Autoestima e representatividade na literatura

 “Enquanto lia um livro, já reparou se a maioria dos personagens principais eram negros? E em qual contexto social viviam?”

O artigo traz algumas reflexões sobre o Dia da Literatura Brasileira e acerca de quais memórias são celebradas em um país de maioria negra, que possui um mercado literário ainda restrito a escritos feitos por homens brancos.

Por Thaís Domingos

O dia 1º de maio é marcado anualmente pelo feriado internacional Dia do Trabalhador. Além disto, no Brasil, também celebra-se a Literatura Brasileira. A data comemorativa foi adotada para memorar o aniversário de um dos autores mais conhecidos no Romantismo, José de Alencar. Entretanto, é importante destacar que a primeira pessoa a escrever e publicar um romance abolicionista em nosso país, foi ninguém menos que uma mulher negra: Maria Firmina dos Reis. Seu nome, ofuscado pelo racismo e pelo machismo nos faz refletir sobre quais rostos vem a nossa memória quando pensamos em literatura.

Em uma pesquisa realizada por Regina Dalcastagnè, coordenadora do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea na Universidade de Brasília (UNB) foram divulgados dados que apontam para quais são as faces predominantes no mercado literário. Na pesquisa, foram lidos 258 livros publicados entre 1990 e 2004. Os resultados revelaram que 93,9% dos autores são brancos sendo 72,7% homens. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) é sabido que 56,10% corresponde ao percentual da população brasileira que se autodeclara negra.

Sujeitos negros e estereótipos

Os dados evidenciam a disparidade entre quem publica livros e tem o nome reconhecido e entre uma população de maioria negra, que enquanto produtora de conhecimento e literatura, possui autores que não obtém o devido reconhecimento por parte da sociedade. Além disso, algumas famosas obras literárias que compõem o cânone da literatura nacional, representam pessoas negras ancoradas nos típicos estereótipos racistas. Estereótipos baseiam-se no ato de universalizar determinadas características de um grupo de pessoas de modo superficial e pejorativo.

Quem não se lembra dos personagens do sítio encantado de Monteiro Lobato?Da tranquilidade de Tio Barnabé e da simpatia de Tia Anastácia? Estes, que fizeram parte da infância de muitas crianças e jovens brasileiros foram construídos sob estereótipos racistas:Barnabé era retratado sempre empenhado nas tarefas braçais do sítio e Tia Anastácia, resolvendo afazeres na cozinha. A ideia de que existe somente um lugar destinado à pessoas negras, seja em histórias de ficção ou na vida real, é limitadora e cria uma narrativa única para sujeitos que tornam-se “ sujeitados” dentro de narrativas dominantes.

É comum observarmos que a maioria dos protagonistas em livros renomados têm hábitos estrangeiros e um ideal de beleza europeu. Essa problemática também afeta o modo como construímos nossa identidade, tal qual a nossa autoestima. Afinal, estas são concebidas não só com base em nossa experiência no mundo, como também através da maneira que olhamos para nós mesmos e para nossas histórias a partir disso. Enquanto lia um livro, já reparou se a maioria dos personagens principais eram negros? E em qual contexto social viviam?

No caminho do Fortalecimento da Representatividade Negra na Literatura

Tais questionamentos são importantes, pois a presença de autores e personagens negros nas obras literárias, possibilita a criação de novas narrativas que incluam subjetividades e contrariem os estereótipos construídos acerca das vivências do povo negro no Brasil.

E por falar em vivências, “escrevivências” foi um termo cunhado pela escritora mineiraConceição Evaristo para definir a escrita que nasce do dia a dia. De suas experiências como mulher negra e também o ato de tomar a direção de suas histórias e falar por si mesma. Um exemplo disso, é a obra Becos da Memória, publicada pela autora em 2006. O romance é narrado pela personagem Maria Nova enquanto transita pela trajetória de outros personagens, seus dramas, memórias e conflitos, retratados pelo olhar sensível de quem experiencia os fatos.

No entanto, podemos perceber que ainda há muito a se fazer para que escritoras e escritores negros tenham seu trabalho reconhecido e também lido em escolas, clubes literários, premiações, bibliotecas e afins. Contudo, um trabalho de fortalecimento para que isso aconteça, tem sido alavancado por empreendedores negros e negras brasileiros com a criação de editoras que visam a publicação e divulgação de autores negros, literatura afrobrasileira e africana, como a Mazza edições, Editora Malê, Padê Editorial, entre outras.

Além disso, organizações coletivas têm suma importância no que diz respeito à divulgação e publicação de autores negros, como por exemplo a União de Coletivos Panafricanistas – UCPA, que realiza de modo autônomo a tradução e publicação de livros de autores africanos. Como também o coletivo Narrativas Negras: projeto voluntário que visa publicar histórias de mulheres negras brasileiras que participaram/participam diligentemente da construção política, cultural e histórica do país.

Um anseio particular é que as canetas que contam as histórias sejam colocadas em nossas mãos. Que possamos fazer delas instrumentos de revolução ao incluirmos nossos traços, nossos cabelos e nossas vozes nas páginas que constroem os livros. Por fim, como disse Conceição : “A nossa escrevivência não pode ser lida como história de ninar os da casa-grande, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos.”


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