Cooperativismo hoje e sempre

No artigo IX da série dos valores afro-brasileiros, uma reflexão sobre o Cooperativismo. Apresenta as características desse valor presentes no teatro e na vida social.

Por Lieta

Uma mão lava a outra, você provavelmente já ouviu essa frase alguma vez na vida.

Caso não tenha, eu te falo o que ela significa: ajudar o próximo. Se pararmos para pensar, uma mão de fato não consegue se limpar sozinha, precisamos do auxílio da outra. Em linhas gerais é isso que o cooperativismo significa: ajudar o outro. Em um mundo onde as pessoas estão mais preocupadas com sua própria bolha, é um pouco difícil ver esse conceito sendo realizado.

Agora eu gostaria de levar o cooperativismo para um lado mais artístico: o teatro. O teatro é feito sempre por um conjunto de pessoas. Mesmo que seja um monólogo (quando há somente um ator em cena interpretando um texto), ainda temos o diretor, o figurinista, a pessoa que faz a iluminação, o sonoplasta, a plateia.

O teatro é das pessoas, é do povo e das sociedades. Uma das coisas mais importantes quando se tem um grupo em cena é a sincronia de todos. Quando estamos em cena devemos estar presentes e atentos a tudo que ocorre à nossa volta. A cena teatral e os atores que a compõem são organismos vivos. No jogo cênico com seus parceiros de cena, o importante é a escuta. Devemos evitar a individualidade e não somente pensar “ok, aqui é onde eu falo”.

É necessário verdade e autenticidade. Quando uma pessoa erra o grupo todo precisa apoiá-la para voltar ao seu lugar. O comunitarismo ou cooperativismo na cena teatral é o entendimento de que todos juntos estamos a serviço de comunicar, transmitir uma mensagem com determinado trabalho no tempo e no espaço. Quando jogamos, estudamos o melhor jeito de comunicar a sua plateia e isso requer um trabalho totalmente em conjunto. A união e o cooperativismo são essenciais no teatro.

Imagem mostra pessoas negras com roupas estampadas e maquiagens olhando para a câmera em uma área aberta com outras pessoas ao fundo.
Photo by Mpumelelo Macu on Unsplash

Outra situação que não teria sido possível sem o cooperativismo foi o chamado Underground Railroad, uma rede secreta de rotas  e esconderijos nos Estados Unidos no século 19, usada por escravos afro-americanos para escapar para o norte do país ou para o Canadá.

Estipula-se que durante o período de 20 anos 30 mil pessoas escravizadas teriam escapado.

A tradução literal seria ferrovia subterrânea, mas as fugas não eram feitas por debaixo da terra; as pessoas que faziam essa passagem desapareciam da vista do público, por isso se deu esse nome. A maioria dos escravizados fugiam sozinhos ou em trios a pé; em barcos ou carroças para não chamar atenção. Pelo caminho eles recebiam ajuda como abrigo e comida de ex-escravizados, abolicionistas e brancos simpatizantes.

Para evitar que as rotas fossem descobertas a informação era passada no boca a boca

Imagem mostra homem em uma canoa remando em um rio.
Photo by maxime niyomwungeri on Unsplash

O perigo de recaptura era possível, então somente os homens faziam a passagem. Quando essas pessoas chegavam aos seus destinos, muitas vezes eles trocavam de nome e deixavam os nomes recebidos enquanto escravizados para trás, adotando um nome de origem africana. Essas pessoas também conseguiam documentos novos com sua então nova identidade. Um dos postos finais do percurso existe até hoje em Nova York, no bairro do Harlem. É uma igreja chamada Mother A M E Zion Church (Igreja Episcopal Zion da Mãe Metodista Africana). Esse é o poder da cooperação!

Toda família tem algum tipo de herança ou tradição que fazem questão de manter. Seja dizer benção aos avós na hora que chega e quando vai embora; seja a macarronada de domingo; seja quando a criança nasce já possui um time de futebol escolhido. Tudo isso gera um sentimento de pertencimento, conforto, segurança e satisfação desde a infância que segue até a vida adulta. Ajuda na manutenção do respeito pelo outro, do amor pela família e principalmente do diálogo com as diferenças. O que nos faz levar esses costumes por gerações e gerações.

Um elo, uma conexão entre o passado e o futuro que faz com que a herança familiar seja mantida, preservada, respeitada. 

Sendo em 2021, o ano em que todos lutamos juntos pela exterminação do novo Coronavírus, ou há séculos atrás, onde escravizados lutavam pela sua liberdade, uma coisa nunca muda: o comunitarismo, a essência da sobrevivência da humanidade, o que nos faz chegar mais longe.

Que tal você pensar em jeitos de aplicar esse ensinamento no seu dia a dia?

Imagem mostra mão de pessoa negra estendida em gesto de ajuda.
Photo by Hello Lightbulb on Unsplash

Lieta é atriz do Grupo MovaNos. Quer conhecer mais o trabalho do Grupo MovaNos? Acesse a página deles no Facebook. Quer falar com eles? Envie um e-mail para movimentonosso@gmail.com

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *