Jornalismo também é coisa pra jovem?

Em uma sociedade hiperinformada, fazer jornalismo aprofundado, e que alcance o público jovem, é um desafio

Por Safira Teodoro | Fotos Lucas Messias e Safira Teodoro

A repórter especial da Agência Pública, Andrea Dip, a jornalista francesa Manon Paulic e o professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia, Wilson Gomes, inauguraram o seminário “Jornalismo: as novas  configurações do quarto poder”, promovido pelo Sesc Vila Mariana e pela revista Cult entre os dias 15 e 17 de agosto.

“Em uma sociedade hiperinformada, as pessoas, sabem mais?”, pergunta Wilson Gomes na mesa ‘O jornalismo diante de uma sociedade hiperinformada’. Existe, de fato, um oceano de conteúdo no meio digital, mas muito disso é fake, é superficial, é opinião e não informação. Na era da pós-verdade, muitos procuram notícias que comprovem seu posicionamento, ao invés de um jornalismo que possibilite refletir sobre o tema, analisa o professor.

Por outro lado, Andrea Dip também acredita no potencial da internet como plataforma para aqueles que não tinham acesso a produção da comunicação e também às iniciativas independentes de comunicação.

Os que eram só leitores, agora também são produtores de conteúdo em blogs, no YouTube e  no Instagram. Ao mesmo tempo, a web abriu espaço para o jornalismo segmentado, gratuito, imersivo, dentre tantos formatos que fogem do padrão vicioso de se fazer notícia.

Os principais seguidores dos influenciadores digitais são os jovens. Eles passam a maior parte do tempo livre conectados às redes sociais, que só competem com as séries em audiência. De acordo com uma enquete feita pelos jovens que realizam a cobertura educomunicativa do seminário, com quarenta pessoas de 15 a 26 anos, a maioria dos jovens com idade entre 15 e 18 anos não consomem nenhum tipo de conteúdo jornalístico; enquanto jovens de 19 a 26 anos têm uma aderência um pouco maior aos portais de notícia, mas majoritariamente focados em hard news.

Se por um lado as redes sociais são uma porta para introduzir diversos temas relevantes ao universo jovem, muitas vezes também são superficiais em comparação às reportagens de fôlego sobre a mesma pauta. Os dois formatos são complementares, mas o jornalismo aprofundado ainda não alcança a maioria dos adolescentes e jovens-adultos.

A Pública acredita que tem mais chance de chegar a todos os públicos, inclusive os mais jovens, através de republicações. Portais como UOL, As Mina, Nós Mulheres da Periferia e É Nóis, que fazem jornalismo jovem, já postaram reportagens da Agência. No entanto, Andrea Dip afirma que o consumo dessas matérias também faz parte de um amadurecimento.

“Mesmo dentro do feminismo, por exemplo, as meninas começam com uma ideia muito rasa. Mas à medida que elas vão tendo algum contato com temas que elas não conhecem, acho que a tendência é elas pesquisarem um pouco mais, começarem a estudar o assunto, a entender e aprofundar um olhar. Talvez aí a gente consiga chegar a esse público, quando existe um amadurecimento de um olhar a respeito do tema”, explica.

Já no dia a dia, em um contexto no qual as informações vão até o leitor, principalmente pelas redes sociais, a iniciativa de buscar mais sobre o assunto se tornou um hábito raro. Além disso, há um consenso entre aqueles que preferem não consumir jornalismo de que sua linguagem é chata, distante do leitor, e a maioria das notícias se repetem, desgraça atrás de desgraça.

No entanto, existem outros formatos jornalísticos espalhados pela web. Meninas em jogo, uma reportagem feita totalmente em quadrinhos por Andrea em conjunto com o jornalista Alexandre de Maio, é um exemplo disso. Trata de um tema complexo, que é a exploração sexual de crianças e adolescentes, mas, por meio do quadrinho, a imagem dessas meninas é preservada. Também foi possível incluir fantasias e lembranças das garotas, que não poderiam ser capturadas pela lente de uma câmera.

Andrea percebe uma grande repercussão das reportagens em HQ entre os jovens, mas ressalva que o jornalismo em quadrinhos não deve ser usado somente para falar com este público, é uma ferramenta que permite qualquer tipo de narrativa.

Cobertura Educomunicativa

A Agência Jovem de Notícias realizou a cobertura educomunicativa do Seminário “Jornalismo: novas configurações do quarto poder”, realizado pelo Sesc Vila Mariana e a Revista Cult. A atividade é realizada em parceria entre a Viração e o Sesc Vila Mariana e conta com a participação de 13 jovens estudantes de jornalismo, com o apoio de profissionais da Viração.