Desenvolvimento sustentável para que e para quem?

Precisamos mesmo nos desenvolver para ter um mundo melhor, e isso significa ser do jeito que era?

Por Vitória Rodrigues de Oliveira

De forma muito explícita, por mais simples que fosse aquele momento, me dizia muito. Depois de um dia cheio de trabalho pra fazer com que uma parte fundamental de um programa de educação acontecesse e estivesse pronto para que os jovens contemplados pelo projeto se sentissem mais conectados, lá estava eu e uma amiga que amo muito, tarde da noite em um sábado, naquela avenida movimentadíssima. Nunca tinha passado por ela. Aquele dia, foi a primeira vez.

Silêncio. Aquele barulho dos carros passando rápido demais me agoniava, e o horário também, sendo bem sincera. Passando pela Baía de Guanabara completamente poluída, com um odor que só quem passa por lá sabe, fiquei olhando com tristeza, indignação e raiva. Ela virou a cabeça e disse:

sabe, nos dias de calor era só eu andar até aí por uns cinco, dez minutos. Mas não dá, olha isso!

Imagem mostra a Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro. em foco, um peixe morto na areia e pedaços de lixo na praia. Ao fundo, homens com redes de pesca e um barco.
Pescadores na Baía da Guanabara. Tania Rêgo / Agência Brasil

Isso me fez lembrar de que nos fins de semana de sol, não seria preciso ver um metrô, trem ou BRT lotado com a galera que quer tomar aquele banho de mar. Não seria necessário se a gente tivesse uma ótima qualidade na mobilidade urbana carioca, é claro, mas ninguém teria que passar por isso se a mais bela Baía do Rio de Janeiro não estivesse sendo poluída como se não houvesse amanhã. Aliás, acho que do jeito que tá, não tem futuro mesmo.

Conectadas a isso, estão as histórias que um dia foram o tempo presente dos mais velhos moradores da Pavuna e da região. Minha avó me contou, certa vez, que se podia pescar e tomar um banho de rio em águas muito cristalinas. Esse rio é o Rio Pavuna, que hoje é um antro de restos de qualquer tipo de lixo: desde sofá até papel de bala. Sabe onde deságua o Rio Pavuna? Na Baía de Guanabara.

Imagem mostra trecho do Rio Pavuna, no Rio de Janeiro, com sacos de lixo, pedaços de plástico e caixas de madeira boiando na água.
Rio Pavuna / Wikifavelas

Assim como eu, em algum momento você já deve ter ouvido histórias sobre como era viver há umas seis, sete, oito décadas atrás. Pelo menos por aqui, vovó sempre disse que tudo que se precisava pra viver, tinha aqui, em São João de Meriti. Digo tinha porque obviamente, com um crescimento sem planejamento, – que foi muito bem planejado – tudo o que vejo do terraço é uma bagunça, pessoas doentes e a pobreza bem perto.

Estamos vivendo uma crise. Se você ainda não sabia, agora sabe que estamos em uma crise. Uma crise seríssima! E olha, ela não é recente, porque o capitalismo não se mantém sem isso, saca? A crise rola na realidade. Se discorda desse rolê, recomendo que venha fazer uma visita até a minha cidade. Enfim, enfim… esse não é o ponto. O que tô trazendo aqui é que se tinha tudo pra viver bem por aqui.

Há algum tempo bem distante, muito, mas muito antes da minha avó, não era preciso passar longas horas amassado e apertado na multidão de um transporte público.

É normal passar mais tempo no trabalho do que com sua família? Será mesmo que é aceitável ter que atravessar quase metade da região metropolitana para ganhar uma quantia de dinheiro que não dá para nada além das despesas básicas?

No meio desse caos todo, a Organização das Nações Unidas lançou a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. É algo bem legal, que estabelece metas para um mundo melhor. Existem relatórios anuais sobre, indicadores, estudos, um bocado de coisa para analisar se os países do mundo estão indo bem no cumprimento da iniciativa. Além disso, existem ativistas maravilhosos comprometidos com esse rolê super importante.

Arte em mosaico colorido com diversos símbolos relacionados às pautas de desenvolvimento sustentável da campanha da ONU.
Painel de símbolos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU / Reprodução

Mas Vitória, o que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável tem a ver com a sua cidade, amiga, avó… Baía de Guanabara?

Absolutamente tudo. Desde que a ONU colocou seus principais objetivos no sol, tanto aqui no Brasil, quanto no mundo, o termo desenvolvimento sustentável anda se popularizando. Cada vez mais, mais organizações, empresas e etc & tal, andam se dizendo comprometidas com esse bagulho, mostrando que ter responsabilidade social é importante. De fato, é. Se você ainda não sabe disso, fique ligado pois alinhar seu projeto com os ODS dá bom.

Aqui eu não quero criticar a iniciativa dessa galera, muito pelo contrário. O negócio é se perguntar: por que desenvolvimento sustentável? O que é desenvolver? Explica a sustentabilidade?

Como a gente tem algo que se diz em nome da sustentabilidade, no meio de um modelo econômico que só existe e sobrevive porque é baseado no desenvolvimento da exploração das populações mais vulneráveis? Onde, pra quem é pobre, passar o mês sem passar por situações complicadas é praticamente um milagre? Sustentar o quê? Pra quem?

Fica claro pra você que o sistema em que vivemos se desenvolve com uma base escravocrata e se sustenta com o crescimento de seus males?

Pra mim, não existe o termo desenvolvimento sustentável, saca? Se não fosse essa estrutura muito bem planejada por quem tá no topo, a gente nem precisaria disso. Não existe nada para desenvolver quando o pouco que temos está sendo desconstruído aos poucos. Tem que fazer tudo de novo pra dar certo. Não existe desenvolvimento quando a base nem cimento tem. Este termo está no Brasil, o de verdade?

Onde eu moro, pelo menos, onde a renda média dos mais pobres caiu 40% só em 2019. E no meio de uma pandemia, o capitalismo e o racismo ambiental veio à tona quando disseram pra mim e pra minha família que ficaríamos até 20 dias sem água em casa, sendo que uma das maiores recomendações das autoridades sanitárias é de lavar as mãos regularmente. Talvez eu esteja falando besteira aqui? Talvez. Não sei.

O que tenho consciência é de que é impossível falar de desenvolvimento e de sustentabilidade fora da bolha que pauta esse tipo de coisa sempre para as mesmas pessoas da mesma bolha.

É inviável falar disso no meio de uma sociedade que foi e é capacitada para ser consumista pra continuar e que continuará a dar a vida sustentável dos mais poderosos.

Eles dependem da destruição para enriquecer, e nós, que somos a base do sistema, dependemos da preservação. Quem está na frente disso tudo?

Será mesmo que até 2030 vamos atingir a fome zero em um sistema onde o grupo 1% mais rico tem mais que o dobro da riqueza de 6,9 bilhões de pessoas? Não sei, só sei que todas as vezes que saio do portão pra rua, não há nenhuma autoridade pública preocupada com o ‘desenvolver’, e sim com o explorar. “Temos que parar de nos desenvolver e começar a nos envolver”, alerta Ailton Krenak.

Desenvolvimento aqui é o aproveitamento que a galera com muita grana tem pra deixar o pobre cada vez mais pobre. A gente está cada vez mais sem as nossas coisas. Não tem Baía de Guanabara, Rio Pavuna, que aguente. Ultimamente, não ando tendo nem saúde. A única coisa sustentável aqui é a conta bancária com mais de dez dígitos de certas e poucas pessoas.

Por aqui, o desenvolvimento não é chave, mas sim, o resgate do que e de quem fomos um dia.

Mas será que fomos mesmo? Não sei. Acho que não. Isso fica pra outro papo. Pra parar de tagarelar, deixo mais uma vez, uma fala de Krenak retirada do livro ‘Ideias para adiar o fim do mundo’:

“Enquanto isso, a humanidade vai sendo descolada de uma maneira tão absoluta desse organismo que é a terra. Os únicos núcleos que ainda consideram que precisam ficar agarrados nessa terra são aqueles que ficaram meio esquecidos pelas bordas do planeta, nas margens dos rios, nas beiras dos oceanos, na África, na Ásia ou na América Latina. São caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes — a sub-humanidade. Porque tem uma humanidade, vamos dizer, bacana. E tem uma camada mais bruta, rústica, orgânica, uma sub-humanidade, uma gente que fica agarrada na terra. Parece que eles querem comer terra, mamar na terra, dormir deitados sobre 11 a terra, envoltos na terra. A organicidade dessa gente é uma coisa que incomoda, tanto que as corporações têm criado cada vez mais mecanismos para separar esses filhotes da terra de sua mãe. ‘Vamos separar esse negócio aí, gente e terra, essa bagunça. É melhor colocar um trator, um extrator na terra. Gente não, gente é uma confusão. E, principalmente, gente não está treinada para dominar esse recurso natural que é a terra.’ Recurso natural para quem? Desenvolvimento sustentável para quê? O que é preciso sustentar?”

Arte em fundo branco. Na esquerda, linhas finas coloridas e a foto de um jovem de cabelos curtos sorrindo. Texto: Vitória Rodrigues de Oliveira. ARTvista da Baixada Fluminense, cursa Gêrencia em Saúde na Escola Politécnica da Fiocruz. Empreende a ini.se.ativa, ativista no Engajamundo e na Girl Up. Debruça-se sobre advocacy, clima, ensino de impacto social, gênero e saúde pública. Logo instagram @vitoriadeo. Logo Twitter @vitoriadeo.

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