Capoeira como ferramenta de transformação e resistência em meio a pandemia

Conheça a história de “Mestre Regi”, o trabalho que desenvolve na Escola de Capoeira e Ponto de Cultura Art e Bahia e os relatos de resistência de jovens capoeiristas

Por Thaís Domingos

Foto por: Sara Cristina

O toque do berimbau anuncia a primeira cantiga. Todos já estão de pé ao redor da roda, mas ao contrário de alguns meses atrás, agora, as várias palmas que antes acompanhavam o ritmo da música estão reduzidas. Com a eclosão da pandemia de COVID-19 em 2020, manifestações culturais também adotaram maneiras de continuar resistindo. Entre elas, a capoeira, que no Brasil resiste através de séculos.

A prática cultural negra, que já foi criminalizada em 1890, constava no Código Penal da República como uma atividade ilegal, tida como “capoeiragem”. Aqueles que fossem pegos praticando, estavam sujeitos a punição de até 6 meses de prisão.

Somente em 2014, a capoeira foi considerada pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como patrimônio imaterial da humanidade. 

Fundado por Reginaldo Cecília Antônio, 48, conhecido na capoeira como “Mestre Regi”, a Escola de Capoeira e Ponto de Cultura Art e Bahia, anteriormente denominada de “Força Jovem”, surgiu em 1994, quando o Mestre teve a ideia de criar seu próprio grupo. Em 1997, a escola foi sediada em Helvécia, comunidade quilombola e distrito de Nova Viçosa, no  extremo sul da Bahia. 

Conforme conta Mestre Regi, o objetivo do grupo é preservar e divulgar a cultura afro-brasileira, como também usá-la como ferramenta educacional em um trabalho junto à comunidade, na disposição de  ajudar a solucionar necessidades existentes.

Percursos e desafios

Os encontros atualmente reduzidos ocorrem na Feira Coberta, localizada no centro do município. Porém, com cuidados extra, seguindo os protocolos de segurança sanitária, incluindo uso de máscara e álcool em gel. Os treinos acontecem em 3 dias da semana, propostos para aproximadamente 10 alunos por turma.

Cada uma é selecionada pelo professor Jovenildo Manoel Gomes, 33, popularmente conhecido como “Professor Jovem”.  Ele conta a nossa equipe sobre as dificuldades que vem enfrentando nesse período:

Acredito que está sendo difícil para todos os amantes da capoeira, porque a gente queria tá bem entrosado um com o outro, mas não podemos.

Os capoeiristas mantinham uma interação constante. Desde os encontros cotidianos até a locomoção para outras cidades em eventos regionais como campeonatos e batizados –  nos quais acontece a troca de cordas, tradição importante que simboliza uma nova etapa na graduação para o/a capoeirista. Entretanto, ainda que as aulas sejam disponibilizadas gratuitamente a toda comunidade, haviam percalços. Pois além de se mobilizarem de maneira autônoma para as viagens, os alunos e alunas não possuem espaço próprio para treinarem.

 “A gente sempre treinou em espaço público, porque como a cidade é pequena  a gente nunca teve recurso pra ter um espaço nosso. Os treinos aconteciam na praia, na Feira Coberta ou na praça e é por isso que chamamos muita atenção”. É como nos conta Mayara Alves dos Santos, 19, trancista e aluna do grupo Art e Bahia.

Capoeirista desde a infância, para ela, além de uma válvula de escape, a capoeira é também uma oportunidade para aprender sobre suas origens:

É a minha raiz, né? Porque muita gente jovem hoje se desvia, não sabe como veio, como tá aqui, quem são seus antecedentes e a capoeira ensina muito isso… ainda mais pra mim, que sou mulher, sou negra então é muito mais difícil. Eu acho que eu estando ali, eu tô aprendendo muito… sobre mim, sobre o Brasil

Mayara Alves, 19. Foto: Arquivo pessoal

Para Victor Nascimento de Oliveira, 27, auxiliar de serviços contábeis e também integrante do grupo Art e Bahia, a presença da capoeira em sua vida trouxe bons frutos para sua conduta e cidadania como ser humano:

Você olhar de igual pra igual com o seu próximo, até mesmo os valores que com a atualização do  mundo, digamos assim, vem se perdendo, né? Como por exemplo levantar e pedir a benção aos seus pais, aos seus avós, aos seus tios e até mesmo aos mais velhos. Esses valores deixam a gente com uma base muito sólida e  com a cabeça bem focada naquilo que  a gente quer.

 Para Victor, contribuir nem que seja com algo mínimo para melhoria da sociedade são lições trazidas pela capoeira. “Ela faz com que a gente vivencie e passe a praticar esses valores”, conclui.

Alunos tocam uma cantiga. À esquerda, Benedito Santos, 20, ao centro Professor Jovem e a direita, Vitor Nascimento, 27. Foto por: Sara Cristina

Em uma tarde de sol, a Feira Coberta estava vazia quando Jovem relatava sobre  início de sua trajetória na capoeira, em 1991. Antes de conhecê-la de perto, sua curiosidade era aprender para lutar em “brigas de rua”. Mas, seus interesses mudaram quando entendeu os fundamentos basilares da capoeira: respeito e disciplina. E a partir daí, a capoeira não só  mudou sua vida, como também tornou-se parte dela.”Hoje eu vivo pra capoeira e da capoeira”,  disse segurando o berimbau que ostenta com orgulho.

O professor enxerga as aulas em espaços públicos também como um modo de driblar os desafios que se apresentam como oponentes, sendo um deles, o preconceito. Segundo ele, ainda que a capoeira não seja uma prática religiosa, é pejorativamente associada às religiões de matrizes africanas e também à “malandragem” por algumas pessoas. 

A comunidade não a abraça e não a vê como algo legal. Não observa os benefícios que a capoeira traz. Eu faço questão de dar aula em espaço público igual a Feira Coberta para que os órgãos públicos possam olhar a potência da capoeira nesse lado educacional, onde o aluno que esteja na capoeira sempre está estudando, sempre está sendo uma pessoa de bem. Porque a capoeira não traz lutadores pra estarem em um ringue trocando porrada. A capoeira  te faz um lutador para a vida

Professor Jovem
Professor Jovem. Foto por: Sara Cristina

Apoios

Em conversa com o Mestre Regi, ele diz que sempre foi um sonho abrir um espaço de capoeira no município de Nova Viçosa. Embora o grupo já tenha recebido patrocínios de empresas como a Fibria e a Suzano, o apoio de órgãos municipais como a Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Desportos, nada é efetivo.

Além da ausência de espaço cultural na cidade, Regi conta que  é distribuída uma quantia para pagar os instrutores e professores, mas não cobre todas as despesas necessárias para a subsistência do grupo e valorização dos profissionais.

De acordo com a  Lei Orgânica Municipal de Nova Viçosa, no Art° 97 infere-se que o Município apoiará e incentivará a valorização, a produção e a difusão das manifestações culturais, prioritariamente as diretamente ligadas à sua história.

Auxiliando também  na criação, manutenção e aberturas de espaços culturais e o  aperfeiçoamento e valorização dos profissionais da cultura (Nova Viçosa- Bahia, 2011).

A equipe tentou contato com a atual Secretária de Educação, Cultura e Desportos, Natália Carolino Costa Pereira, para saber sobre a atuação do órgão e se há um apoio à capoeira enquanto manifestação cultural local.  No entanto, após várias tentativas, até o encerramento desta reportagem, não obtivemos retorno.

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