Como a faculdade atrapalha nos estudos?

Algumas reflexões sobre o sistema universitário que encontramos e como estudantes enfrentam essa estrutura

Por Lucas Schrouth

Ouça este Conteúdo na Integra

DO PRINCÍPIO

Em primeiro lugar, serei um pouco contraditório: vou lhe dizer como a faculdade, universidade, academia e todos os nomes que o meio acadêmico pode assumir lhe ajuda no acesso ao conhecimento. Para isso, é preciso entender a estrutura do conhecimento e sua utilidade na sociedade e assim compreender a importância de um ambiente voltado à ciência.

O conhecimento universal é um complexo difícil de ser enxergado até para profundos estudiosos, para leigos essa visão se torna ainda mais embaçada. O maior desafio não está no que estudar, mas em como e por onde começar a estudar o objeto de conhecimento que se quer entender.

Nesta perspectiva, o autodidatismo enfrenta o impasse de exigir de seus adeptos um esforço muito grande de adequação e formulação de novos caminhos de estudo – apesar de que num certo ponto, toda pessoa que se dedica ao estudo em parte se torna autodidata. 

No entanto, vejamos um exemplo: suponhamos que uma pessoa decida começar a estudar Física, talvez, sem ter os conhecimentos básicos necessários de cálculo. Justamente por não possuir esta informação, encontra severa dificuldade em seus estudos.

Ler, reler, e ler novamente e chegar à conclusão que não está entendendo nada é frustrante – bingo, é neste ponto que entra o professor.

Percebam então que a Academia, na pessoa do professor, media da melhor forma possível o aluno frente ao objeto de estudo. O professor deve procurar agir da forma mais construtiva possível. Neste aspecto, auxilia a aprendizagem que ele já caminhou e pode promover um caminho menos tortuoso do que ele precisou fazer.

Não posso estudar sozinho, é isso?’

Não é isso, de forma alguma! Quero dizer que ter as bases para entender o que se pretende conhecer, as premissas certas, ajuda muito na construção do conhecimento que posteriormente você já poderá desbravar com certa autonomia.

DO CARÁTER PRÁTICO

Muito se espera das universidades. No Brasil, um movimento anti acadêmico surgiu e tem ganhado força, infelizmente num momento de contracultura, que apregoa o abandono do meio universitário, suas carreiras, perspectivas e contribuições. Num momento em que a Universidade tem sofrido tantos ataques, é preciso destacar o seu caráter transformador, produtor e impulsionador de conhecimento.

A academia brasileira, em parte, tem sim se distanciado da sociedade, na perspectiva de atendimento de suas necessidades imediatas. Contudo, isso não é uma excentricidade da terra das palmeiras: ao redor do mundo as universidades possuem um próprio discurso, um próprio meio, seus próprios protocolos e isto não deslegitima as várias ações de tentar aproximar a universidade do meio público.

Sim, a sociedade possui demandas e sim, a universidade deve pensar nesses anseios. Entretanto, se a universidade for imputar como parâmetro de interesse o clamor do povo, provavelmente nenhum ou pouquíssimo avanço será feito no progresso científico – ninguém foi clamar ao Edison da necessidade da lâmpada, isso partiu de uma pesquisa e diálogo com outros conhecimentos para sua efetivação.

Vejam bem: quando ouvirem o discurso de “para que serve esta pesquisa? Quem um dia vai ler isso?”, lembrem-se que toda pesquisa possui uma justificativa apresentada pelo autor – procurem analisar a justificativa apresentada e argumente a partir disso; daí se pode aferir se a pesquisa possui ou não relevância para área na qual está inserida e para a sociedade.

O campo das ciências humanas infelizmente padece mais dessas críticas, é preciso entender que para produzir conhecimento muitas vezes é preciso romper com paradigmas.

DO OLHAR AO ESTUDANTE

O que faz uma escola ser uma escola? Você pode me dizer: seus professores, seus agentes escolares, a direção e gestão, suas lousas, suas carteiras e seus ambientes. Tudo bem, mas o que caracteriza uma escola são seus alunos, assim também é a universidade.

Visto isso, é com satisfação que observo que diversas pesquisas têm se voltado a olhar o estudante de graduação e pós-graduação. Procurando ouvir e entender suas dificuldades, anseios, contribuições e perspectivas, isso nas mais diversas áreas.

São todos os componentes desta estrutura (mundo acadêmico) que de fato o tornam real, que na realidade empenham o papel de concretizá-lo.

Escolher o curso universitário que se pretende não é tarefa fácil, pois leva em conta diversos fatores da vida pessoal e social do estudante. Após o ingresso isso não muda; boa parte dos alunos universitários trabalham enquanto estudam e nem sempre na área de sua formação.

Eu, por exemplo, sou da área educacional, e o período de pandemia afetou incisivamente as escolas (assim como outros setores) e as perspectivas de empregabilidade caíram severamente – torna-se complicado não se desesperançar frente a tamanha crise.

Veja a vida de um universitário de perto e verá uma onda em ciclos. Existem áreas em que as perspectivas não são das melhores; há áreas que intrinsecamente tratam de eventos difíceis para a maioria, e de questões exaustivas. Ao ver alguém lendo, ao ver alguém resumindo/fichando textos, lhe ofereça um chá e um pouco de silêncio: não é nada fácil abstrair-se de todas as interferências e situações ao redor para pensar acerca de variação linguística, cálculo de variáveis ou constituição celular.

DO QUE NOS INTERESSA

Certamente, algumas metodologias e ações adotadas por universidades, cursos e/ou docentes tendem a dificultar o processo de ensino-aprendizagem.

Por exemplo, o sistema de abarrotamento de trabalhos e leituras, avaliações finais que exigem retomada de muitos pontos, grande rigidez em aspectos que exigem certa subjetividade, a falta de empatia para com a vida do outro (por parte dos alunos <-> professores e alunos <-> alunos). Todos estes são fatores que podem interferir na vida acadêmica de seus sujeitos.

“Na faculdade você só vai estudar o que gosta”.

Esta afirmação que muitos ouviram antes de entrar na faculdade nunca foi tão contrariamente espelhada com a realidade dos corredores e salas das universidades. Primeiro, não é possível que eu estudasse somente o que eu gosto se antes é necessário que eu tenha contato com premissas que preciso para compreender o objeto que eu gosto de estudar.

Veja, escolher uma área de conhecimento que você perceba certa aptidão e tenha afinidade contribui muito no seu desenvolvimento, mas não somente.

É preciso entender que gostar de História não lhe garante que gostará de todos os ramos que o estudo historiográfico pode tomar, e TUDO BEM! A universidade te dá meios de conhecer um aparato geral acerca da ciência que você tanto ama, e com essa base você pode desenvolver diversas potencialidades.

É comum se frustrar por não conseguir absorver todo o conhecimento de sua área, todos os conceitos e aplicações – só uma colocação, É IMPOSSÍVEL SER ESPECIALISTA DE TUDO!

Por exemplo: na área da educação, temos questões específicas como a psicologia da educação, metodologias específicas de ensino, avaliação, didática e outras; e é impossível que eu me torne especialista em tudo isso.

Lembre-se: a faculdade te dá noções do seu campo de conhecimento, o estudo acadêmico se dá muito mais nas bibliotecas do que em sala.

A faculdade atrapalha num sentido, pois não nos permite alegar ignorância do que evidentemente nos foi apresentado. E isso é incrível: é preciso absorver o espírito acadêmico (de indagação, de curiosidade, de investigação, de procura) e não ser absorvido pela academia.

A Torre do Relógio, na Universidade de São Paulo. Jornal da USP/ Reprodução

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *