“Descomemoração”: golpe militar brasileiro completa 50 anos

Evandro teixeira

Bruno Ferreira, da Redação | Imagem de destaque: Fora do Eixo MG | Imagens: Evandro Teixeira e Truque da Banana, respectivamente

Há 50 anos iniciava-se no Brasil um nebuloso período da nossa história, marcado por sistemáticas violações de direitos à população, especialmente a censura e a perseguição aos adeptos do socialismo ou aos que possuíam valores e crenças discordantes daqueles que, arbitrariamente, tomaram o poder em 1964. O Brasil sofria um golpe de Estado com a deposição do então presidente João Goulart. De acordo com o calendário oficial, o golpe foi em 31 de março daquele ano. No entanto, historiadores e movimentos sociais defendem que tudo aconteceu em 1º de abril.

“O golpe de Estado ocorre quando o processo democrático, ou seja, o processo de escolha dos governantes pela maioria da população, é interrompido bruscamente”, define a historiadora Gabriela Pessoa, em artigo publicado na Revista Caravela. No texto, ela ainda afirma que “no passado, esses golpes vinham com justificativas diversas, seguidos, muitas vezes por regimes militares violentos”. Foi exatamente o que aconteceu no Brasil.

O presidente João Goulart – conhecido como Jango – causou estranhamento aos setores mais conservadores da sociedade ao defender com rigor reformas de base, como a desapropriação de terras improdutivas e sua ocupação por camponeses, o que hoje conhecemos por “reforma agrária”. Ideias como essa fizeram com que militares e a classe média acreditasse que o então presidente tinha forte ligação com o comunismo, afirmando que o político tinha intenções de implantar o sistema no Brasil. E, para impedir o suposto projeto de Jango, os militares resolveram intervir.

Especialistas afirmam que o golpe militar no Brasil – e em outros países da América Latina – foi financiado pelos Estados Unidos, numa tentativa de conter o avanço do socialismo pelo mundo. Os militares não conseguiram impedir que Jango, vice de Jânio Quadros, assumisse a presidência quando este renunciou ao cargo em 1961, mas a CIA passou a subsidiar oposições conservadoras que tinham interesse em quedas de governos com características esquerdistas, segundo o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, em artigo publicado no site Outras Palavras.

“A campanha da CIA prosseguiu, instigando greves tanto nas cidades como nas fazendas, e com outras ações, cada vez mais radicais, para que caracterizassem uma guerra revolucionária, denunciada pelo deputado Francisco Bilac Pinto, da UDN, em vários discursos na Câmara Federal, nos quais acusava o presidente Goulart de apoiá-la”, afirma Bandeira em seu texto.

O regime militar durou 21 anos, caindo, definitivamente em 1985, com a eleição de Tancredo Neves para a presidência, final de um processo de pressão da sociedade civil por eleições diretas no país, conhecido como Movimento Diretas Já, que reuniu estudantes, intelectuais e militantes de esquerda. Tancredo, no entanto, não assumiu a presidência, pois morreu às vésperas da posse, assumindo o seu vice, José Sarney, em abril de 1985.

Controvérsias

Truque da banana

Apesar de oficial, questiona-se o 31 de março como data efetiva do golpe. O historiador Jorge Ferreira, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirmou, em entrevista para o site G1, que em 31 de março de 1964, o movimento pelo golpe de Estado ainda mediava forças com o presidente, que se mantinha resistente às tentativas de intervenção dos militares em seu governo.

O historiador Marcos Napolitano, da Universidade de São Paulo (USP), na mesma linha de Ferreira, afirma, também ao G1, que foi em 1º de abril que o movimento golpista se fortalece com a adesão de influentes militares: Castello Branco e Costa e Silva, que se tornaram, respectivamente, os dois primeiros presidentes do regime militar. Os seguintes foram Emílio Garrastazu Médici e João Figueiredo.

“O dia 1º é o dia em que Jango perde efetivamente o controle do Exército, não consegue forçar uma reação legalista. A rebelião militar é desencadeada no dia 31, mas o golpe de Estado, como engenharia política, que realmente tira as bases da Presidência como figura institucional, ocorre no dia 1º”, declara o historiador ao G1.

Pegaria mal para os militares assumir, no entanto, que o golpe foi dado em 1º de abril, conhecido mundialmente por ser o Dia da Mentira. No entanto, a data é perfeita para simbolizar uma das mais arbitrárias ações da história do Brasil. É como afirma Mário Magalhães, em artigo publicado no site UOL:

“Até pouco depois do meio-dia de 1º de abril, João Goulart não arredava pé do Palácio Laranjeiras, local dos despachos presidenciais no Rio (a capital já se transferira para Brasília). Como poderia ter sido derrubado na véspera, 31 de março? Por volta das 13h, na 3ª Zona Aérea, Jango embarcou para Brasília. (…) Só em 1º de abril o Forte de Copacabana passou às mãos dos golpistas. Ao seu lado, o QG da Artilharia de Costa foi tomado às 11h30. Preocupados com o fato de que golpearam no 1º de abril, oficiais mentiram sobre a data da virada de mesa no Forte de Copacabana, datando 31 num relatório”.

De acordo com o Dossiê Ditadura: Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964-1985), cerca de 150 militantes encontram-se, até hoje, desaparecidos desde a época do regime militar. Além disso, entre os perseguidos pelos militares, há o jornalista Vladimir Herzog – perfilado na seção Que Figura da edição nº 75 da Vira -, que foi assassinado, mas declarado como suicida. Recentemente, no entanto, seu atestado de óbito foi retificado, assim como o de outras pessoas mortas nesse período.

Jornalista, professor e educomunicador. Responsável pelos conteúdos da Agência Jovem de Notícias e Revista Viração.

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