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“Imparcialidade tem cor, gênero e classe social” – Agência Jovem de Notícias

“Imparcialidade tem cor, gênero e classe social”

Por Mariana Assis e Juliane Cruz

O Jornalismo, enquanto uma potente forma de comunicação social, constrói narrativas capazes de dar visibilidade a questões que permeiam a vida em sociedade. Sendo assim, quando não é capaz de olhar pelas diferentes perspectivas, tem a potencialidade de invisibilizar e até mesmo de criar estigmas sobre diversos grupos sociais.

Essa temática foi debatida em uma das mesas que acompanhamos no Seminário “Jornalismo: as novas configurações do quarto poder”, que foi organizado pela Revista Cult e pelo Sesc. Estavam presentes como convidados a jornalista Fernanda Carvalho, da WebTv Nação Preta, e Renan Quinalha, advogado, professor da Unifesp e colunista da Cult, sob mediação de Bianca Santana, jornalista e doutoranda na USP em Ciência da Informação.

O debate pontuou como a grande mídia, por muitas vezes, estabelece uma agenda jornalística que retrata de maneira limitada e preconceituosa grupos historicamente marginalizados. De acordo com Fernanda, o Jornalismo produzido pela mídia hegemônica não se prepara para cobrir as questões desses grupos com responsabilidade e esse é um imenso problema.

A jornalista aponta que isso ocorre por diferentes motivos, começando pelas configurações dos grupos que ocupam as universidades e redações, que são predominantemente compostas por homens, cisgêneros, brancos e sujeitos de classes sociais mais altas. A construção de narrativas consequentes e capazes de cobrir com profundidade as questões dos grupos socialmente marginalizados necessita de um olhar sensível sobre as mesmas e isso se complica quando as pessoas que ocupam os espaços responsáveis por essa construção não tem em sua trajetória essas preocupações e nem mesmo foram ensinadas a buscar uma sensibilidade ao tratá-las. A falta de noção sobre questões históricas, sociais e culturais dos grupos marginalizados presente no espaço jornalístico é um sintoma causado por conta deles não serem escutados dentro desse espaço e de tantos outros.

Como exemplo da falta de responsabilidade nesse tipo de cobertura, a jornalista citou a forma que a grande mídia noticiou o caso da chacina onde cento e onze tiros foram disparados por policiais contra o carro em que cinco jovens negros estavam voltando da comemoração do primeiro salário de um deles em Costa Barros, no Subúrbio do Rio de Janeiro. Não havia no local indícios de que esses cinco meninos não fossem inocentes e, mesmo se houvesse, não seria explicação para essa abordagem violenta. Fernanda aponta que a mídia hegemônica cobriu o caso como se fosse apenas mais uma demonstração da violência que acontece cotidianamente no Rio de Janeiro, sem apontar que os marcadores sociais das vítimas influenciaram no acontecimento.

No país onde a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado*, onde a polícia militar é a que mais mata e a que mais morre** e a população que vive nas periferias e comunidades enfrenta a repressão policial de forma muito mais intensa, não apontar essas questões que compõem um cenário de genocídio da população negra e pobre, destacou Fernanda, é uma das formas de invisibilizar a violência que efetivamente ocorre, que evidencia o racismo estruturante que afeta o Brasil. O que aconteceu com aqueles cinco jovens não aconteceria caso se tratasse de cinco jovens brancos, ricos e moradores de regiões consideradas nobres.

“Imparcialidade tem cor, gênero e classe social”

Nesse ponto, a jornalista comentou sobre a ideia da imparcialidade na mídia, que é tão disseminada, sobretudo nas faculdades de Jornalismo. Uma frase marcante que pode resumir sua reflexão sobre essa questão foi: “Imparcialidade tem cor, gênero e classe social”, visto que não se posicionar em situações de violência que ocorrem contra os grupos socialmente marginalizados é invisibilizar as questões que levam a esses acontecimentos. As problemáticas que afetam esses grupos não devem ser pautadas apenas pelos ativismos, é necessário que o Jornalismo, enquanto atuante em uma esfera de poder, perceba sua importância em retratar essas questões.

Nessa mesma perspectiva, Renan fez considerações sobre a potencialidade do Jornalismo de produzir visibilidade e também invisibilidade. Em se tratando da forma que a mídia tradicional faz a cobertura de questões ligadas às minorias (ou, como ele preferiu elucidar, maiorias minorizadas em participação social/cidadã), Renan comenta que a irresponsabilidade acontece em criar invisibilizações e corroborar para a perpetuação de estigmas e preconceitos, que criam noções distorcidas e afetam intensamente o imaginário social. De acordo com sua pesquisa, a exemplo disso, a primeira luta no Brasil do movimento dos homossexuais (origem do movimento LGBTQ+ no país), foi uma carta escrita e direcionada à mídia contra os estigmas perpetuados pelos jornais, que narravam as questões vivenciadas pelos homossexuais sobre os pilares da vergonha, pecado e doença, que juntos, acabam por sustentar e legitimar violências.

Como, de fato, ter responsabilidade na cobertura jornalística?

Fernanda apontou que o caminho começa em ouvir e ecoar as vozes que não costumam ser escutadas, é necessário que elas ganhem visibilidade na mídia para que a realidade das minorias seja representada de forma consequente.

Nessa mesma perspectiva, a jornalista comentou sobre a importância das posições de poder dentro do espaço jornalístico serem ocupadas por pessoas dessas diferentes realidades, inclusive nos bastidores, mudando as mentes pensantes dentro das redações. Segundo ela, é na ocupação desses lugares que outras narrativas capazes de transformar o imaginário social sobre determinadas questões podem ser criadas.

Ela ressalta, ainda, que é necessário que os jornalistas tenham liberdade na criação de pautas, a fim de que suas subjetividades sejam respeitadas. Renan, seguindo essa ideia, comentou sobre a necessidade dos grupos sociais serem representados de forma plural, numa perspectiva interseccional, para que a multiplicidade de vivências possa ser representada.

Esses caminhos apontam para a necessidade de que aconteça cada vez mais a democratização das mídias, para que assim haja de fato a liberdade de imprensa e debates mais profundos e consequentes. Essa democratização vem por indicar uma mudança de postura até mesmo para os sujeitos enquanto consumidores da mídia, pois a existência de mais mídias produzidas por perfis diversos de jornalistas possibilita que as pessoas possam pensar: “se não me representa, não assisto” e, assim, se informar por meios que saibam representar suas realidades. Nisso, os convidados destacaram a importância das mídias alternativas e independentes nesse processo, que representam o trabalho em grupos para que um dia toda sociedade possa se sentir representada pelo Jornalismo.

Fernanda e Renan frisaram sobre o papel do jornalismo em levantar dados e construir histórias que visem integrar a sociedade e não a hierarquizá-la e segmentá-la com o objetivo de preconizar grupos e identidades. A respeito disso, o professor ressalta: “não se deve confundir liberdade de expressão com liberdade de empresa para determinar o que é certo e o que é errado. O jornalismo não deve se valer do seu lugar privilegiado de voz e potência para disseminar discursos de raiva, ódio e incitação à violência”.

*Os números são do Mapa da Violência, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).

**Dado revelado pela edição 2014 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública

 

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