Anitta e a importância da parceria pública para a contribuição de um movimento que promova a resistência do Funk brasileiro

Por Gabriela Alves

Crédito: Divulgação

Todos já sabem como Anitta vem construindo sua carreira com excelência no âmbito internacional. A cantora está ganhando notoriedade e destaque na mídia global, sendo tema de pautas e dando entrevistas, que são também uma oportunidade não só de elevar sua carreira e história, mas também trazendo holofotes sobre a nova geração da música brasileira e sobre nosso momento social e político.

O funk é, nos dias atuais, um dos gêneros musicais mais populares do Brasil e tem ganhado boa visibilidade internacional; todavia, isso nem sempre foi assim. Mesmo sendo um ‘ritmo periférico’ – tanto historicamente quanto hoje – sua marginalização não afeta sua constante evolução rítmica e a representatividade do cotidiano dos moradores de comunidades através de suas letras.

Uma pincelada na história

O funk, enquanto ritmo, originou-se nos Estados Unidos, tendo como influência a Black Music. Uma mistura de soul, jazz e rhythm and blues (R&B) fez com que grandes nomes surgissem, como James Brown, entre os anos de 1950 e 1960, validando o novo ritmo.

Sua chegada ao Brasil, ocorrido em 1970, foi um pouco mais tímida, pois reproduzia as produções norte-americanas. Ocupando os bailes da Zona Sul do Rio de Janeiro, suas mixagens animadas e dançantes ganharam então espaço do público brasileiro. 

Nos anos 1980, o funk, que já estava fazendo sucesso no Brasil, começou a trilhar sua própria vertente, incluindo a bateria eletrônica ao ritmo. O produtor musical Fernando Luís Mattos da Matta, conhecido como DJ Marlboro, lançou seu primeiro álbum — o Funk Brasil — e consolidou o funk nacional, trazendo produções inteiramente nacionais e letras em português que retratavam a realidade das favelas.

A personalização do ritmo, a partir das referências históricas da música brasileira, fez com que rapidamente o som produzido na periferia, para a periferia, se alastrasse para além das terras cariocas. 

Começou então um movimento artístico que marcou gerações, com nomes pioneiros do ritmo, como Claudinho e Buchecha, dupla de grandes sucessos, como “Só Love” e “Nosso Sonho”, além de Cidinho e Doca, donos do hit “Rap Da Felicidade”.

Nos anos 2000, o funk deixou definitivamente de ser um ritmo exclusivamente periférico e conquistou as classes média e alta do país; tocando em boates, academias de dança, rádios e até compondo trilhas sonoras de novelas e filmes brasileiros.

A produtora Furacão 2000 popularizou o baile funk em todo o Brasil e lançou grandes nomes do gênero, como os grupos Gaiola das Popozudas e Os Hawainos, sucessos da época. 

Em uma rápida evolução no ano seguinte, nomes que marcaram gerações, como Bonde Do Tigrão, conquistou o país e alcançou seu primeiro disco de platina pela Pró-Música Brasil.

Em paralelo, o funk proporcionou também destaques femininos, como a MC Tati Quebra Barraco, que criou a possibilidade de mulheres serem e se destacarem no gênero. 

Ainda hoje, o funk carioca permanece como um dos mais famosos do Brasil, mas não sendo mais o único no País. A partir da evolução do ritmo, diversos subgêneros foram criados, tendo como destaque seus territórios. 

O funk ostentação, por exemplo, foi originado nas periferias paulistanas, letras que exaltam a ascensão social e saída da favela teve nomes precursores como MC Guimê e MC Livinho, onde símbolos são usados para retratar e vender o sonho dessa elevação social. 

Nos dias atuais, o funk é acelerado e em geral contém letras quentes, conhecido como funk 150 bpm, que dominou os bailes do Rio e do Brasil, ao som de nomes como FP do Trem Bala, MC Kevin O Cris e DJ Rennan da Penha. Os subgêneros também criaram outras possibilidades, como o funk pop, que é mais melódico e com letras mais leves, representado por cantoras como Anitta e Ludmilla, que alcançaram projeção nacional e representam a cultura do Brasil no mundo.

Um ritmo de resistência – o funk como movimento social

Mesmo que grandes nomes tenham sido construídos através do ritmo, esse movimento de furar a bolha nacional é extremamente recente, pois ainda que o consumo do Funk no País seja quase unânime nas festas e bailes, caracterizando-se como expressão cultural, o ritmo ainda carrega preconceito, principalmente por ser um ritmo da periferia. As letras que falam, muitas vezes, de sexo, sensualidade, criminalidade e ostentação, caracterizam como expressões artisticas dos sonhos, do cotidiano e retrata muitas vezes a realidade complexa das favelas. 

O funk brasileiro, dessa forma, deixa de ser apenas um ritmo e se torna um movimento social que, não só retrata a vida nas favelas, mas também abre espaço para vozes marginalizadas – que são diariamente silenciadas – a oportunidade de serem ouvidas. Por se tratar de um gênero musical acessível, o consumo de outras classes para entretenimento cria o atrito por não validar como movimento social, já que através dessa arte a expressão dessas realidades não é só garantida, mas também abre possibilidades de ascensão de artistas periféricos. 

Tal rejeição e preconceito pelo ritmo foram visões midiáticas construídas. É inegável que em um mundo globalizado a mídia tenha esse poder de construção de imagem ou reafirmações de estereótipos “através dela, de modo geral, que se adquire visibilidade e que se constroem os sentidos de grande parte das práticas culturais” (HERSCHMANN, 2000, p. 90).

Dessa forma, o ritmo foi, durante anos, e por muitas vezes ainda é, associado a notícias sobre criminalidades, que mesmo não sendo um fenômeno  “propriamente novo ou inusitado, mas aqueles, particularmente, foram fundamentais para a retificação de uma certa imagem estigmatizada dos jovens de segmentos populares do Rio.” (HERSCHMANN, 2000, p. 16). O movimento dessas colocações, traz como resultado o estigma por anos.

Anitta no Coachella 2022 e a possibilidade de uma nova narrativa do funk para o global

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Se a mídia tem o poder de construção de imagem e afirmação de estereótipos negativos, espaços como o Coachella trazem a possibilidade internacional do Funk para expressão cultural ser ressignificada. E talvez essa seja a palavra que mais descreve sua apresentação.

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Até mesmo em seu look, Anitta afirmou que as cores foram um ato de ressignificação política da bandeira nacional, afirmando que a bandeira é do povo brasileiro. Ato extremamente importante com os atuais conflitos políticos entre esquerda e direita no cenário brasileiro. 

Anitta, em sua apresentação, também recriou diversos cenários da periferia e trouxe samples históricos para compor toda a arte criada. Esse movimento de exposição de itens marginalizados por alguém que é respeitado em sua carreira no âmbito internacional, abre as oportunidade de narrativa do ritmo.

Todavia, a Anitta, por mais que aproveite espaços como esse como ato de ressignificações e afirmações de valorizações culturais, o ressignificar como um todo e retiro da marginalização é algo coletivo e principalmente que requer apoio público. 

Ações de resistência: a importância da parceria pública 

Nos últimos anos, podemos perceber que há um movimento de parceria pública através de editais para que haja financiamento para o funk ter estruturas para existir; ainda que haja muita oposição nesse sentido, reconheço através desse artigo pontos importantes que  devemos ler como conquistas. A Secretaria de Cultura de São Paulo, por exemplo, tem há meses usado as mídias sociais para promover a desmistificação sobre os ritmos marginalizados através do conhecimento. 

Recentemente, tivemos a promoção de um baile com a Vogue (um movimento de dança de reafirmação de identidade de gêneros e sexualidade) no bairro de Campo Limpo, como vemos abaixo: 

Crédito: Instagram/smculturasp
Crédito: Instagram/smculturasp

Respondendo então você, caro leitor, como o movimento de reconhecimento das Secretárias públicas e os holofotes do Coachella evidenciam fervura à resistência e ressignificação do ritmo: por conta do coletivo.  

As secretarias e os órgãos, como um todo, tem o papel de responder à sociedade com as demandas que a advém. Dessa forma, quando temos parceria pública, o ato de resistir se torna muito mais fácil e temos liberdade de expressar nossas culturas.

Dessa forma, chamo hoje a juventude, neste ano eleitoral, a avaliar bem quem desejamos que sejam nossos parceiros públicos culturais.

Queremos que figuras como a Anitta ainda continuem a levar nossa cultura para o mundo afora, mas precisamos aprender a reivindicar a não-marginalização de símbolos históricos-culturais como esse.  

Queremos ocupar nossos Centros Culturais com música e programações que a própria população escolha, dessa forma, se historicamente o funk é um ritmo de resistência e é movimento social, precisamos entender que nosso entretenimento também é fazer política. 




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