COMO A AGENDA 2030 PODE AJUDAR A CONSTRUIR UM MUNDO PÓS- PANDEMIA?

Diante desse “novo normal”, uma pergunta emerge: como construir um mundo pós-pandemia que encerre o ciclo de deliberado desequilíbrio?

Por Antônia Tauanne Rodrigues de Sousa

O surto pelo novo Coronavírus (SARS-CoV-2), causador da COVID-19, instaurou um contexto de perturbação na ordem pública e impeliu a sociedade a rever seu modo de ser. O sistema foi questionado, na balança de necessidades e coexistência de retrocessos, as desigualdades e os problemas negligenciados só acentuaram a instabilidade econômica e política.

Nesse sentido, a música do compositor e cantor Cazuza passou a refletir perfeitamente o ocorrido, quando Cazuza afirma ver o futuro repetir o passado. Isso porque o High-Level Panel on the Global Response to Health Crises (Unga, 2016a), criado em abril de 2015 para examinar e extrair lições da epidemia pelo vírus ebola, já havia previsto a ocorrência de pandemias em anos vindouros, contudo, não houve qualquer adequação do mundo para evitar esse fato.

Nesse sentido, quando o mundo entrou em colapso devido a pandemia pelo novo Coronavírus, os já precários serviços prestados se mostraram defasados, a exemplo da situação de exclusão das populações vulneráveis, que vivendo em submoradias, sem água encanada, sujeitas a superlotação do transporte coletivo, com dificuldade de acesso ao sistema público de saúde e submersas a tantas outros recortes sociais, viram mais uma vez seus direitos serem violados.

Diante desse “novo normal”, uma pergunta emerge: como construir um mundo pós-pandemia que encerre o ciclo de deliberado desequilíbrio?

Bem, a resposta foi lançada em 2015 pela Organização das Nações Unidas (ONU), por meio da Agenda 2030, que consiste em um plano de ação composto por 169 metas que constroem os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), voltadas para as pessoas, o planeta e a prosperidade. O propósito é ambicioso: pretende melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas, em todo o mundo, até 2030.

Imagem: Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo / Reprodução

O fato é que ainda que a pandemia tenha impactado diretamente a Agenda 2030, com a retomada da orientação nela contida, é possível, por meio do ODS 3, assegurar a saúde e a qualidade de vida para todos, além de trabalhar com os ODS relacionados a eliminação da fome, promoção da segurança alimentar, redução da desnutrição, desenvolvimento infantil, acesso a água de qualidade, saneamento básico e combate a poluição do ar, solo e água.

Portanto, conforme disse o Secretário-geral da ONU, António Guterres:

Podemos voltar ao mundo de antes ou enfrentar as questões que nos fizeram desnecessariamente vulneráveis a crises. O nosso mapa aponta para a Agenda 2030 e os 17 ODS. A recuperação da COVID-19 deve levar-nos a uma economia diferente 

Entretanto, a escolha parece ter sido tolamente feita. Segundo mostra o lançamento da IV edição do Relatório Luz da Sociedade Civil sobre a Agenda 2030 no Brasil, há uma evidente dívida não apenas com os compromissos traçados em 2015, mas uma generalizada falta de visão estratégica dirigida a uma solução orientada.

Imagem: pactoglobal.org / Reprodução

Desse modo, a pandemia apenas foi uma agravante, já sendo existente o cenário “de profundas desigualdades, o desfinanciamento de políticas essenciais e a ausência de políticas integradas, assim como a ineficiência na governança multinível e na cooperação internacional”.

Continuamos sem entender que nossas decisões projetam possibilidades de existência para as futuras gerações, impactando diretamente o aqui e o agora. Há uma frase do físico e ambientalista, Fritjof Capra, que diz o seguinte: “o homem não teceu a teia da vida, ele é dela apenas um fio, o que fizer à teia estará fazendo a si mesmo.”

E a crise sanitária, que nos condicionou em lares e desestabilizou economias, é exemplo do modo como temos investido na cultura da autofagia, pois reduzimos a nossa casa a cinzas na mesma proporção que devotamos golpes em nós mesmos.

Assim, nessa sucessão de fatos coincidentes, é necessário formular uma solução que, além de responder às fragilidades econômicas, sociais e ambientais, seja capaz de promover uma sociedade mais resiliente, sustentável e preparada para enfrentar eventuais crises. A agenda 2030 é a proposta.

Quer saber mais sobre o tema? Veja algumas referências:

Pandemia pela Covid-19 e multilateralismo: reflexões a meio do caminho – Revista Estudos Avançados, vol.34 no.99 São Paulo May/Aug. 2020  Epub July 10, 2020  

Portal Pacto Global Contra Covid-19 

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *