Cena Viva II – Subverter e destruir

No segundo texto da série, a gente vai falar do sucesso que ‘vilões’ fazem em obras audiovisuais através de um olhar sobre a personalidade de Coringa.

Por Erik Martins

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Em nossa primeira análise, tratamos da necessidade de expor certos temas através da arte. Por mais dolorosos que possam ser, trazem à tona o que há de mais putrefato na alma humana, revirando nossos estômagos, mas sendo certeiros em seu papel de expor a ferida aberta, de modo que ninguém que perceba consiga se abster do debate.

Mas nem sempre isso é uma realidade. Não podemos nos esquecer de que a arte é um elemento vivo e em constante transformação, e por mais bem intencionado que seja o artista, a obra pode ser ressignificada pelo público, expressando exatamente o oposto da proposição inicial. E é por isso que precisamos falar sobre o Coringa!

Coringa é um personagem criado por Bill Finger, Bob Kane e Jerry Robinson, que teve sua primeira aparição no quadrinho Batman #1, em Abril de 1940. 

Entretanto, o que deveria ser a aparição pontual de um bandido combatido pelo homem morcego, progrediu para o posto de seu arqui-inimigo e um dos maiores vilões de todos os tempos dentro da ficção.

O príncipe palhaço do crime capta a atenção da plateia de maneira singular por suas estratégias e engenhosidades em sua busca de derrotar o Batman e causar o caos.

Até aí tudo bem. (Sim, essa é uma frase para dizer que as coisas vão piorar vertiginosamente).

Conforme as histórias nos quadrinhos vão se desenvolvendo, e sendo também transmitidas pela indústria cinematográfica, compreendemos o porquê dos heróis ficarem tão perturbados e desejosos de sua captura: o homem é um sociopata!

Personagem Coringa nas HQs / Divulgação

Sim, Coringa é um verdadeiro sádico e caótico arauto da destruição.

E, de fato, acompanhar as disputas entre herói e vilão pode ser interessante e talvez até instrutivo, dependendo da narrativa. Mas o que percebemos ao longo do tempo foi uma identificação com o arlequim do ódio.

Muitas vezes torcemos por ele, mesmo que no nosso íntimo – porque, afinal aquilo é só uma história, e ele movimenta tão bem a narrativa, não é? Mas acontece que nem sempre é só uma história.

O passado do Coringa é desconhecido; nas HQs e nos filmes ele conta diferentes narrativas sobre o que o levou a ser como é, mas constantemente se desmente, mostrando que inventava como forma de alcançar seu propósito. Mas o filme de 2019, dirigido por Todd Phillips e protagonizado por Joaquin Phoenix procura, como uma abordagem experimental, traçar um possível início do famoso vilão.

Foi um grande sucesso de bilheteria, o que já era esperado tendo em vista a expectativa em relação à obra. Eles só não contavam com a quantidade de críticas que se sucederiam. Em meio à violência com armas de fogo vivenciada nos Estados Unidos, muitos se mostraram apreensivos com a recepção social ao filme.

Cenário recente de um massacre envolvendo outra produção do universo de Gotham, o cinema de Aurora, no Colorado, se negou a apresentar a produção.

Isso não é apenas uma crítica à violência em si; muitos incels se apropriaram da narrativa para justificar seu ódio social. Aqui precisamos nos ater e explicar quem é esse grupo. Incel é uma sigla em inglês para “celibatário involuntário”. Pessoas, majoritariamente homens, que com sua inabilidade social se veem isolados e, por isso, enraivecidos. Com isso decidem descontar esses sentimentos na própria sociedade, especialmente em mulheres, a quem identificam como responsáveis por seu sofrimento.

O filme, segundo as críticas, poderia ser um espelho para esse grupo, pois traz a clara criação de um homicida desgovernado como produto de uma sociedade doente. E não vamos dizer que também não é, que vivemos no maior modelo de saúde mental, mas essa é uma questão extremamente complexa que não legitima a representatividade incel de forma alguma.

Mas não só referência para outros assassinos, logo após a estreia, o nome Coringa foi um dos mais buscados em um site pornográfico.

Outro elemento para analisarmos aqui é o tão conhecido relacionamento que possui com Arlequina. Criada por Paul Dini e Bruce Timm, a personagem apenas apareceria em Batman – a série animada, dando um toque de feminilidade à gangue do Coringa. Mas contrariando as expectativas, foi muito bem recebida pelo público, cada vez ganhando mais espaço. Aos poucos vemos o quão conturbada e doída é sua história e a relação que mantém com seu “pudinzinho” (como gosta de chamar o Coringa).

” – Ah, vamos pudinzinho… você não quer acelerar na sua Harley? [Em referência ao nome dela em inglês Harley Quinn] Vroom vroom.
Thud
– Ooff!”

A clara representação de um relacionamento tóxico serviria para trazer a pauta em questão, além de aumentar a vilania do homem. Entretanto, parte do público subverte essa realidade, tratando como uma intensa relação de altos e baixos.

“Os dois são bem loucos, não é? Mas como não amar?”

Não, a gente não ama. Esse é um claro exemplo de violência e dependência afetiva em um relacionamento, e mostra justamente o quanto pode ser prejudicial.

Mas quais seriam as razões para justificar um apreço tão intenso por essa relação, de modo que muitos cheguem a dizer que querem um relacionamento como o de Coringa e Arlequina? E mais: qual é a razão que impulsiona pessoas a admirarem um verdadeiro sociopata?

Questões como essa precisam ser refletidas e mostram o quanto a arte pode ser uma faca de dois gumes e utilizada contra seu próprio propósito.

Personagem Coringa nas HQs / Divulgação

Nossa, nos nossos dois primeiros encontros trouxemos temas tão tensos. É compreensível que nos sintamos “moídos” com tudo isso. Mas agora, vamos nos alongar, espanar a poeira e tratar de coisas leves, de entretenimento, de artes que não precisam ser tão complexas e pensadas e possam ser mais apreciadas de forma passiva. Quer dizer… será que isso é possível?

Até o próximo episódio!

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