Cheganças artísticas sobre os Valores Civilizatórios AfroBrasileiros

Um pouco da trajetória de construção do Grupo MovaNos e os esforços feitos pela população negra no Brasil para compreender as contribuições históricas dos povos negros a partir dos Valores Civilizatórios Afro Brasileiros.

Por Hudson Batista / Grupo MovaNos

Ao começarmos a escrever estas linhas gostaríamos de pedir licença aos nossos mais velhos. Aos nossos ancestrais, nossos antepassados, aqueles que vieram antes de nós. Aqueles que lutaram para que mãos negras, pretas, pobres, faveladas, famintas (Salve, Carolina Maria de Jesus!), mãos femininas, homossexuais pudessem escrever suas histórias, suas narrativas. Aqueles que o filósofo Gramsci chama de “intelectuais orgânicos”. Aqueles que se originaram da perifa[1] e vivem de perto a violência urbana. Aqueles que entenderam a importância de se construir legados para que nós nos permitamos existir, falar, escrever, nos expressar.

Ainda falta muito, mas já avançamos bastante nessa sinuosa trilha. Agradecer pela oportunidade de estarmos vivos, podendo falar de temas e conceitos que por tanto tempo, e acreditamos que ainda seja, para muitos, temas espinhosos. “A carne mais barata do mercado é a carne negra” já cantava Elza Soares do guri, em uma composição de Seu Jorge da Burguesinha e Marcelo Yuka do Rappa que foi lançada em homenagem ao centenário da abolição da escravatura no Brasil (1988).

Sabemos a dificuldade que é falar da história da diáspora africana[2], sem desassociar processos que marcam a existência da negritude (enquanto movimento histórico) e os desafios para que ela seja aceita como etnia, sem que as pessoas desqualifiquem ou exotifiquem a trajetória das populações negras reforçando a ideia dessa temática ser pertencente a um único grupo da sociedade.

Dizem que negrxs falam de negrxs e lutam pelo o fim do racismo: “Desculpem, mas isso é um problema de vocês. Eu nunca sofri racismo! No Brasil não existe racismo, isso é um problema dos negros norte americanos / Se eu aprovo leis para a população negra, estaremos restringindo o sentido da democracia, estaremos beneficiando parte de um grupo”.

Essas e outras expressões era o que ouvia o político e artista Abdias do Nascimento. Enquanto os outros grupos étnicos garantem sua existência como indivíduos, nós negros somos vistos como parte de um grupo. “A carne mais barata do mercado FOI a carne negra, agora não é mais” cantavam as atrizes em cena no musical[3]. O negro hoje é business, é tec, é pop, é o blackmoney de Nina Silva[4], é o mercado consumidor que deseja representatividade no que vai consumir.

MovaNos para transformar nossas realidades

Os negros consomem o equivalente a R$ 1,7 trilhões ao ano no Brasil e isso não é pouco! A partir deste artigo agora publicado na Agência Jovem de Notícias vamos construir, com técnicas de storytelling, uma narrativa para situar e contextualizar as linhas e temas que se seguirão a partir desse primeiro artigo.

O ano é 2015 e estamos no mês de janeiro. Uma brisa leve e calma corre no clima de um verão super convencional para aquele início de ano. O lugar é Vila Vintém[5] no bairro de Padre Miguel, zona oeste do Rio de Janeiro.

Éramos 5 jovens negrxs e discutíamos questões que permeavam as nossas realidades, de maneira muito particular, mas a principal delas era o racismo. Era um grupo majoritariamente negro, mas diverso. Negros retintos, pouco retintos, cabelos black, de trança nagô, homens, mulheres, lgbtqi+, indivíduos dentro de suas individualidades.

A partir daquele dia muita coisa mudou. A cada território novo, a cada apresentação de espetáculo, a cada nova escola, novas vidas eram impactadas. Realidades transformadas. Muitos tripulantes já passaram por essa embarcação e aportaram seus corpos e suas subjetividades em outras terras. “Navegar é preciso” escrevia Fernando Pessoa[6]. E nesse caso viver também é preciso, é fundamental, pois ser um jovem negro no Brasil é participar de um nicho tenuoso entre a vida e a morte.

A ONU anunciou que “a cada 23 minutos um jovem negro morre no Brasil”.

A partir desta constatação numérica podemos pensar duas alternativas: ou nos mantemos em casa, com medo de sair e acabar por contribuir para que estas estatísticas aumentem, ou podemos pensar em formas inovadoras e criativas de pensar o nosso papel de atuação na cidade, na sociedade, no mundo, como sujeitos de direitos, para que mudemos a realidade e esses números tão cruéis de violência da qual somos o foco principal. O jovem da periferia, e aqui estamos falando de todos (cores, tipos e credos), possui sonhos, desejos, iniciativas, articulação e vontade de ganhar novos horizontes através da criatividade, e para isso criamos o Grupo MovaNos.

Constituímos-nos como um grupo que deseja ser referência em ativismo criativo[7] e por isso usamos da arte como apoio em nossa luta antirracista.  Nosso papel durante esses anos de atuação tem sido pensar o lugar de linguagens estético-artísticas que desvendasse o lugar da população negra e outros grupos menos abastados em diálogo com outros territórios e outras formas de compor propostas criativas, até mesmo às presentes na elite.

Desenvolvemos oficinas metodológicas em escolas públicas para aperfeiçoamento do processo ensino-aprendizagem a partir do teatro (Jornada Teatro-Corpo). Fazemos produções de espetáculos artísticos e oferecemos cursos de formação artística para atores e não-atores com técnicas afro centradas para interpretação, direção e dramaturgia. Já fomos premiados em festivais teatrais no município do Rio de Janeiro.

A maioria dos nossos atores são universitários de instituições como UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro); UNIRIO; Faculdades CAL de Artes Cênicas, Centro Universitário Celso Lisboa e PUC-Rio e cursam bacharelado e licenciatura em Artes Cênicas. Acreditamos na importância do processo formativo-acadêmico dos nossos artistas e jovens, por isso incentivamos a entrada na universidade.

Nós temos uma missão na terra e gostaríamos fazer um convite para que as leitoras e leitores deste texto nos acompanhem, pois precisamos que nosso eco ultrapasse as fronteiras do mundo: nossos artigos apresentarão, a cada mês, um dos dez valores civilizatórios afro brasileiros em uma perspectiva universalista.

Mas o que vocês querem dizer com isso?

A gente explica! Apesar dos valores civilizatórios partirem do termo afro (que remete ao continente africano) e brasileiro (pois partimos do contexto da realidade brasileira), gostaríamos de deixar claro e afirmar que eles estão presentes nos mais diversos grupo étnicos, nas diferentes culturas, naquelas mais diversas, onde você achou que fosse inimaginável. Será a onda diferente mais familiar da vida de vocês.

Ok, mas aí vocês estão dizendo que somos todos iguais?

Não. Somos todos diferentes e gostaríamos de ser respeitados em nossas individualidades e diferenças. O que estamos propondo é o seguinte: façamos juntos um exercício de alteridade e empatia pensando as influências e contribuições históricas das populações negras nas outras culturas e nos outros povos do mundo.

O que queremos construir com essa produção intelectual é um debate e um convite ao diálogo dos mais diferentes sujeitos nas diversas partes do mundo. Queremos garantir a existência a partir do respeito, no diálogo e no momento em que podemos perceber presenças e influências do outro na nossa cultura, no nosso jeito de ser, na maneira como olhamos e enxergamos o mundo. No próximo artigo apresentaremos o primeiro valor VITALIDADE [8]. Nas palavras do ator e integrante do MovaNos Matheus Siar, não é o tempo existente e sim o tempo consciente, com qualidade, dentro de nós.

Quer conhecer mais o trabalho do Grupo MovaNos? Acesse a página deles no Facebook. Quer falar com eles? Envie um e-mail para movimentonosso@gmail.com

Notas:

[1]  Gíria utilizada para se referir à palavra periferia, que são espaços e regiões situadas longe dos grandes centros urbanos. Nessas localidades encontramos as favelas e comunidades.

[2] Foi o “espalhamento” das populações e etnias negras em diversos países e regiões do mundo a partir dos processos colonizatórios dos territórios do continente africano. O negro era mão-de-obra escravizada e barata.

[3] Esse era o Musical Elza, que falava a história cantora brasileira Elza Soares e estreou no ano de 2018. Foi uma produção artística que possuía atrizes negras em papel de destaque e foi encabeçado e produzido por mulheres. O sucesso dessa produção teatral que marcou a história dos musicais brasileiros.

[4] Empreendedora negra e criadora do movimento blackmoney considerada uma das afrodescentes mais influentes segundo a revista Forbes.

[5] Essa favela foi apelidada dessa forma, pois se acreditava que nessa região as terras e casas não valiam um vintém (gíria que se referia a dinheiro) sequer, por ser uma região longe do centro da cidade do RJ. Os processos de favelização das zonas periféricas da cidade marcam-se pelo final do século XIX.

[6] Poeta e filósofo português.

[7] Termo desenvolvido pelo Grupo MovaNos. Aqui entendemos como a nossa ação de luta antirracista na sociedade ocorre. Nosso ativismo se dá pelo trabalho das nossas produções artísticas e metodologias que apresentam formas criativas e inovadoras no combater as variadas formas de preconceito.

[8] Identificamos os valores na pesquisa do antropólogo brasileiro-congolês Kabenguele Munanga na obra Negritude: Usos e sentidos (1988) e estamos amparados na produção intelectual da professora Azoilda Loretto Trindade, responsável por construir uma metodologia pedagógica de nome ‘A cor da Cultura’(2004).

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2 Comentários

  • Parabéns pelo grupo tudo de bon pr vc seu trabalho e maravilhoso

  • parabéns pela jornada e pelo lindo trabalho que vcs fazem!
    Grande abraço
    Isaac

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