As faces do refúgio: a busca pela paz, liberdade e justiça

Por: Beatriz Gatti e Laura Teixeira da ;Jornalismo Jr., empresa júnior da Escola de Comunicação e Artes da USP/ Foto: Manu Gomez / Fotomovimiento (14/03/2016)

Fugitivos da guerra, sem saída, injustiçados, encurralados pelo terror, assolados pela tristeza. É costumeiro resumir a condição da pessoa refugiada aos mesmos termos generalizantes, não levando em conta todas as diferenças de trajetória, de cultura e etnia de cada universo individual.

Refugiados têm motivos, anseios, sentimentos distintos uns dos outros. Eles respondem de formas diferentes às mudanças e são recebidos de formas diferentes pelos que os acolhem. O que têm em comum, é que lhes falta voz para exprimirem o que sentem.

De acordo com o Estatuto do Refugiado de 1951, quem se encontra fora do país por conta de perseguição política, religiosa, de raça ou por ser de um grupo social específico, que não possa ou não queira retornar, é considerado um refugiado. Atualmente, a definição se expande para casos de fuga em situações de ferimento massivo dos direitos humanos, de violência de viés generalizado e de conflito armado.

Até o fim de 2016, o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE) estimou a vinda de 9.552 pessoas ao Brasil na condição de refugiado. São de 82 nacionalidades diferentes, sendo a maioria vinda da Síria, da República Democrática do Congo, do Paquistão, Palestina e Angola.

No entanto, os que mais solicitam refúgio são venezuelanos, em números que cresceram 307% em relação a 2015. O que estes dados evidenciam é a importância cada vez maior da participação brasileira nas questões migratórias que vêm abalando o mundo, seja através de inovações políticas e jurídicas ou pela atuação de Organizações da Sociedade Civil e de programas de acolhimento.

A assistente social Aline de Jesus, da organização social Mais no Mundo, explica que, em cada cidade e estado, as políticas públicas para atender imigrantes e refugiados não seguem um padrão e ainda estão se desenhando. “A maioria das cidades que tem um fluxo grande de refugiados ou imigrantes tem articulado serviços públicos e ONGs de apoio para dar o suporte necessário a eles”, afirma.

São muitas organizações que auxiliam o refugiado, oferecendo suporte desde antes de sua saída do país de origem, como a triagem e seleção dos solicitantes, até a regularização e o requerimento à Polícia Federal da documentação necessária, dando amparo nos primeiros meses de adaptação no local de destino.

O programa de acolhimento no qual Aline tem atuado, por exemplo, é direcionado especificamente aos cristãos vítimas de perseguição religiosa, mas há outros, como o oferecido pelo Cáritas, que não se limitam a uma realidade específica, contanto que a condição do solicitante seja de refúgio.

 

Algumas histórias: do Congo à Síria

“Eles matam. Tem coisas que estão acontecendo lá e que são muito tristes. Quando a população tenta sair às ruas para manifestar, eles matam. Ninguém investe no nosso país porque o governo não tem legitimidade. A população vem sofrendo muito.”

Ele é Fred Ngalula Lorenzo, de 27 anos, congolês. Chegou no Brasil em agosto de 2013 após ter sido acusado de participar de grupos rebeldes contrários ao governo do presidente Joseph Kabila, da República Democrática do Congo. “Meu pai e minha mãe me avisaram para não voltar pra casa”, disse Fred sobre quando agentes do governo insinuaram acusações contra ele. Isso porque ele teria saído às ruas com uma multidão para se manifestar.

Fred chegou sozinho no Brasil e, com auxílio de uma organização acolhedora, conseguiu documentação após dois meses de espera. Com muita dificuldade para se comunicar, fez um curso de português no Sesc. Depois de meses vivendo em albergues, aceitou um primeiro emprego como pintor, sobre o qual sugere: “eles sabiam que eu era estrangeiro e então começaram a se aproveitar de mim”.

Formado como analista de sistemas, Fred nunca conseguiu trabalhar na sua área de especialização, algo que considera um “sonho de todo dia”. “É uma área que gosto muito. Aqui no Brasil eu acho que seria difícil reconhecerem meu diploma de lá. Por isso, comecei a estudar aqui e já estou no meu terceiro semestre na faculdade.”

Vivendo sob um preconceito mascarado, ele afirma que o grande problema dos brasileiros é a falta de informação, principalmente pelo descaso da mídia. “Falam que existem imigrantes e refugiados no Brasil, mas não falam o porquê. O que acontece lá fora ninguém fala”. Fred sonha em retornar para seu país quando a paz for restabelecida, e levar seus aprendizados daqui para lá.

Além da discriminação a partir da condição de refúgio, o racismo também contribui para a marginalização de refugiados negros no Brasil, que têm acesso limitado às oportunidades de educação e trabalho decente. Com o status de refugiado, existem hoje 2.799 africanos de um total de 4.311 pessoas no Brasil, segundo dados atualizados de 2010 do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Juntos, eles correspondem à expressiva parcela de 65% da população refugiada no país.

Phillipe Lefevre (nome fictício) é outro congolês, também refugiado no Brasil. Ele veio para cá em 2009, entrando pelo Amazonas, e atualmente vive em São Paulo. Detém de uma posição similar à de Fred quanto à governança do Congo: “Você não pode falar, não tem liberdade. Quando você fala, te matam, quando você fala, te prendem. Porque ele [Kabila] instrumentaliza a justiça, as forças armadas, a polícia”. Lefevre não quis informar o exato motivo de sua fuga, mas reiterou que não poderia mais arriscar a própria vida permanecendo lá.

“Não se pode considerar que todos os negros que estão aqui não estudaram. Tem pessoas que estudaram muito”, afirmou, referindo-se a episódios de preconceito pelos quais passou no Brasil. Geólogo de formação há mais de 40 anos, mestre em geomática, ele não atua na área. No Brasil, tendo conseguido parcialmente a requalificação através da ACNUR, já deu aulas de inglês, francês, e hoje trabalha como feirante junto de sua esposa.

Por não conseguir aplicar os seus estudos, Lefevre questiona se continuar morando aqui é mesmo uma boa opção. “Aqui no Brasil, se eu conseguir emprego, não vou conseguir o salário que eu tinha no Congo. Se eu quisesse me comprometer só com o meu próprio interesse, eu poderia ficar no Congo, eu ficaria bem, em uma boa situação”.

Mesmo assim, voltar ainda não é uma opção para ele. Lefevre assume que conseguiria manter uma estabilidade financeira maior se quisesse retornar, mas considera que fazer isso seria uma traição de sua própria consciência. “Eu poderia ficar no Congo e ter uma boa situação. Mas, onde tem injustiça, uma pessoa normal tem que se revoltar”.

“Não queremos mais esse sistema na Síria, queremos democracia.”

A realidade é outra para aqueles que vieram da Síria. As diferenças vão desde os motivos que os fizeram deixar seu país, até o modo como cada um vive atualmente no Brasil.

Mohamad Alsaheb é um refugiado de 36 anos. Faz 2 anos e meio que o sírio desembarcou em São Paulo, após a situação insustentável de guerra civil em seu país. A opção pelo Brasil se deu pela maior facilidade em adquirir o visto. Segundo Mohamad, a maior dificuldade inicial foi aprender a língua.

O sírio, que trabalhava com produção audiovisual, não conseguiu um emprego na mesma área e acabou tendo que se adequar a dar aulas de inglês e árabe, além do trabalho com tatuagens e caligrafia árabe. Mesmo assim, revela com animação que gosta da nova profissão e que valoriza ensinar, além do idioma, a cultura de onde vem.

Atualmente, o sírio também trabalha com caligrafia árabe (Imagem: Arquivo Pessoal)

 

“As pessoas que me encontram me dizem ‘Mohamad, você não parece um refugiado’, e eu penso ‘como refugiados precisam parecer?’” Questionado sobre o preconceito que sofre, o sírio afirma que não o sente na pele, mas que a discriminação contribui para a dificuldade de inserção no mercado de trabalho. “As pessoas pensam que não seria bom dar trabalho aos refugiados, pois não acreditam que eles sejam qualificados, o que não é verdade em muitos casos.”

Pessoalmente, Mohamad não se sente um estrangeiro aqui, mas reconhece que a comunidade árabe é grande no Brasil e que isso, de certa forma, o aproxima de casa. Mesmo assim, não nega que sente falta do clima histórico que vivia em sua cidade natal, Damasco. “Nós temos lugares muito antigos. Você anda pelas ruas e sente o cheiro cultural, da história. Tenho saudade disso. Do meu país, das comidas, de sair com os amigos”.

Já a compatriota síria, Noura Alkalas, de 31 anos, chegou ao Brasil há três anos e meio, também em busca da obtenção do visto. “É um lugar muito bom para tirar os documentos. Depois de um ano, eu pude tirar RNE (Registro Nacional de Estrangeiro). Não há outro país que faça isso”, conta. Assim como para Mohamad, o idioma foi um obstáculo de adaptação. Como Noura tinha que trabalhar muito para se sustentar e não restava muito tempo, demorou para que aprendesse o português.

Tendo trabalhado como contadora na Síria, hoje Noura vende camisetas e alguns quitutes árabes na rua e em feiras. “É complicado arrumar trabalho fixo. Essa para mim é a maior dificuldade”. Veio para o Brasil com o marido, que agora trabalha como manobrista de estacionamento, que é o que garante uma renda regular para a família.

A síria conta que o ADUS (Instituto de Reintegração do Refugiado) tem ajudado na procura por trabalho, ao chamá-la para vender seus produtos em festas e feiras. Além disso, Noura conta com a ajuda de amigos, que recomendam e divulgam seu trabalho. Quanto à população brasileira, Noura contou que foi bem recebida e que os brasileiros se mostram dispostos a ajudá-la. “O que eu mais gosto no Brasil são as pessoas. O coração é muito bom”.

Noura expõe seu trabalho em feira exclusiva de refugiados, no Armazém da Cidade (Imagem: Beatriz Gatti)

 

Mohamad e Noura compartilham o mesmo país de origem, mas suas histórias evidenciam os contrastes entre os dois sírios, que têm estilos de vida, condições financeiras e oportunidades distintas, mesmo vivendo agora na mesma cidade. E é nesse aspecto que os quatro refugiados aqui apresentados mais se aproximam: suas diferenças.

 

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