Ato denuncia o genocídio de jovens negros no estado do Pará

Por Marinéia Ferreira, Articuladora Jovem da Agência e membro da Rede de Mulheres Negras do Pará | Foto: Juliana Aleixo

 

O genocídio da juventude negra é fruto do racismo institucional presente na sociedade e vem crescendo de forma considerável nos últimos quatro anos na cidade de Belém e regiões metropolitanas de todo país.

Em 2014, por exemplo, cerca de seis adolescentes negros foram executados no bairro de Icoaraci. Em novembro deste mesmo ano, foram mais de dez jovens negros assassinados em diversos bairros da capital paraense.

A mais recente violência aconteceu no dia 20 de janeiro de 2017, onde aproximadamente 35 adolescentes e jovens negros foram cruelmente exterminados na capital e no interior do estado, após a morte de um policial da Rota durante o seu serviço militar.

Diante desse genocídio contra essa população, a Agência de Notícias Jovens Comunicadores da Amazônia, com apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos, promoveu no último sábado (11) o seu primeiro Ato contra o extermínio da juventude negra do Pará em conjunto com o Coletivo de Juventude Negra do Cedenpa no bairro da Cremação, periferia de Belém.

O objetivo do evento foi dar visibilidade ao genocídio da juventude negra a partir de intervenções de artistas negras e negros.  Foram realizadas atividades de hip hop, entre outras artes que contribuem e fortalecem a cultura negra e suas conquistas, bem como a promoção da igualdade racial, a luta do combate ao racismo e a resistência à violência.

Durante a programação cultural estiveram presentes o Grupos R3, o Moraes MC, a Mana Josi Shaira, o Preto Michael e o Negro Rima, que utilizaram o espaço do evento para denunciar o genocídio da juventude negra e realizar intervenções artísticas durante todo o ato.

“Vejo que quando denunciamos, mostramos para a população que estamos cansados dessas barbáries e também encorajamos as pessoas que estão acuadas diante dessas situações difíceis. Quanto mais pessoas perceberem que existe nas comunidades gente que está na luta pra mudar essa triste realidade, mais teremos poder de cobrar da autoridades justiça sobre os atos que estão acontecendo”, afirmou Wendson Silva do Grupo R3.

Em Belém e outros lugares, a onda de violência contra jovens negros e pobres da periferia vem se intensificando. Segundo dados da Anistia Internacional, em 2012, o Brasil registrou 30.000 homicídios de pessoas entre 15 e 29 anos. Destes, 77% eram negros. Além disso, os jovens negros têm quase três vezes mais chances de serem assassinados do que os jovens brancos. A cada dia, 62 jovens negros são mortos no país.

O que acontece são grandes chacinas com elevado número de vítimas assassinadas por grupos de extermínio. O relatório da CPI das Milícias em 2014 detalha a ação desses grupos que entram nas comunidades através de carros pretos, pratas, e por motos descaracterizadas, e produzem a violência.

Para o educador e comunicador popular Diego Teófilo, que atua na Unipop, “é fundamental que a sociedade de forma geral compreenda os impactos do racismo nela, sobretudo que jovens negros são vítimas de um sistema que é genocida e excludente. Por isso, é de extrema importância provocar momentos como este na periferia”.

O extermínio da juventude existe e precisamos, portanto, combater para que o jovem negro possa ter a oportunidade de se tornar um adulto com uma melhor perspectiva de vida e sonhos.

A MC Mana Josy Shaira comentou sobre a importância da sociedade estar atenta para os ocorridos nas periferias. “Somos nós ativistas que nos importamos de ir onde ninguém vai, anunciar que estamos sendo vítimas de injustiças, que sofremos com a perda de nossos irmãos e irmãs por motivos banais, e tudo vira queima de arquivo. Para combatermos o crime precisamos alertar a população, as famílias, para estarem alertas às situações, produzindo material em uma linguagem acessível para nosso povo, trabalhando a nossa cultura como foi feito nesse ato. Precisamos empoderar o povo preto, resgatar a identidade, com nossa arte, cores, estética e principalmente falar da nossa história, do nosso protagonismo na construção desse país.”

 

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Sobre a Agência de Notícias Jovens Comunicadores da Amazônia

Agência de Notícias Jovens Comunicadores da Amazônia, é projeto realizado pelo Instituto Universidade Popular – UNIPOP, em parceria com o Fundo Brasil de Direitos Humanos, e parceira local com o Coletivo Tela Firme, Rede de Jovens Mais Pará e Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará – CEDENPA.

A Agência tem por objetivo a constituição de um espaço de mobilização contra extermínio de jovens negros e de visibilidade de práticas positivas desenvolvidas por coletivos, grupos, organizações sociais, entre outros nas periferias de Belém.

Ethel Rudnitzki
Redatora e repórter na Agência Jovem de Notícias

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