Da paixão ao ódio

O ódio resultante da paixão não é aquele que visa o fim de uma relação “o ódio não se satisfaz com o desaparecimento do adversário” (LACAN, 1954, p.305). Mas, como contraponto, para manter o elo, a injúria e a difamação assume o lugar na relação apaixonada.

Por Reynaldo de Azevedo Gosmão

Quem vive no mundo das paixões, o termômetro da idealização está no grau máximo.

Luís de Camões apresenta em um de seus poemas a linha limítrofe entre amor e paixão. Suprimi a primeira palavra do poema e coloco:

O que é isso que “é fogo que arde sem se ver; é ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; É um andar solitário entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É um cuidar que se ganha em se perder. É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence o vencedor; É ter com quem nos mata, lealdade”

Posso dizer que o amor e a paixão se diferenciam, no modo do sujeito de estar na relação. A pessoa apaixonada busca diluir esse Eu no Outro, através de projeções e atitudes viscerais.

Ingressar no reino da paixão não é uma tarefa simples, para assumir uma posição na paixão, o sujeito precisa do ticket que garanta à servidão sem limite, o que leva as famosas frases: “eu faço TUDO por aquela pessoa”, “me chama de lagartixa e me jogue na parede”… ou também, “só aquela pessoa que eu já tive, e não tenho mais, era TOTALMENTE suficiente”.

O desejo de não querer saber sobre a nossa posição subjetiva é o que nos encapsula as pequenas e grandes paixões!

Portanto, conviver com uma pessoa apaixonada não é missão fácil, é um mundo tão fantasioso que fica difícil separar o que é fantasia e o que é realidade (não que realidade e fantasia sejam processos distintos, mas há um exagero em um processo de apaixonamento, uma lente embaçada).

A paixão tem em si uma potência, que podemos, a grosso modo situar como “radical”; um sujeito apaixonado gasta toda sua energia com sua paixão, dificilmente, consegue conciliar com outras atividades, uma vez que o ticket é a servidão.

No entanto, na potência da paixão está o seu avesso… a avalanche de lidar com a perda, esta queda rápida, intensa e violenta que resulta no ódio.

O ódio resultante da paixão não é aquela que visa o fim de uma relação; “o ódio não se satisfaz com o desaparecimento do adversário” (LACAN, 1954, p.305). Mas, como contraponto, para manter o elo, a injúria e a difamação assume o lugar na relação. E tem sujeito que nega, nega, nega, mas que gasta mais energia em destruir o Outro do que em “reconstruir” a si! O que existe de desejo em tanta negação? Recomendo a leitura do texto de Freud “A negativa” (1925).

Estar apaixonado não se refere apenas ao objeto que causa a paixão, mas à servidão que implica a relação, instaurando um estado de “sofrência”.

Atire a primeira pedra quem nunca se apaixonou! Porém é possível sair da repetição cega dos apaixonamentos e construir relações que saiam da servidão, e que o amor faça girar o poder dentro da relação.

E uma dica freudiana para os discursos de ódios: “Quando Pedro me fala de João, sei mais de Pedro do que de João”.

Imagem destacada: @hugh

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