Como a sociedade pode influenciar uma conferência da ONU

 

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Luiza Winckler*, da Agência Jovem de Notícias

Você já parou para pensar como funciona o engajamento da sociedade civil dentro dos espaços da ONU e quais oportunidades de ações existem para influenciá-la? Foi esse o objetivo do side event sobre ativismo e participação, realizado no segundo dia das negociações durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climática em Lima.

Representante do Instituto de Treinamento e Pesquisa (UNITAR) no âmbito das Nações Unidas, Rabih El Haddad falou sobre a importância de compreender o sentido das negociações sobre uma visão histórica e humana e o papel de todos os atores envolvidos. O processo de diplomacia das conferências é um ponto muito importante a ser levado em conta. Segundo El Haddad, os delegados representam países, e esses países buscam consenso, o que é um grande desafio.

O pesquisador contou um pouco da história de como se constituíram as plenárias e que seu formato e disposição das cadeiras se modificaram ao longo das décadas do século 20. “Esse foi um fator de mudanças no comportamento das negociações abrindo portas para acordos multilaterais e formação de blocos”, explica.

Outro ponto importante levantado foi o fator humano que deve desenvolver laços de confiança para trabalhar, e isso é construído ao longo do tempo.

De acordo com El Haddad, os negociadores estão envolvidos em um processo muito complexo, não só durante uma conferência mas também em muitos outros eventos e temáticas da ONU, que se conversam e são realizados simultaneamente ao longo do ano. “Talvez isso faça com que os negociadores acabem se afastando da sociedade civil”, analisa.

Em seguida, o diretor da Climate Action Network (CAN) Internacional, Wael Hmaidan, pontuou que o espaço da sociedade civil aumentou nos eventos da ONU e que essa representação vem acontecendo com mais poder e mais responsabilidade. “Muitas vezes, não usamos esse espaço e não assumimos nossas responsabilidades. Sendo assim, perdemos oportunidades ,pois processos multilaterais geralmente surgem da pressão por parte da sociedade civil.” Segundo Wael Hmaidan, a estratégia de trabalho da CAN internacional é criar um plano de unidade para a sociedade nos níveis nacional e internacional, pois muita gente pensa de maneira separada, apenas focando seu trabalho.

O ativista comparou nosso trabalho como sociedade civil nesse tema ao de empurrar uma pedra enorme para cima de uma montanha. Para vencer esse desafio devemos pensar em três pontos: altura da montanha, que é o mesmo que trabalhar com negociadores para diminuir a distância do nossos objetivos: quanto menor a montanha melhor, ou seja ficaremos mais perto do mundo que queremos. Outro ponto é diminuir o tamanho da pedra, quanto menos CO2 na atmosfera menor é a pedra que empurramos. E por último, ter sempre mais gente para empurrar a pedra faz nossa tarefa ficar mais fácil.

Wael Hmaidan afirmou ainda que “estar no nível internacional não ajuda a mudar a política nacional necessariamente”. Ainda assim, o papel da sociedade civil nesse processo internacional é importante, as ações e manifestações são gestos simbólicos que reconhecem nosso papel no processo e os side events são para conhecer as novas ideias que a sociedade civil trás e poder compartilhar nosso poder influente no nível local.

As atividades informais também são importantes, como os momentos de lobby e encontros informais. Não menos importante é o uso de mídia social, onde podemos passar nossa mensagem como sociedade civil e estar mais ativos no processo. Assim, deve-se fortalecer a ação local da sociedade para poder interferir antes da negociação e fortalecer a ação internacional marcando nossa posição e participação no processo.

O diretor da CAN Internacional concluiu dizendo que “é importante lembrar a todos que as realidades políticas mudam todos os dias. Às vezes, parecem lentas e mover apenas milímetros, mas acontecem momentos chave onde a mudança política se dá e pode ser influenciada pela sociedade civil dependendo da nossa atuação.

 

*Integrante da delegação brasileira na COP20

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