Desenvolvimento do universo infanto-juvenil

Chegado o Dia Internacional da Juventude, gostaria de trazer, com esse artigo, a reflexão sobre as vulnerabilidades que permeiam jovens e crianças. Frisando que, para um desenvolvimento pacífico sobre a compreensão de si mesmo, enquanto atuante no meio social, é necessário o amparo do sujeito no seu processo de construção. Sendo assim, qual é a responsabilidade da sociedade na vida dessas crianças e jovens? 

Por Ana Carolina Martins

Imagem por Ana Carolina Martins

Um indivíduo se constrói através de um sistema educativo social. Dessa maneira, a cultura inicia o seu processo de transmissão juntamente da vida de um ser. Agora, tendo isso em mente, imagine que somos uma “tela em branco”. Em nossa formação como indivíduos, receberemos cores e formas, ‘pinceladas’ e combinações. Os compositores dessa obra são a nossa família – que um dia também foi essa tela em branco – e a sociedade em que estamos inseridos.

Esses dois pilares, família e sociedade, vão nos proporcionar uma construção educativa a partir de suas crenças e valores.

Nesse cenário, onde a família também já esteve nessa posição de “tela em branco”, é possível observarmos que ela é transmissora de uma bagagem cultural já instalada. 

A questão é: como essas crenças estão inseridas e sendo compartilhadas? 

A apreensão do sujeito sobre os valores têm como consequência a inserção moral dele no contexto social, refletindo também em sua tomada de decisões pessoais. Ainda nessa linha de pensamento, onde a criança é, basicamente, estruturada através de sua interação com o mundo, é importante pontuar que essa troca não implica-se apenas ao indivíduo em desenvolvimento. Justamente por ser uma troca. O caráter de construção daquele sujeito reflete o meio social.

E é a partir dessa troca que a identidade passa a ser construída. 

A fase juvenil é uma fase marcada pelo questionamento das forças externas e em como essas forças moldam as suas subjetividades. Uma fase de desvincular-se da criança e visionar o que é e o que pretende-se ser. 

Essa busca por um “Eu” predominante se dá pela necessidade de norteamento e pertencimento. Onde e como será manifestada a sua essência? 

Cada grupo social tem suas características em comum com os demais pertencentes ao mesmo grupo, ainda que inseridos em contextos diferentes. Pensando nisso, lembramos que a criança, e também o jovem, são seres expostos a uma vulnerabilidade delicada.

A criança ainda não tem uma consciência estabelecida sobre o funcionamento social e o seu interior, absorvendo, assim, o que o mundo a fornece; e o jovem passa pelo processo do despertar dessa consciência e questionar exatamente tudo o que se passa.

Dessa maneira, ele enfrenta um processo de formação identitária muito intenso.

O filósofo Eduard Spranger usa uma definição que me deixa muito intrigada. Segundo ele, “nessa fase ocorre algo extraordinário, como uma autorreflexão mais intensa do ser em si mesmo, como um mundo em si mesmo, desligado de tudo o que existe fora dele.”

Entretanto, ainda que o jovem passe por esse processo de imersão absoluta, ele necessita sair dessa imersão, vezes ou outras,  para que possa se localizar e complementar essa descoberta de si.

Imagem por Ana Carolina Martins

Tendo em vista essa exposição à vulnerabilidade psíquica em que essas duas faixas etárias estão comumente expostas, é preciso levar em consideração  em qual contexto social o sujeito está inserido.

Esse indivíduo está em uma posição favorecida pela estrutura do sistema ou está às margens da sociedade? A criança e o jovem já têm as suas complexidades e subjetividades intrínsecas a esse processo de construção, mas em quais condições aquela pessoa se encontra para, então, enfrentar esse processo?

Em minha pesquisa para este artigo, me deparei com muitos pensadores apontando o seio familiar como base preparatória e responsável pelo proporcionamento de um ambiente saudável, do qual o sujeito possa se desenvolver de forma segura. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) reconhece esse apontamento como um princípio básico do desenvolvimento.

Porém, segundo o documentário Em Busca do Caminho de Casa, de 2019, no mundo, são mais de 8 milhões de crianças vivendo em orfanatos. Sendo, a maioria, não órfã.  E, de acordo com os dados coletados no dia 09/08/2021 do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 29.286 crianças e adolescentes encontram-se em situação de acolhimento, estando disponíveis para adoção 4.311.

  A maioria das crianças e adolescentes em situação de desamparo não são órfãos.

Encontram-se nessa situação pelo próprio abandono. Tendo isso em vista, podemos afirmar que esse é um problema social, já que muitas famílias se encontram em situação de negligência e subordinação. Dessa maneira, muitas não possuem condições financeiras ou psíquicas para sustentar a vida de um outro ser. 

Acerca dessa vulnerabilidade psíquica que permeia essas faixas etárias mais o acúmulo das desigualdades sociais, é preciso que haja uma observação atenta sobre esses grupos, juntamente de um diálogo estabelecido com essas crianças e jovens, para entender quais são as suas subjetividades e como atender as demandas dessas complexidades. 

 A abertura desse espaço para que essas vozes possam reverberar incorpora, também, uma intersecção dos interesses das gerações. 

A partir dessa posição, jovens e crianças criam uma capacidade de entendimento sobre o percurso histórico até ali, e gerações anteriores passam a compreender que há uma nova linguagem de comportamento sendo instalada.

Crianças e jovens precisam ser inseridos no espaço como atuantes ativos, para que possam criar consciência sobre si, de sua função no espaço social e sobre os seus direitos.

Art. 16º, inc. VI – O direito à liberdade compreende participar da vida política, na forma da lei (ECA)

Imagem por Ana Carolina Martins

Para alcançar esses grupos é preciso adotar metodologias que sejam compatíveis com a sua contextualização e faixa etária. É imprescindível a difusão de atividades que estimulem a percepção do grupo infanto-juvenil sobre si. 

Spranger diz ser a juventude o momento mais importante de um sujeito, visto que é onde ele se depara com questionamentos, que concedem a individuação, acerca de tudo. Nessa lógica, conforme alcançamos nossa compreensão, adquirimos uma maior facilidade para lidar com esses conflitos. 

E, com esse artigo, gostaria de plantar a semente da reflexão de que, para que ocorra um processo pacífico do desenvolvimento dessa compreensão, é necessário o amparo sobre todo o desenvolvimento de um ser.

Quer ler mais? Confira essas referências:

  1. Os conflitos e valores na juventude: transição para a maturidade
  2. ABANDONO FAMILIAR INFANTO- JUVENIL: UM OLHAR SOBRE UMA INSTITUIÇÃO DO AGRESTE PERNAMBUCANO Keliane Lima da Silva
  3. A construção da identidade na Educação Infantil
  4. Dia da Adoção: Brasil tem 34 mil crianças e adolescentes vivendo em abrigos
  5. Dossiê das gerações: como comunicar com os Millennials, GenZ e Alphas

Leia também: Por que crianças e adolescentes são separados de suas famílias? Por Lívia Gariglio

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2 Comentários

  • Que texto incrível! Ótima reflexão

  • Emoionante! Em um ponto nos esclarece e em outro nos joga em um abismo de indagações. Mas é a procura por respostas que nos impele a crescer. Cresçamos; pois. Meus parabéns à autora, Ana Carolina.

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