Deixa-me queixar estou com preguiça de viver

Em uma sociedade queixosa, temos por hábito terceirizar a nossa culpa, falta de amor, traições, inimizades, o estranho (heimlich)… Em um processo psicanalítico, tende-se a subverter esse jogo, ao passo que, o que se torna visível na repetição da nossa queixa demonstra uma marca subjetiva do sujeito, que podemos chamar de fantasia.

Por Reynaldo de Azevedo Gosmão

Em uma das frases da psicanalista Maria Homem, ela afirma: “o real da morte é a repetição”, mas por quê?

Em uma sociedade queixosa, temos por hábito terceirizar a nossa culpa, falta de amor, traições, inimizades, o estranho (heimlich)… Em um processo psicanalítico, tende-se a subverter esse jogo, ao passo que, o que se torna visível na repetição da nossa queixa demonstra uma marca subjetiva do sujeito, que podemos chamar de fantasia

Com esta marca o sujeito vai estruturar seus relacionamentos, em diferentes tipos e ordens! Então, a repetição que tratamos como “o real da morte” não é aquela de ficar ou não com João ou Maria, em fazer uma escolha em parar ou não de comer chocolate, de trabalhar ou não compulsivamente, mas o “resto” que advém dessas queixas que se torna importante.

Uma psicoterapia que trabalha na perspectiva de te ensinar a trocar de João para Pedro, é uma psicoterapia idealista, porque não se trata do outro, mas da “cena” está em que o sujeito tem se estruturado para dar a tonalidade para suas relações, ou seja, qual é o seu modo de funcionamento dentro de um relacionamento. 

Mudar de relacionamento, de ciclo de amigos, ou qualquer outra coisa não é o cheque em branco para tapar suas faltas, os “buracos” são constituintes da condição humana.

Para ser bem claro: não se trata em uma análise de aprender a fazer a melhor escolha, se antes não houver as questões: – Por que me queixo com a falta de amor? – Por que escolho aqueles que não me oferecer o que desejo? Talvez, essas e outras questões são a possibilidade de sair de uma repetição mortífera e fazer algo criativo, melhor dizendo, fazer algo de diferente do que estava habituado a se queixar!

Vale ressaltar que não será sem repetição que vamos elaborar nossas questões, mas isto não é justificativa para fixar residência em algo mortífero. De forma bem geral, tem um livro de Freud que se chama “Recordar, Repetir e Elaborar”, eu diria o seguinte para demonstrar a dinamicidade de um trabalho analítico “Recordar, repetir, repetir, repetir, repetir, repetir, repetir… se responsabilizar e quem sabe elaborar”… UFAAA, mas é possível!

Como afirma Fernando Pessoa: “Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida”. Para existir, é necessário querer atravessar o que resistimos, e não sejamos ingênuos, fazer existir, ser singular é também lidar com o mundo imperfeito das coisas. Como bom mineiro, digo: rapadura é doce, mas não é mole não!

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