradia e alimentação digna, os antigos escravos tiveram que lutar para sobreviver à desigualdade de acessos, mas, também ao racismo e a desumanização como consequência do período escravista.  Nada muito diferente da realidade das favelas, periferias e comunidades de hoje.

A favela foi parte da solução para a carência habitacional da época!

Davison Coutinho

Precisamos questionar a narrativa hegemônica, a forma como a mídia retrata a história e como os outros, aqueles que estão cegos pelo racismo estrutural, dialogam sobre a realidade dos nossos territórios. 

Mas não quero romantizar a favela.

Trazer uma história real também é contar os desafios. Desafios que não são culpa dos moradores, mas sim dos diversos governantes que assumiram o poder e não investiram na infraestrutura, gerando uma total escassez de políticas e serviços públicos para os nossos territórios.

Isso não é brincadeira, é real e mata!

Mata, aprisiona, sufoca, silencia… Mas divulgar as injustiças e as necessidades que atravessam os corpos negros nunca foi interessante para a mídia, não é mesmo? 

De acordo com o Mapa da Desigualdade 2021, um morador de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, vive aproximadamente de 22 anos a mais do que um morador da Cidade Tiradentes, no extremo da zona leste da mesma cidade! Isso significa que enquanto a média de vida no primeiro bairro é de 80,9 anos, no segundo é de apenas 58,3 anos.

Esse mapa traz reflexos de condições de vida precária do povo favelado, denuncia a falta de saneamento básico e a realidade de uma população que vive esquecida pelo poder público.

No Brasil, esse descaso tem nome: é o racismo social, econômico e ambiental que atravessa os corpos de quem ocupa a base da nossa pirâmide social.

Esse texto é uma expressão da indignação contra um país que aboliu a escravidão apenas no papel, mas continua perpetuando um sistema de subalternidade, exclusão e silenciamento que fere diariamente a população negra e favelada.

Por isso, eu me recuso a aceitar a realidade imposta e estou disposta a escrever novas histórias. Sei que o desafio é grande, mas no coletivo encontramos a força necessária.

E aí, bora fazer parte dessa missão?

Nos resta a luta. A revolução será preta e favelada.

Walmyr Júnior, Porta-vozes da Resistência

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1 Comentário

  • A questão é como o Brasil vai continuar lidando com o Auto Atendimento: de inicio foram os bancários terem seu quadro de funcionários reduzidos. Com a Covid-19 o Transporte Coletivo do entorno de Floripa até a Ilha demitiu cobradores, ai os que usam habitualmente os ônibus utilizam cartão e os que utilizam eventualmente pagam a passagem ao motorista. Já pensou no dia a dia, quantas vezes a gente consumidor paga pelo produto ou serviço e, ao mesmo tempo nos fizeram absorver atividades que caberia a empresa prestar? E o preço não abaixou, pelo contrário tem a inflação “interna” e do câmbio,
    com detalhe de as categorias profissionais, com raras exceções, estão sem reajuste! Noutros tempos, uma pessoa, que exercesse, atividade sem remuneração e de maneira “informal”, as empresas tinham que regularizar a situação. Atualmente é modernidade ter APP/s no celular, já pensou se sua atividade for disponibilizada em APP/s, afinal startup/s dizem que estão ai para “facilitarem o dia a dia”!!!

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