Os “Climakers”: um movimento global de agricultores

Por Veronica Wrobel
Traduzido por Daniele Savietto

“A comida é a base de nossas vidas.” É assim que a conferência “Uma agenda climática conduzida pelos agricultores” começou ontem na COP24. Essa iniciativa nasceu de uma preocupação sobre como a agricultura seria coberta pelo Acordo de Paris, e assim, uma noite, na Conferência do Clima em Marrakesh, os agricultores decidiram criar sua própria agenda. A ideia era criar algo que nunca havia sido feito antes e em escala global, incluindo todos os interesses dos agricultores de todas as culturas. Isso não ia acontecer por si só, então eles precisavam fazer acontecer! E foi assim que surgiu a ideia dos “Climakers”. Não seria uma organização ou um programa, mas um movimento abrangente e global, que incluiria todos os agricultores, independentemente de sexo, idade ou nacionalidade.

A questão central em que essa agenda se concentra é “o que os agricultores podem fazer para adaptar e mitigar a mudança climática e o quanto eles precisam fazer isso?”. Em poucas palavras, os agricultores queriam elaborar um plano que incluísse seus interesses, aspirações e ameaças, já que eles são um dos grupos mais vulneráveis ​​às mudanças no clima.

Neste momento, o presidente da Organização Pan-Africana de Agricultores, sublinhou o quanto as regiões africanas, as que menos contribuem para as alterações climáticas, são também as que mais são afetadas, com cheias e secas, que provocam a redução, disponibilidade de água e perda de diversificação na agricultura. Esta é a razão pela qual a Agenda dos Agricultores é necessária: para preservar os recursos naturais para a produção de alimentos, a única maneira de mitigar as mudanças climáticas é reabastecer e tornar o mundo verde novamente.

A agenda tem o objetivo de dar voz aos agricultores africanos pela primeira vez, levando em consideração o que acontece em todos os níveis da produção. É isso que o Representante dos Agricultores da África do Sul disse sobre essa “iniciativa muito empolgante”, que envolve os agricultores, que são a parte central do processo de praticar a Agricultura Inteligente Climática. Ele destacou o fato de que tudo isso precisa ser um esforço coletivo, no qual a implementação no nível nacional compreende também, e especialmente, os jovens agricultores: sem eles, “dariamos um tiro no pé”. O que precisa ser feito é transformar o sistema agrícola em conjunto e abraçar a idéia de “não ser apenas verde em prol do verde, mas ter um impacto real”.

Em colaboração com o Banco Mundial, eles também elaboraram o “Guia Inteligente de Agricultura”, uma ferramenta para transformar o sistema alimentar através de uma colaboração entre os próprios agricultores e a comunidade científica, para fornecer as ferramentas certas e compartilhar informações sobre a maneira mais eficiente de implementar o projeto.

Depois que os oradores terminaram suas intervenções, a voz foi dada ao público. Em minha opinião, a questão mais interessante e urgente foi a distribuição justa do que já temos, já que especialistas afirmam que o mundo hoje é capaz de alimentar mais de 12 bilhões de pessoas.

De fato, 60% da terra arável global é usada para produzir safra para pecuária e produção de produtos de origem animal, que respondem por apenas 2% do consumo global de proteína. Em outras palavras, para cada quilo de carne bovina precisamos de 15 quilos de colheita. Neste ponto, toda a indústria agrícola não deve se concentrar mais na produção de proteínas vegetais para consumo humano – especialmente nos países ocidentais e mais ricos, que são baseados em uma cultura de alto consumo de carne? A resposta do presidente da Organização Mundial da Agricultura é muito simples: se o mercado muda, também a produção de alimentos vai mudar, porque os agricultores produzem o que lhes traz uma renda maior, ou seja, o que é exigido pelo consumidor. A antiga e conhecida lei da oferta e procura.

Agora a verdadeira questão é: formuladores de políticas e produtores podem fazer sua parte, mas se não mudarmos radicalmente nossos hábitos quando se trata de alimentos, preferindo uma nutrição sustentável e ambientalmente amigável, a mudança não será impactante o suficiente para mitigar nossos problemas ambientais.

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