Clarice Lispector: Segredo de escritora

Severino Francisco

Ilustração de Novaes, colaborador da Agência Jovem de Notícias

“O sentimento da beleza é o nosso elo com o infinito. É o modo como podemos aderir a ele.” Em uma primeira mirada, é possível imaginar que a autora da frase seja uma intelectual clássica, que formulou esse conceito depois de ler quatrocentos mil tratados de estética, de ter participado de quinhentos mil seminários e de ter feito um pós-doutorado na Sorbonne (Paris). Que nada! A frase e circunstância em que foi escrita definem muito bem a personalidade desconcertante, intuitiva, visionária e inspirada de Clarice Lispector (1920-1977), uma das maiores escritoras do século 20. Clarice escreveu a frase em uma crônica para jornal em que termina falando de empregadas domésticas. Ela era uma ucraniana-pernambucana; nasceu na Ucrânia, mas veio para o Brasil com dois meses de idade e passou a infância em Recife.

Sobrenaturalmente sóbria, Clarice tem o poder de arrancar dos fatos, objetos e personagens mais banais a beleza, a metafísica e o mistério. A metafísica pode brotar da personagem de uma empregada doméstica (Macabéia, de A Hora da Estrela), de uma mulher com uma barata num apartamento vazio (A Paixão Segundo GH) ou de uma galinha (personagem de um livro infantil ou de uma crônica de jornal): “Eu ainda não sei controlar meu ódio, mas já sei que meu ódio é um amor irrealizado”.Quem lê os livros de Clarice tem a impressão de que ela se droga para escrever: “Há os que já nascem com o LSD em si sem precisar tomá-lo”, dizia Clarice, sobre a droga muito popular nos anos 60.

Ela costumava dizer que escrevia para compreender o mistério, mas a resposta de um mistério é sempre um outro mistério. Casada durante muitos anos com um diplomata, Clarice era uma dona de casa, mas uma dona de casa ilustrada, culta, singular: “Como é que ousaram dizer que eu mais vegeto do que vivo? Só porque levo uma vida um pouco retirada de luzes do palco. Logo eu, que vivo a vida no seu elemento mais puro. Tão em contato com o inefável. Respiro profundamente Deus. E vivo muitas vidas”.

Ler Clarice Lispector é uma experiência ácida. Como disse o mestre e escritor mineiro Guimaraes Rosa: “Existem escritores que a gente lê por causa da literatura, mas a gente lê Clarice para a vida”. A sua escrita é existencial, sanguínea, passional: “Fiz da língua portuguesa minha vida interior, o meu pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor”.

Texto publicado na edição nº 07 da Revista Viração, em janeiro de 2004.

 

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