Da luz gerada a gás às complexas hidrelétricas

Pedro Neves, da Redação | Imagens: Wikimedia Commons e F.S. Hyde

Água é a pauta do momento. Nosso recurso primordial para existência, que deveria ser um direito de todos, sofre com más gestões e decisões que nos levaram a maior crise hídrica de todos os tempos, segundo muitos nomes. Mas por que chegamos nesse ponto? A culpa é de quem? Como reverter esse cenário?

Sadalla Domingos, professor, engenheiro civil e mestre em engenharia hidráulica pela escola politécnica da USP, exerceu diversas funções públicas desde sua graduação em 1969. Ele ajudou no desenvolvimento de planos e projetos sobre abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo, que envolvem desde a proteção de mananciais até a implantação do Sistema Cantareira e reabilitação/ampliação de todos os sistemas existentes.

Professor Sadalla Domingos
Professor Sadalla Domingos

Desde 2013, desenvolve atividades de pesquisa direcionadas objetivamente para formulação de propostas estruturais de enfrentamento da crise hídrica que se estabelece e agrava a Bacia do Alto Tietê e bacias vizinhas. “Para começar nossa conversa precisamos entender que tudo é política, inclusive a água, e os problemas começaram há muito tempo atrás”, explica.

Tudo teve início no fim do século 19 e meados do 20, quando uma empresa canadense chamada Tremway Light and Power chegou ao país. Fundada em abril de 1899, no Canadá, a empresa começou a atuar no Brasil em julho do mesmo ano, por decreto do presidente Campos Salles. Sua atuação em São Paulo começou também naquele ano, através da construção da Usina Hidrelétrica Edgard de Sousa, em Santana de Parnaíba, concluída em 1901. O nome foi modificado para “The São Paulo Tramway, Light and Power Co.” para distingui-la da “São Paulo Railway Co.”, empresa inglesa concessionária da ferrovia de Santos a Jundiaí. Em 1952 seu nome mudou para “São Paulo Light and Power Co. LTD”.

A empresa passou a operar os serviços de geração e distribuição de energia elétrica e os serviços de bondes elétricos do município, uma revolução para a época, quando havia apenas bondes puxados a burro e luz gerada a gás. Desde então, tudo mudou.

Av. São João, São Paulo, 1900. Época dos bondes.
Av. São João, São Paulo, 1900.

“O encadeamento histórico te dá algumas certezas, você começa a enxergar os erros nessa linha do tempo. As hidrelétricas e bacias servem para duas coisas diferentes, o grande problema é que hidrelétrica gera lucro e foi essa ganância que começou a mudar o fluxo da água em São Paulo, iniciando a exploração das bacias”, explica Sadalla.

“Utilizamos a água por dois motivos, o primeiro é abastecer a população e o segundo é para gerar energia. Acontece que o abastecimento de água precisava de novas fontes”, conta o professor. Foi então que decidiram explorar as águas de serra, fazer uma estrutura para aproveitar esse potencial hidráulico. Por volta dos anos 30, a instituição de sistemas de água tratada e distribuída por redes era o grande sonho do governo e Light São Paulo. Isso nos traz à construção de sistemas como o Cantareira, Alto Cotia e Rio Claro.

Cada um desses sistemas foi montado de acordo com a demanda, ou seja, notando que o Alto Cotia não seria suficiente, construíram o Rio Claro, depois Cantareira e assim por diante, São Paulo já era uma grande metrópole. “Era uma tecnologia invejável, de ponta para a época, servia de exemplo no mundo inteiro. Todos assistiam essas grandes construções com olhos brilhando”, conta Sadalla. “Além disso, os sistemas traziam muito dinheiro, era difícil contestar as escolhas. A cidade crescia junto com toda a indústria hídrica”, completa.

Primeira Concessão Hidrelétrica do Estado de São Paulo, em 1924.
Primeira Concessão Hidrelétrica do Estado de São Paulo, em 1924.

Desde então a cidade começou a crescer, lucrar e expandir todo o seu potencial hídrico. Na época, rios “mudaram” de curso, desvios e tubulações eram sinônimos de desenvolvimento. São Paulo era rico em água, a escassez não era uma palavra ainda conhecida.

Na próxima reportagem, falaremos de quando o Rio Tietê começou toda sua poluição, a construção de grandes avenidas cobrindo rios na cidade de São Paulo e as decorrências que levaram à criação da Eletropaulo e Sabesp.

 

 

 

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