Covid-19: Achatando a curva – parte 1

Vamos entender, com a ajuda da ciência, o que significa achatar a curva e por que isso é importante para controlar a pandemia.

Por Flávio Moraes | Infográficos: Luiza Gianesella

Você provavelmente já ouviu pessoas dizendo que a quarentena é importante para “achatar a curva” e uma imagem como essa aí embaixo.

A ideia que essa imagem passa é que, se forem tomadas medidas para conter o coronavírus, nós vamos conseguir “achatar a curva” e tudo vai ficar bem. Mas tem muita coisa por trás dessa imagem e também muita coisa que a imagem não diz. Mas não se preocupe, porque hoje nós vamos te ajudar a entender ela de uma forma mais completa.

Primeiro, para entendermos de que “curva” estamos falando, precisamos entender a diferença entre o número total de casos acumulados e o número de casos ativos, porque as curvas são gráficos que representam como esses números variam com o tempo.

A curva de casos ativos também é exponencial no começo, mas diminui e vai pra zero conforme as pessoas se tornam imunes ao vírus, seja porque as pessoas doentes estão se recuperando ou porque elas estão morrendo. No final não vai ter mais ninguém doente.

A curva que nós estamos querendo achatar mostra justamente o número de casos ativos aumentando exponencialmente com o tempo, até atingir um máximo, quando a maioria das pessoas já está imunizada e o vírus não se espalha mais, depois ela começa a cair. A curva achatada é parecida, só que “alongada”. O que acontece é que no caso da curva achatada, as pessoas tomam cuidado para evitar contagiar umas às outras e isso faz com que o tempo que o número de casos leva pra dobrar aumente.

Veja acima as histórias do resfriado do Aldo e do Plínio. É isso que acontece com o coronavírus, mas com a diferença de que o coronavírus não é um resfriado qualquer. Ele pode matar se as pessoas não receberem tratamento adequado.

Respeitar o isolamento não significa que menos pessoas vão ficar doentes, mas sim que menos pessoas vão estar doentes ao mesmo tempo.

Você pode perceber isso comparando o pico das duas curvas. Na curva achatada o pico é menor (menos pessoas doentes ao mesmo tempo) e deslocado pra direita (demora mais pra acontecer).

O principal motivo para querermos achatar a curva é representado por aquela linha pontilhada da figura. Você reparou nela? Ela indica a capacidade do sistema de saúde de atender as pessoas que precisam.

Se tiver mais pessoas doentes ao mesmo tempo do que o sistema de saúde é capaz de atender, algumas pessoas vão ficar sem assistência adequada, e isso vai aumentar o número de mortos.

O número de pessoas que morrem por coronavírus é proporcional ao número de pessoas infectadas (quanto mais pessoas pegarem o vírus, mais pessoas vão morrer) e, normalmente, fica entre 2% a 4%, mas esse número pode variar bem mais por conta de vários parâmetros (no Brasil estamos em torno de 6%, mas nós vamos falar desse número em outro texto).

Uma das coisas que faz esse número diminuir ou aumentar é se as pessoas doentes estão recebendo ou não um tratamento adequado, e no caso do COVID-19 o tratamento para casos graves requer que os pacientes sejam internados em UTI, eventualmente precisando do auxílio da ventilação mecânica para respirar.

De acordo com a OMS, a cada 20 pessoas com coronavírus uma precisa ser internada em UTI. Se não houver leitos disponíveis e essa pessoa não for internada, ela vai morrer sem receber tratamento. Se ela for internada existe uma chance dela sobreviver que é maior para jovens saudáveis e menor pra idosos, fumantes e pessoas que já tiveram outros problemas pulmonares.

Agora você já sabe que achatar a curva significa diminuir o número de casos ativos num mesmo dia, pra que haja leitos suficientes pra atender a todas as pessoas que precisarem de cuidados intensos.

Se o máximo da curva estiver acima da linha pontilhada, significa que algumas pessoas não vão receber a ajuda necessária.

Mais abaixo você vai ver uma imagem igual a primeira só que um pouco mais detalhada. Ela mostra que a linha da capacidade do sistema de saúde (que nesse caso é laranja) não é uma reta, mas muda com o tempo.

Primeiro ela diminui, porque no começo os médicos vão se infectar e adoecer, mas com o tempo eles vão aprender melhor como tratar os pacientes e novas técnicas vão ser desenvolvidas. Também é esperado que os governos invistam na área de saúde, criando novos leitos. Ela muda quando achatamos a curva, porque se tiverem menos pessoas doentes ao mesmo tempo, a chance dos médicos serem infectados diminui, e deslocando o máximo pra direita dá a eles mais tempo para aprender como tratar os pacientes. E quem sabe se nesse tempo, alguém não desenvolve uma vacina?

Gráfico baseado em Alexander Radtke

Na próxima parte deste texto, vamos falar sobre como as medidas preventivas achatam a curva.

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