Cena Viva I – temáticas necessárias

No primeiro artigo desta série, falaremos do impacto que a arte traz à sociedade, como ela reverbera em nós. Trazer atenção à vida da cena no nosso dia a dia e nas metamorfoses sociais.

Por Erik Martins

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Fiquei refletindo esses dias e decidi inaugurar um momento novo por aqui, para podemos conversar melhor sobre as artes cênicas na prática. Isso porque às vezes as coisas não são tão simples como parecem. Se em alguns momentos vemos a teoria e a prática se complementando lindamente, em outros, como diz o ditado, o feitiço vira contra o feiticeiro.

Então decidi fazer um quadro sobre crítica. Mas não uma crítica técnica como “uma atuação maravilhosa por tal motivo… A direção que deixa a desejar em um quesito… A fotografia da série, em acordo com o figurino, que nos transporta aos anos…”.

Não! Não vamos pensar em técnicas, especificamente. Vamos falar do impacto que uma criação traz à sociedade, como ela reverbera em nós.

E, por favor, não quero ser alguém taxativo e ter a última palavra. Quero realmente estabelecer um diálogo; que possamos pensar e observar como essas questões trazidas iluminam os cantos do mundo. Quero trazer atenção à vida da cena no nosso dia a dia e nas metamorfoses sociais. Quero trazer a Cena Viva.

Imagem em preto e branco mostra uma instalação artística composta por várias máscaras suspensas por varetas, dispostas uma ao lado da outra.
Imagem por francesco-ungaro / Pexels

E como primeiro tópico de discussão vamos tratar da necessidade de se falar através da arte. Por isso vamos conversar sobre a série I may destroy you.

[Atenção: esse artigo pode trazer assuntos que são gatilhos para algumas pessoas por sua temática sobre abuso sexual]

I may destroy you é uma série criada, roteirizada, co-dirigida e protagonizada por Michaela Coel. Lançada em junho de 2020 pela HBO, a série conta a história de Arabella, uma jovem escritora inglesa. Começamos acompanhando sua vida, suas relações cotidianas e a aventura de escrever seu novo livro. E então, o trágico acontecimento. Numa noite, Arabella sai com amigos para um bar, e no dia seguinte acorda machucada e apenas com flashes de memória. Buscando entender o que havia acontecido, Arabella descobre ter sido drogada e vítima de um abuso sexual.

Arte mostra a imagem de uma mulher negra sobre efeitos de luzes coloridas e chuva sobre vidro.
Cartaz de I may destroy you / Divulgação HBO

Essa história não é só de Arabella. É da própria artista, Michaela Coel, e de tantas outras mulheres. Coel já havia revelado ter sofrido um abuso e, tendo como base sua própria experiência traumática, dá vida à personagem Arabella.

A série então se desenvolve na tentativa da personagem em compreender o ocorrido em meio às cobranças que o cotidiano impõe. A grande questão da série é a veracidade que apresenta. Longe de ser uma narrativa de uma heroína que venceu seus desafios com um belo exemplo idealizado de superação, a história nos mostra a realidade, os desafios de sair do ciclo do trauma, o desejo da pessoa de se sentir normal novamente, tudo isso com uma vida que não para, prazos que não esperam.

A série não só acompanha Arabella, mas também seus amigos Terry e Kwame, em seus diferentes relacionamentos. O que está posto em questão com essas histórias é uma franca conversa sobre os limites do consentimento. 

O que é – e até onde é – permitido em uma relação? A violência sofrida e a culpa sentida pelas vítimas nos prendem em nossos assentos, tensos, na expectativa de compreender como essas pessoas seguirão com suas vidas após o ocorrido.

É uma série doída, difícil de engolir, mas extremamente necessária. E por quê? Pois expõe o fato diante dos nossos olhos, e sabemos que isso acontece. Mas quando acontece, o que fazer? Como proceder?

Segundo as recentes pesquisas do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2019 chegamos à marca de 1 estupro a cada 8 minutos. E isso somente no Brasil, sem levar em conta os outros países do mundo. Com um marco tão drástico, se faz urgente trazer atenção ao tema.

E não dá para evitar tocar no assunto, fingir que é apenas um caso em um milhão. É questão de políticas públicas. É necessário trazermos a pauta, pois ela não é uma fábula de um tempo remoto. Ela é real, visceral, e precisa de um holofote para ser percebida por todos, por mais difícil que seja.

A série é uma Cena Viva não só por sua contemporaneidade, mas também por sua maneira de validar a dor de tantas vítimas como quem diz: “Não está nada bem, mas estamos juntos. Você não está sozinha”.

Mostra a necessidade de se denunciar o crime, e de buscar ajuda profissional, com a decisão de Arabella em ir a uma psicóloga.

Imagem mostra uma mulher negra em área aberta com luzes da cidade ao fundo.
Cena de I may destroy you / Divulgação HBO

E por isso a série prende seu público. Pela sua relevância e forma de ser contada, que gera identificação de muitas e muitos, expondo de maneira clara, objetiva e ao mesmo tempo sensível e (se posso dizer assim) acolhedora uma temática que perturba e está presente, infelizmente, em nossa sociedade.

Assim como May I destroy you, muitas outras criações artísticas focam nesse tema. E muitas outras, em assuntos tão importantes quanto. O fato é a capacidade da arte trazer ao debate público a urgência da discussão e de formas de proteção e da busca pela segurança social.

Mas o que acontece quando, por mais que se tenha boa intenção, a exposição da arte é ressignificada, indo contra seus objetivos? Discutiremos isso no próximo texto da série Cena Viva.

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1 Comentário

  • Brabo

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