O impacto das cotas nas universidades na construção de um novo Jornalismo

Por Mariana Assis e Juliane Cruz

Por conta das novas formas de produzir e de consumir informação, hoje vivemos em uma sociedade que podemos considerar hiperinformada. Com o advento da internet e das redes sociais, a relação das pessoas com as notícias vem sofrendo uma intensa mudança, pois, se antes era necessário esperar as informações trazidas pelos meios de comunicação, hoje as notícias chegam muito mais rápido e qualquer um pode gerar conteúdo. Essa facilidade leva muitos, inclusive jornalistas, a questionar se o futuro do Jornalismo está comprometido.

Para Dennis de Oliveira, professor e chefe do departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), os jornalistas que levantam esse questionamento o fazem porque o futuro está justamente nos espaços onde não olham: nas periferias, onde mídias que assumem a responsabilidade de mostrar as diversas perspectivas sobre a realidade são produzidas.

Antes de mais nada, a função do Jornalismo é a de construir e fortalecer o debate público, afirma o professor. Isso significa que a área tem, entre outras responsabilidades, a de agendar os assuntos que serão discutidos pela sociedade, onde por muitas vezes pautas urgentes não são tratadas como tal. Nós tratamos da importância dessa responsabilidade do Jornalismo de forma mais aprofundada na matéria “Imparcialidade tem cor, gênero e classe social” .

Dessa forma, o professor acredita que a importância das escolas de Jornalismo está na criação de novas agendas que estejam atentas e comprometidas em incluir questões historicamente ocultadas e, para isso, é necessário que pessoas de realidades diversas estejam envolvidas nesse processo de criação, para que assim possam colocar em visibilidade suas pautas.

Em conversa conosco*, Dennis de Oliveira comentou sobre o impacto que as ações afirmativas nas universidades causam na construção de uma agenda jornalística capaz de, de fato, representar a sociedade.

Agência Jovem de Notícias:  Qual a importância da instituição do sistema de cotas nas universidades e dos cursos de Jornalismo para a construção de uma nova agenda jornalística?

Dennis de Oliveira: (…) Não se forma profissionais em qualquer área e no jornalismo menos ainda se esses profissionais não são formados em um ambiente marcado pela diversidade, seja ela étnica, de gênero, de origem social etc., tudo isso é fundamental.

O próprio diretor de Relações Públicas da Universidade de Harvard fala que lá as cotas são fundamentais para a formação de lideranças. Harvard é uma universidade de excelência, que propõe formar líderes em quaisquer áreas: econômicas, sociais e políticas. Ele aponta que a convivência em um ambiente diverso é fundamental para uma formação qualificada. E eu compartilho dessa ideia.

Aqui no Brasil, que você tem a questão da diversidade presente, mas ausente na representação política e mesmo na reflexão das lideranças, o papel das cotas na universidade é fundamental por três fatores. Primeiro, porque obriga o estudante, os professores e a vida acadêmica a conviver com essa diversidade e também a refletir sobre ela. Segundo, porque exige que a gente reformule as agendas pedagógicas para dar conta disso. E terceiro, especialmente no caso do Jornalismo, traz essa pauta da diversidade, que também está presente na universidade, para a reflexão jornalística.

Como comentei, hoje o Jornalismo passa por uma crise que é também uma crise da arquitetura social da democracia liberal, em que demandas desses segmentos discriminados têm crescido, mas não têm sido incorporados a contento pelos poderes institucionais para a esfera política. E aí, então, na medida em que esses novos jornalistas possam contribuir para a construção de um novo Jornalismo, têm-se a ampliação e um aperfeiçoamento da democracia.

Agência Jovem de Notícias: Em relação à democratização das mídias, gostaríamos que o senhor falasse sobre o Jornalismo produzido na periferia. De que modo a produção periférica é importante e contribui para com a esfera pública?

Dennis de Oliveira: O Jornalismo periférico é produto dessas ações afirmativas. Boa parte dos alunos que vieram das universidades voltaram para os seus lugares de origem e passaram a desenvolver projetos na área de comunicação e cultura. Temos referências muito interessantes, como o site Alma Preta, Periferia em Movimento, Blogueiras Negras, Nós Mulheres da Periferia, enfim, são vários portais que são iniciativas desses jovens da periferia, negros e negras que tiveram a formação na universidade.

As ações afirmativas foram fundamentais para esse passo, pois possibilitaram que eles tivessem uma formação qualificada e passassem a desenvolver essa novidade e, inclusive, em alguns momentos, com uma cobertura mais qualificada que a grande imprensa, na medida em que trazem uma agenda que a grande mídia historicamente ignora.

*Entrevista realizada no último dia do Seminário “Jornalismo: as novas configurações do quarto poder”, que foi organizado pela Revista Cult e o Sesc, entre os dias 15 e 17 de agosto.

 

Ver +

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *