COP24: como incentivar o ativismo em tempos de repressão?

Texto por Igor Vieira, do Engajamundo – parceiro da Agência Jovem de Notícias.
Fotografia por Juan Domingues.


A Polônia tem sua matriz energética toda baseada no carvão, vive-se, literalmente, em cima de uma mina gigantesca do minério. Se explora, se vende, se consome essa matéria prima incansavelmente, o que, obviamente, faz desse lugar um grande emissor de gases do efeito estufa. Há muitas controvérsias sobre esta escolha, que não é exatamente óbvia embora seja a terceira vez em 10 anos que o país é sede do evento. No entanto, países sede precisam assegurar que as metas firmadas no acordo de Paris sejam cumpridas, desta forma a Polônia fica até bem na fita realizando a COP.

Estamos lidando com uma conferência das partes, é impossível contar quantas coisas acontecem diariamente dentro das duas semanas de trabalho aqui, o que é evidente:  quantidade de ativistas que se reúnem, todo ano, para lembrar aos tomadores de decisão dos erros cometidos, tentando trabalhar num novo rumo de acertos. Uma coisa está diferente neste ano, ativistas têm tomado precauções extras, e o conselho de todos tem sido um só: cuidado. Nos últimos anos a Polônia tem enfrentado um histórico de repressão  contra movimentos sociais e de direitos humanos.

Desde que assumiu, o governo polonês tem limitado subsídios para organizações da sociedade civil, recebendo críticas de toda União Européia. A Never Again uma organização polonesa que trabalha no combate ao racismo e xenofobia tem reportado nos últimos anos o aumento dos crimes de ódio desde que o governo atual assumiu. O atual presidente polonês, Andrzej Duda, é do partido de direita conservador Lei e Justiça, e assim que entrou acabou com o conselho responsável pelo combate ao racismo. A Anistia Internacional e a Human Rights Watch também denunciam que o governo ignora ou não trata como deveria questões relacionadas a repressão dos movimentos sociais.

Esse é um sentimento que ativistas brasileiros conseguem se identificar. Muito se fala que o Brasil é um país onde a democracia prevalece e que a liberdade de expressão é um direito assegurado a todas e a todos. Por que será que enquanto você leu esse parágrafo, um ativista pode ter sido ameaçado ou até mesmo morto? Essa pergunta precisa ser feita mais vezes, principalmente nesta era de extremismos que o mundo anda enfrentando.

Estamos nas vésperas da Marcha Pelo Clima. A marcha acontece todo ano durante a COP. Milhares de pessoas irão às ruas em Katowice marchar contra as mudanças climáticas e gritar nossas mensagens de reivindicação aos 197 estados que estão se reunindo na cidade para desenhar o livro de regras do Acordo de Paris. Chegamos em um consenso em que ações efetivas precisam ser tomadas, o nosso atraso resultará numa dificuldade ainda maior no enfrentamento das mudanças do clima.

Iremos às ruas em um país que tem um histórico de perseguição a ativistas e manifestantes, que usam força física exagerada através da polícia em manifestações contra as reformas do governo. Essa é a realidade dessa recente nova história da Polônia: movimentos sociais são repreendidos e silenciados para não demonstrarem sua insatisfação com as medidas tomadas pelo governo.

É neste cenário que vamos marchar pelo clima, pela paz, por nós e pelas futuras gerações.

Esse texto está sendo escrito dentro de uma sala, num centro de conferência, protegido por força policial, inclusive snipers de elite. Essa mesma força pode nos reprimir amanhã caso julgue ações nossas como ofensivas às ideias do governo, sob cujo teto estamos vivendo nessas duas semanas. Sabemos, no entanto, que a diplomacia deve imperar e que isso não deve acontecer em nossa marcha.

Nosso movimento precisa crescer ainda mais, criar laços de união mais fortes e coesos. Os grupos ao redor do mundo precisam estar atentos, vigilantes e preparados, não só pela marcha, mas para seguir enfrentando as ameaças das mudanças climáticas e dos extremistas que as negam. Se isso  não acontecer, não teremos chances contra o capital fóssil.

Por aqui continua frio mas nossa cabeça e coração estão aquecidos. Nossa energia é renovável e reabastecida com luta e resistência. Seguiremos, marcharemos e teremos resultados.

Agência Jovem de Notícias

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