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A cidade que eu vejo é a mesma que você vê? – Agência Jovem de Notícias

Imagem do Coletivo GatoMídia

A cidade que eu vejo é a mesma que você vê?

|Por: Giselle Soares | Imagem de destaque: GatoMídia

Ao som da música Alegria, de Orlando Silva, onde o cantor narra um povo que inventou a batucada para deixar de padecer, eu pergunto: “o que você têm feito? Tem recriado seus modos de vivências?”

Hoje, dia 20 de março, comemoramos o Dia Internacional da Felicidade, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU), em junho de 2012. A inspiração para a data veio da iniciativa de um país asiático, o Butão, que possuía uma das populações “mais felizes do mundo”. O pequeno país chamou a atenção pelo conceito Felicidade Interna Bruta (FIB), elaborado pelo rei butanês Jigme Singya Wangchuck, em 1972.

A medida do FIB, no entanto, não está relacionada às demonstrações de momentos alegres ou prazerosos, mas à satisfação da população em relação às suas condições de vida. O indicador parte do princípio de que o objetivo principal de uma sociedade não deve ser apenas o crescimento econômico, mas sua integração com o desenvolvimento psicológico, cultural e espiritual. 

Através do índice, são avaliados direitos básicos oferecidos pelo Estado como educação, saúde, meio ambiente e lazer, condicionais para a conquista da felicidade. Dentre os fatores responsáveis pelo título de “país mais feliz do mundo” concedido ao Butão, estão a preservação da cultura, o sistema público de saúde e a preservação da vegetação nativa – cerca de 70% do território. No ranking internacional, o Brasil ocupa o 22° lugar.

Do lado de cá, as manifestações nas grandes capitais brasileiras apontam para uma insatisfação generalizada da população em relação às instituições públicas e aos direitos básicos. Para melhor compreender a posição que o Brasil ocupa hoje, é preciso identificar como a população vive a cidade e suas comunidades, como se desloca, como lida com o tempo e com o meio ambiente, como avalia a saúde, a cultura, o bem-estar e a governança.

Imagem da Fanzine Cidade Aberta

Ponto de partida

Em minhas andanças por diferentes territórios populares enquanto mulher negra periférica, observei que as noções como precariedade, pobreza, risco e violência, moldam certos espaços da cidade e a maneira como a enxergamos. Isso acaba refletindo também na maneira com que os moradores vêem a si mesmos e como se apresentam, reproduzindo a imagem negativizada atribuída aos espaços urbanos que ocupam.

Assim, muitas vezes, diminuímos quem vem de regiões periféricas e até mesmo suas expressões culturais, deixando de ver as periferias como realmente são, confundindo-as com as imagens que projetamos sobre elas, tornando-as desinteressantes para nós. Um exemplo disso é a associação imediata da periferia ao tráfico de drogas.

Precisamos destacar e produzir valor sobre os ativos da comunidade, seus potenciais, suas inspirações, desenvolvendo espaços melhores que promovam saúde, felicidade e bem-estar para a população. Para mudar essa realidade, é preciso reinventar, apropriar e co-criar os centros urbanos.

Eu só quero é ser feliz

As experiências e histórias vivenciadas no espaço urbano resultam no mapeamento de problemas e possíveis soluções. O processo de construção e manutenção desses espaços gera uma (re)conexão das pessoas com o território, uma nova relação afetiva com as ruas, praças, escadarias e becos, uma (re)significação desses espaços e de seus valores de uso. 

As ações que compõem o processo de construção e manutenção do espaço urbano tendem a reconhecer e valorizar os territórios populares como espaços de potencialidades; Seus moradores como sujeitos de histórias, subjetividades e percepções, que podem ser aplicadas no território como força impulsionadora de transformação local.

Apesar de encontrar nas periferias restrições de acesso a equipamentos e bens culturais, como teatros, cinemas, espaços de lazer e de convivência, a má distribuição desses equipamentos resulta no improviso.

Uma característica da população periférica é ser conhecida por suas “gambiarras”, “ratarias”, ou seja, pelo exercício da criatividade através dos recursos disponíveis. Quando falamos que é necessário “apropriar-se do espaço urbano”, é justamente co-criar outras formas de fazer e pensar cidade, território, e encontrar nesses espaços um sentimento de pertencimento, de partilha. Assim, através da apropriação do espaço urbano pela população, desenvolve-se micro resistências diárias.

Foto: GatoMídia

No entanto, quando essas ações culturais produzidas pelos coletivos não são completamente ignoradas ou invisibilizadas, podem ser deslegitimadas como produção artística por não se enquadrarem no padrão cultural tido como referência. Logo, devemos valorizar nossas manifestações culturais, habilidades, criatividade, potencialidades e inovações – características pouco exploradas pela mídia que nos caracteriza. Quando fortalecemos essa visão, desenvolvemos uma nova perspectiva para conosco e para com o território.

Identificar outros meios de experimentar o território expande possibilidades de transformação local. Uma proposta a ser realizada é a expansão do olhar, desconstruindo o imaginário social da população.

Precisamos viabilizar as diversas visões de mundo, múltiplas histórias, diversidade cultural, resistência, pluralidade estética. Narrar isso, é falar sobre vidas, sonhos e realizações dos mais variados sujeitos criativos e potentes.

Perceber as referências simbólicas (manifestações culturais, artísticas, formas de sociabilidade) existentes nos territórios e valorizá-las, contribui e provoca a co-criação de espaços em territórios que sofrem com a degradação ou abandono do Poder Público. Os recursos simbólicos capacitam e impulsionam a população.

Precisamos nos atentar às experiências cotidianas das pessoas em seus territórios, pois elas revelam múltiplos significados, interferindo diretamente nas formas como se constroem e são construídos como sujeitos sociais. 

A partir dessas reflexões, convido você a medir como está seu índice do FIB. Responda-me: Onde a cidade te machuca? Onde a cidade te cura? Como você narra o lugar onde mora? Como você percebe o seu espaço e como o vivencia? O que te deixa mais vivo? O que te move?

Assim, desenvolvemos um lado cheio de possibilidades e cheio de vida. Sabemos que, no fundo, as pessoas querem se sentir bem, e esse ato torna-se uma ferramenta para a realização produtiva.

Gise, 23 anos. Co-criando diversos modos de habitar, sentir, experimentar, de ler e narrar a cidade-periferia. Estudante de Ciências Sociais.

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2 Comentários

  • Que texto maravilhoso!!
    Uma tempestade de tudo que precisamos ouvir. Adorei!

    • Ei Lully, já que você gostou do texto, que tal compartilhar nas suas redes sociais? Ah, achamos que você vai gostar também da matéria sobre direito à cidade que uma das nossas jovens correspondentes fez, na cidade de Quito, no Equador! Você pode acessá-la clicando neste link: http://bit.ly/2pSIGyr

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