Ato mobiliza comunidade contra extermínio de jovens negros em Belém

| Por Ariane Barbosa, Diego Teófilo e Marineia Ferreira, articuladores da Agência de Notícias Jovens Comunicadores da Amazônia | Fotos: Juliana Aleixo

O dia primeiro de abril é considerado por muitas pessoas como o dia da mentira, mas para a comunidade do Barreiro, localizada na Região Metropolitana de Belém, a violência está longe de ser um simples boato. Na comunidade do Barreiro a violência, assim como suas vítimas, é real.

Por isso, a Agência de Notícia Jovens Comunicadores da Amazônia promoveu o seu segundo “Ato contra o Extermínio da Juventude Negra na comunidade”, no último sábado, dia 1 de abril. O evento reuniu dezenas de pessoas no bairro e percorreu várias ruas com a parceira da Pastoral do Menor, pertencente à Paróquia São Benedito.

Mulher da comunidade Barreiro |Foto: Juliana Aleixo

A coordenadora da Pastoral do Menor na comunidade do Barreiro, Andréa do Rosário, relatou a importância do ato para a mobilização da população. “Vai nos ajudar a sensibilizar os moradores da comunidade, que eles possam também saber sobre o extermínio da juventude na periferia”, declarou. 

Durante a caminhada, os organizadores do ato abordaram moradores e moradoras com objetivo de sensibilizá-los sobre o tema do extermínio de jovens negros nas periferias, sobretudo chamando a atenção para o direito à vida das juventudes.

Um morador, cuja identidade foi preservada por segurança, relatou a dor em ver seus dois filhos assassinados em menos de um mês. ”Meus filhos nunca se envolveram no mundo do crime. O meu mais velho tinha 33 anos e o menor 12 anos e também não devia nada, mas a polícia que antes protegia, hoje ela mata”.

O ato terminou na Paróquia São Benedito, onde foi realizado um cine debate sobre racismo com crianças e adolescentes, a partir da exibição do curta Pode me chamar de Nadí, que retrata atos de racismo vivenciados por uma criança negra.

 

O extermínio de jovens negros e racismo institucional

Jovens participantes do ato | Foto: Juliana Aleixo

De acordo com o Mapa de Violência de 2016, em 1980 foram registrados 8.710 homicídios por armas de fogo, saltando para 44.861 em 2014. A principal vítima da violência homicida no país são jovens negros de 15 a 29 anos.

Em 2003, a pesquisa contabilizou 20.291 vítimas negras; 11 anos depois, em 2014, o número aumentou em 46,9%, passando para 29.813 vítimas.

E essa violência se sustenta no racismo institucional e sistêmico.

Estamos falando de vidas invisibilizadas, dentro de uma estrutura racista e negadora de direitos, que ainda respiram o ar do sistema escravista. Logo, o extermínio segue “padrões” estabelecidos simbolicamente pela sociedade, percepções de quem seria o “elemento suspeito”, ou o “alvo a ser combatido”, padrões que são reproduzidos pelo braço do Estado, por exemplo, através da polícia militar.

O relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o assassinato de jovens no Brasil, publicado pelo Senado Federal em 2016, chama a atenção para a necessidade do país em combater o um de seus maiores problemas sociais: o racismo.

“[A morte de jovens negros no Brasil] se relaciona fundamentalmente às sequelas provenientes dos mais de três séculos de vigência do regime escravista. A escravidão baseada na clivagem racial acarretou tanto a chaga do racismo, quanto do preconceito e da discriminação racial. Até os dias de hoje as desigualdades sociais – notadamente às de renda e, principalmente, às de oportunidades, têm na diferenciação racial sua principal raiz explicativa”, afirma o relatório. 

 

Historiador, educador do Instituto Universidade Popular e membro do Instituto Amazônico de Comunicação e Educação Popular - IACEP.

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