Agô! O Valor da Ancestralidade

No artigo VI da série dos valores afro brasileiros, Dg Martins escreve sobre o valor ANCESTRALIDADE. Debate sobre descobertas identitárias, valorização da cultura africana e afro brasileira e pede licença para demonstrar suas produções artístico-poéticas.

Por Dg Martins

Para discutirmos ANCESTRALIDADE, primeiro precisamos pedir licença para aqueles que nos antecederam. Licença aos nossos ancestrais. AGÔ aos meus orixás! 

Se você nasceu a partir dos anos 2000, muito provável que você não conheça ou tenha visto um desses. Lhes apresento o queridinho – só que não – das mulheres pretas do século XX, o Pente Quente:

Pente quente – Reprodução Internet

Conhecido como Pente Quente, de Pressão ou Pente Alisador, o tão temido se tratava de um objeto de metal com sua base em madeira. Era aquecido através de uma fonte de calor com o intuito de “relaxar” os fios mais crespos, dando-lhes uma textura mais esticada. Fazendo as mulheres se sentirem “bem” dentro do padrão de beleza imposto na época.

Aceitar o cabelo crespo, em sua particularidade, é um processo longo e difícil para homens e mulheres negras.

A todo momento, a mídia e a sociedade produzem arquétipos de negação e não-pertencimento de nossas raízes ancestrais e exotificam nossos cabelos. Quando assumimos nossos cabelos crespos, também estamos assumindo o compromisso do Black Power, da força, da luta, que não se assemelha nem um pouco a ideia do “cabelo duro”, de “bombril” ou outras atribuições vexatórias que ouvimos durante toda nossa vida.

A indústria cosmética e estética fatura 1,7 trilhões com o nicho de produtos da negritude. 

“A cada 23 minutos, 1 jovem negro é assassinado.” Parece trecho de música maçante ao nossos ouvidos, mas não, esse é um dado estatístico que representa uma realidade histórico-social que não muda e mantém o jovem prete no alvo, na mira do assassinato. Vivemos numa sociedade onde o privilégio branco (por ser branco!) foge do genocídio racial. 

Gostaria de trazer à reflexão um tema delicado, que infelizmente, devido a sociedade em que vivemos, abrange um grupo reduzido de pessoas: Religiões de Matrizes Africanas.

Se é em nome do amor, por que a maioria dos evangélicos queimam, quebram, desrespeitam o sagrado e a práticas religiosas que diferem das suas, e ainda fazem uso do nome de Deus para se justificarem e negarem suas atitudes de intolerância?

Na escola aprendemos sobre a história dos EUA, da Rússia, da Itália e etc. Falam das vitórias e conquistas desses povos e seus conflitos territoriais. Quando citam a África, esquecem sua existência continental, história rica, diversa e sua cultura grandiosa. Somente citam as mortes, as epidemias, torturas, seus navios negreiros (pela escravização), miséria, fome e dor. Também só falam dela nos dias 13 de maio – Dia da Abolição da Escravatura no Brasil – (Quando lembram!) e no dia 20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra.

É necessário articular políticas educacionais, inclusivas e públicas para tentar mudar esse cenário atual completamente racista.

Um salve para a implementação da Lei 10.639/03 – que determina o ensino de história e cultura africana e afro brasileira nas instituições de ensino públicas e privadas no Brasil. Lutemos por uma sociedade onde exista jovens críticos e que saibam seu lugar de fala, que sejam protagonistas da sua própria história. 

Imagem por Trevor Cole on Unsplash

Sobre-Vivências

Vozes ancestrais ecoam. Gritam!

O grito é pela criança candomblecista, que após cultuar seu orixá, foi apedrejada; pelo feminicídio que só aumenta; pela transfobia ensinada desde o berço (meu mundo azul! meu mundo rosa!); pelo choro de uma mãe que teve seu filho assassinado dentro da sua própria casa.

Olhem, nos guardem, nos livre de todo o mal, meus ancestrais! A vida é tão rara.

Precisamos romper a barreira do silêncio e gritar por aqueles que são silenciados até mesmo antes de vir ao mundo. Ocupar espaços que nos são negados e levar os nossos, pois essa luta é coletiva. Em um mundo onde a maior parte dos espaços de liderança são ocupados por pessoas brancas, nascer preto se torna um ato político contra o sistema.

Imagem por Seth Doyle on Unsplash

Somos fruto de uma árvore genealógica preconceituosa. O Brasil é racista. A sociedade brasileira é racista.

A luta contra o racismo e todos os outros “ismos” é diária. Uma doença hereditária que atravessa séculos de história. Perante a lei somos todos iguais, mas, na prática, não somos. A cor da pele preta é aquela que faz com que você esconda a bolsa, mude de calçada ou ande mais rápido por medo de ser assaltado. Talvez essa seja a única herança simbólica da qual não nos orgulhamos.

Chega! Chega de apelidar o que tem nome, racismo não é opinião, é crime.

Quando perguntamos nossos avós negros quem eram os nossos tataravós, aqueles que deram início a nossa árvore genealógica, provavelmente eles não saberão ao certo  responder. O racismo ao decorrer dos anos, vem tentando apagar nossas histórias, nossas raízes, ele nega nossa cultura fazendo desconhecermos aqueles que nos antecederam. 

Existe um abismo quando o assunto são idiomas. Forçaram meus ancestrais a aprender seu inglês, seu espanhol, seu italiano, seu russo, seu alemão, seu francês, mas os proibiram de falar seu idioma nativo, língua maternal que dos nossos foi retirada.

Dor que corrói meu peito quando o assunto são nossos direitos; chamavam-os de inúteis, sujos, energúmenos e feios. Deixavam eles com fome, sede, faziam deles seus brinquedinhos, objetos de desejo e prazer, mas nunca deixavam de se apropriar. Preto enforcado, sufocado, chicoteado, baleado, estrangulado, esquartejado… as-sas-si-na-do. Negro representando mas nunca representado. Sendo objetificado, estereotipado, marginalizado. 

Ancestralidade é o imaginário guardado na memória dos sagrados griots, as lembranças das nossas bisavós que acabam passando de geração em geração, é a sabedoria presente nas ialorixás, é a capacidade de se colocar no lugar do outro através da fé, é a complexibilidade da vida, a simplicidade dos mais velhos, é revisitar o passado e saber que não somos descendentes de escravos, e sim de um povo que foi escravizado.

PoemaMeu

Cara gente branca, ancestralidade é jongo, capoeira Baobá, favela, cultura afro-brasileira

Não se apropriem das nossas riquezas 

Das nossas tranças, turbantes, da nossa beleza

Resistência, malandragem 

Somos a voz, a força de Marielle Franco

Somos a luta de Palmares

Nação banto, nação nagô, nação jeje

Kabesilé, meu padroeiro

Terreiros são patrimônios culturais brasileiro

Bateremos palmas para o santo dançar

A n’ lésé orixá

Nossa língua é o iorubá, não o latim

Respeitem nossa raiz

Aquilombamento, representatividade

Somos mais da metade da sociedade 

Do atotô ao atabaque, saudação majestade 

Peço licença para acessar essa maternidade

Oraieiê minha mãe, rogue pela nossa humanidade 

Agô! Preservemos nossa ancestralidade 

Imagem por Ian Macharia on Unsplash

Dg Martins, influencer e ator do Grupo MovaNos. Quer conhecer mais o trabalho do Grupo MovaNos? Acesse a página deles no Facebook. Quer falar com eles? Envie um e-mail para movimentonosso@gmail.com

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1 Comentário

  • Nossa fico tão satisfeito em saber que dentro da família, seja ela de carnal, espiritual, ancrstral seja lá qual seja, existe um alguém como você.
    Primo, cada passo que vc da me orgulha muitoooooo e muitoooooo, você realmente e escolhido.
    Olorun modupe, pelos seus textos, pelas suas referências, pelos seu conhecimentos, conhecimentos esses que a capaz de calar qualquer um que venha tentar nos diminuir, menosprezar, inferiorizar pois vejo que tens argumento.
    Que babá orunmila, Deus, Tupã, seja lá qual for, sempre e sempre ilumine seu ori.
    Ori afè, ori benin, ori okan!

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