“Sejam bem viados”: Conheça a Casa 1, iniciativa de abrigo a pessoas LGBT

“Sejam Bem Viados”, é com esse recado em uma placa no batente da porta que a Casa 1 recebe seus moradores e visitantes. O espaço, estabelecido desde janeiro nas ruas do Bexiga, bairro tradicional italiano no centro de São Paulo, é um abrigo temporário para pessoas LGBT sem lar na grande cidade.

A casa é um sobrado antigo, feito de tijolos e cimento, e pintado com uma tinta verde acolhedora. Na calçada, os transeuntes pisam em desenhos de cabeças coloridas pintados pelo artista Luan Zumbi.

A construção tem dois andares com o pé direito bem alto e uma pequena varanda. No andar de cima moram 13 pessoas, divididas em dez camas e alguns colchões. No piso térreo, fica o Centro Cultural da casa, com uma sala de exposições, uma biblioteca e sala de cursos, um laboratório de artes e expressão cultural e um centro de acolhimento paliativo, onde pessoas em situação de rua que não conseguiram vaga na casa podem ter acesso a produtos de higiene, roupas, comida e banho.

Fachada da Casa 1

O espaço foi criado de maneira coletiva, como mostra a fachada do Centro Cultural, com cerca de mais de mil nomes pintados. Uma campanha virtual de financiamento coletivo conseguiu arrecadar dinheiro para pelo menos dez meses de aluguel do espaço, além da reforma inicial – alguns dos financiadores foram homenageados com suas graças na parede da Casa.

Os moradores do bairro também são apoiadores do projeto. Iran Giusti, administrador do local, conta que o estabelecimento costumava ser um bar, com uma ocupação em cima que era um ponto de venda de drogas. “Era um espaço muito mal visto e de muita violência. Por isso, o processo da Casa se deu de portas abertas e o bairro foi observando e aceitando nosso processo de construção.” Segundo Iran, os moradores do bairro veem a iniciativa como algo positivo, mas o entendimento do espaço como sendo de diversidade LGBT, ainda é um desafio.

A ideia de fundação da Casa partiu do próprio Iran. Em 2015, ele postou em suas redes sociais a disponibilidade de abrigar um jovem LGBT sem lar em sua casa, em São Paulo. Seu post dizia: “Eu não tenho muito espaço, não tenho muito dinheiro. Eu tenho um sofá-cama. Mas acho que onde come um, come dois e onde dorme um, dorme dois”. Em dois dias, ele recebeu 50 pedidos de abrigo.

“Foi aí que eu lembrei que isso era uma questão. A gente tem uma falsa sensação que evoluímos em relação a LGBTfobia, mas na realidade não. É só que seu ciclo de amizades não passa por essas situações, mas as pessoas continuam sendo discriminadas por orientação sexual e identidade de gênero”, relata Iran.

Iran na inauguração da Casa 1 | Foto: Lucas Genovez

O grande número de pessoas LGBT em situação de rua nas grandes cidades brasileiras é um dos resultados da marginalização da população no país.

Hoje, entre 5,3% e 8,9% das pessoas em situação de rua em São Paulo pertencem à comunidade LGBT, ou seja, de 842 a 1415 pessoas. Além disso, segundo uma pesquisa do Instituto Data Popular realizada em 2013, 37% dos brasileiros afirmam que não aceitariam um filho LGBT em suas casas.

O Brasil também ocupa o primeiro lugar entre os países mais transfóbicos do mundo, sendo o país que mais mata transexuais e travestis. Entre 2008 e 2014, foram registradas 689 mortes de pessoas trans e travestis. Em 2016, uma pesquisa feita pela Rede Nacional de Pessoas Trans no Brasil registrou 144 mortes, além de inúmeros casos de violações contra pessoas trans.

 

 

 Vídeo da campanha para criação da Casa 1

 

As inúmeras reações ao post de Iran no Facebook o levaram  à ação. Inicialmente, ele recebeu dois moradores em sua casa. O primeiro ficou por três meses, e o segundo, foi Otávio Salles, que fundou a Casa 1 junto com Iran.

A equipe ainda conta com outras duas pessoas: Bruno, voluntário que cuida da programação cultural, e Dani, funcionária que coordena o acolhimento dos moradores – todos LGBTs.

Quem a Casa abriga

Assim como a equipe, todos os moradores da Casa são LGBTs, com a diferença de serem pessoas expulsas de casa, em situações de violência psicológica e/ou física severa, ou em situação de rua. Esse é o pré-requisito inicial para se tornar morador(a).

Moradora olhando pela janela da Casa | Foto: Facebook Casa 1

Toda semana, cerca de cinco pessoas em situações de vulnerabilidade acima descritas pedem abrigo na Casa. Elas são selecionadas a partir de alguns outros critérios: não são aceitos menores de 18 anos, por motivos legais relacionados ao Estatuto da Criança e do Adolescente e pela necessidade de tutores; Não são aceitas pessoas com dependência química severa; Não são aceitas pessoas com problemas psicológicos graves, devido à falta de profissionais especializados.  

Para identificar e selecionar indivíduos aptos para morar na Casa, o projeto realiza uma triagem dos candidatos com um grupo de trabalho voluntário composto por uma ginecologista obstetra, um psicanalista, uma psicóloga e um imunologista. Também é realizada uma entrevista inicial com os administradores da Casa.

As pessoas que não são aceitas através da triagem são direcionadas para outros projetos pela equipe da Casa.

Além disso, para permanência na acolhida, os moradores devem seguir algumas regras de convivência. Não podem consumir álcool ou drogas dentro da Casa, precisam cuidar do espaço (limpeza, organização) e não podem agredir psicologicamente ou fisicamente os outros moradores, sendo essa a única situação de expulsão imediata.

Não é obrigatório que as moradoras e moradores participem das atividades culturais e oficinas oferecidas pelo Centro Cultural. Porém, há grande incentivo para essa adesão, afinal o tempo de permanência na Casa é curto – apenas três meses.

Comemoração da inauguração da Casa | Foto: Facebook Casa 1

Hoje, a Casa não permite contato da imprensa com seus moradores devido a exposição. Também não é permitido entrar na República, afinal, é a casa delxs e não um museu ou espaço de circulação.

O projeto faz de tudo para que a privacidade das moradoras e moradores seja preservada, criando um ambiente de acolhimento, respeito e fortalecimento.

Mais do que acolhimento

Apesar do projeto ter surgido para suprir uma demanda urgente de abrigar pessoas LGBT sem lar, sua proposta vai muito além. “A Casa são dois projetos em um só. A gente tem a República de Acolhida, e o Centro Cultural, que tem uma programação cultural mensal, com oficinas e outras atividades”, explica Iran.

A programação cultural ocorre das 10h as 22h, como uma maneira de oferecer o máximo de oportunidade aos moradores da casa e também sensibilizar o entorno para a questão LGBT.

Segundo pesquisa da empresa de recrutamento Elancer, 20% das empresas se recusa a contratar homossexuais no Brasil. Para transexuais e travestis o número é ainda pior – menos de 10% das mulheres trans no Brasil conseguem entrar no mercado formal de trabalho, de acordo com a Associação das Travestis e Transexuais do Triângulo Mineiro.

Tendo isso em vista, a Casa 1 oferece cursos de inglês, incentiva a reinserção escolar por meio de programas EJA (Educação para Jovens Adultos) em escolas da região, e promove a valorização de trabalhos e projetos LGBTs em sua programação. Além disso, também disponibiliza livros e realiza mostras culturais em seu espaço.

Assim, a Casa pretende (re)inserir seus moradores no mercado de trabalho após a estadia de três meses no local, tornando-os, assim, independentes.

Biblioteca e Sala de Cursos

 

Oficina de teatro no Centro Cultural Casa 1

Por isso, um dos projetos para o futuro da Casa é a contratação de um profissional de serviço social, que irá auxiliar ainda mais os moradores na transição para a independência social e financeira.

Outros projetos incluem a ampliação do espaço, que possibilitará o abrigo de mais pessoas, e um espaço de moradia destinado àquela e àqueles que já passaram pelo primeiro momento de acolhimento na Casa.

“Temos que pensar num segundo passo do que fazer com essas pessoas que já passaram pelo primeiro momento urgente de acolhimento após expulsão e situação de rua. A ideia seria ter um apartamento sublocado para essas pessoas, como uma república, para quem já está reinserido, trabalhando e tal, mas sem as burocracias da casa”, conta Iran.

Sustentabilidade financeira

Para financiar todos esses projetos e realizar os planos para o futuro, a Casa conta com diversas estratégias de arrecadação. A principal delas é o financiamento coletivo pela plataforma Benfeitoria, que possibilitou a abertura da Casa com mais de 100 mil reais arrecadados, e permite a sua sustentabilidade mensal.

Processo de construção e reforma da Casa feito a muitas mãos | Foto: Facebook Casa 1

Além disso, a Casa realiza eventos em parceria com a iniciativa privada. Até agora foram dois: a venda de sorvetes Ben & Jerry´s com lucro revertido para o projeto, e uma festa de carnaval temática com venda de bebidas e comidas, em parceria com o aplicativo Hornet.

Festa “Prainha” promovida pelo Hornet na Casa 1 | Foto: Facebook Casa 1

Por último, a Casa recebe doações não monetárias. Eles pedem alimentos não perecíveis, roupas, produtos de higiene pessoal e livros, recebidos pela biblioteca e pelo Centro de Acolhida Paliativo. Também recrutam voluntários para atividades como aulas de inglês, oficinas, organização da biblioteca e centro de acolhida.

Centro de Acolhida Paliativa para pessoas em situação de rua não abrigadas pela Casa

Porém, a ideia é que o projeto seja autossustentável. “Não queremos ser dependentes. Estamos propondo um modelo de gestão novo. Somos um projeto que tem umas bases bem sólidas com relação a atendimento humanizado, por isso queremos diminuir burocracias”, explica Iran.

A Casa está em um processo de formalização burocrática com contadores e juristas pró-bono para abertura de uma empresa e uma ONG, em um modelo de gestão sustentável na qual a primeira arrecada com seus próprios serviços para pagar a segunda.

Outras iniciativas

No Rio de Janeiro, também existe uma iniciativa de abrigo a LGBTs com uma proposta parecida. É a Casa Nem, projeto da candidata a vereadora pelo PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) e militante transexual, Indianara Siqueira.

O projeto existe desde 2015, e acolhe transexuais e travestis em situação de rua ou de expulsão de casa, em uma casa no bairro da Lapa. São cerca de 30 moradoras e moradores no local, com tempo indeterminado de permanência.

Além do abrigo, a Casa Nem oferece cursos e atividades à população trans, como o curso pré-vestibular PreparaNem, cursos de idiomas e cursos profissionalizantes como o CosturaNem, de moda, e FotoNem, de fotografia.

A Casa é financiada majoritariamente por doações e realizações de festas noturnas (com entrada franca para pessoas trans). No entanto, encontra-se em um momento de crise financeira e corre o risco de fechar.

Para que os milhares de LGBTs no Brasil saiam da situação de vulnerabilidades, é preciso lutar. Mas enquanto a discriminação, LGBTfobia e Transfobia forem uma realidade, espaços como a Casa 1 e a Casa Nem precisam ser preservados e multiplicados. Para isso, os projetos pedem sua contribuição.

Ajude a Casa 1

Ajude a Casa Nem 

Redatora e repórter na Agência Jovem de Notícias

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