ABYA YALA! Uma conversa sobre a questão indígena

Por Victoria Souza

Alfabetização e letramento sobre as culturas indígenas é uma necessidade urgente quando pensamos que todos descendemos dos povos originários. Há muito tempo o entendimento quanto à cultura e história indígena verdadeira nos vem sendo negligenciado e o genocídio desses povos permanece ocorrendo sem nenhuma cerimônia aos nossos olhos atônitos.

Como não permitir que esse apagamento continue ocorrendo?

No mês de maio de 2021, tive o prazer de entrevistar a Moema Viezzer para a gravação do podcast da Viração e para a Agência Jovem de Notícias (AJN). Falamos de passado, presente e futuro. Você já parou para pensar no possível futuro que teremos, baseado no presente que estamos tendo? Confuso, né? Bem, a Moema não acha, além disso, acredita muito nas juventudes e no fato de que as decisões que tomarmos agora nortearão o nosso futuro. Por isso, é urgente pensarmos em como temos tratado as pautas sobre o meio ambiente e as que envolvem os povos originários das Américas.

*Abya Ayala significa terra próspera, terra plena.

Foto retirada do perfil do Twitter da autora

Moema nasceu em Caxias do Sul, mestre em ciências sociais, educadora, escritora, ativista e feminista. a Moema dedicou a maior parte da sua vida á educação popular, às causas das mulheres e socioambientais. Vale ainda ressaltar que a Moema recebeu o prêmio Bertha Luz em 2007 e o Prêmio Brasileiras Feministas Históricas em 2016. Autora de 5 livros, hoje batemos um papo necessário sobre o livro escrito com Marcelo Grondin – Abya Yala* que fala sobre genocídio e resistências dos povos originários das Américas. 

Ouça esta entrevista na íntegra, em formato podcast:

Victoria Souza (VS) – É um prazer estar aqui com você, Moema. De onde surgiu o desejo de trazer essas narrativas?

Moema Viezzer (MV) – Diretamente eu nunca trabalhei com indígenas, nem como pesquisadora, nem como educadora popular. Estou me envolvendo com a causa indígena nesses últimos anos. Meu marido viveu 17 anos na Bolívia e viveu com os ayumaras. Nós dois vivemos exilados e tivemos a oportunidade de participar de um congresso indígena de povos originários no México.

Alguém pediu para o Marcelo uma palestra sobre a Bolívia e quando buscamos dados sobre essa pesquisa, o Marcelo se deparou com um dado do David Stanner que dizia que 90 milhões de pessoas foram dizimadas. Começamos a pesquisar sobre esse dado e lemos informações de pessoas que foram testemunhas desse fato.

Durante o exílio passamos por vários lugares e conhecemos pessoas que fizeram com que nos animássemos a escrever sobre algo. No começo, a ideia era escrever sobre genocídio, mas como educadora popular entendo que estudamos a realidade para transformar, então pouco a pouco decidimos que para cada assunto que trabalhássemos, para cada região falaríamos ao mesmo tempo sobre genocídio, sobre o que foi a resistência e o que é a sobrevivência dos povos originários. Foi assim que nasceu a ideia e assim que trabalhamos por quase quatro anos para produzi-lo.

VS – No prefácio do livro, Ailton Krenak diz que é necessário ter estômago para algumas das narrativas desse livro. Muitos de nós não conhecem a história real dos povos originários, e você frisou esse número assustador de 90 milhões…

MV – A grande maioria não conhece essa história, a história real. A história que nos é contada, todo o nosso entorno, a mídia e até o nosso jeito de viver fazem com que não conheçamos a história real, como foram os fatos reais e existem até mesmo formas de tentar desvendar a verdade.

VS – Como você citou o Brasil, por que o genocídio indígena ainda não acabou no Brasil, na sua opinião? Seria questão de educação, valorização?

MV – São muitos os fatos, o primeiro é a “cultura branca” relacionada aos dominadores que conquistaram e se consideram superiores aos demais. Além do fato do momento devastador da conquista que demorou muitos anos com guerras e invasões, existiram grupos que vieram depois que foram tomando o espaço dos indígenas e os dizimando porque tinham a ideia de “quem é branco é melhor”,  “quem não foi escravizado é melhor” encrustada dentro deles. Essa cultura está encrustada no povo brasileiro. Além disso, temos uma política forte de superioridade antes e depois do tempo Brasil Colônia. 

O desenvolvimento que temos é totalmente errado, baseado na economia dominando tudo com relação ao meio ambiente, estragando tudo.

A questão das políticas públicas é algo gravíssimo. Os governos anteriores com certeza deixaram muito a desejar com relação aos povos originários, mas esse governo [atual] é um governo genocida com relação aos povos indígenas.

O jeito como “nosso” ministro do meio ambiente favorece a venda ilegal, a ocupação dos territórios, toda a questão de transformar a Amazônia ao invés de manter a floresta em pé. Eu, por exemplo, moro há 2 horas das Cataratas do Iguaçu e, recentemente, quase que as cataratas secaram.

O Brasil precisa de tanto pasto e tanto boi? Tudo isso é para enriquecer quem já está muito rico. Não estamos caminhando para o desenvolvimento, pelo contrário, estamos acabando inclusive com a nossa espécie. Não existe a ideia de que o que temos deveria servir para manter os recursos. Tem coisas tão fortes nas tradições ancestrais como, por exemplo, quando colhemos e plantamos a batata.

É tão claro que a terra tem o tempo de plantar, para depois produzir de novo. Devemos muito do que estamos vivendo ao sistema que está estabelecido que coloca a economia no lugar errado, e temos agora o trabalho de colocar a economia a serviço da sociedade e da natureza.

VS – Esse assunto aparenta perdurar por mais um tempo. Por exemplo, recentemente os Yanomanis sofreram um ataque. Eu gostaria que você pudesse relacionar esse ataque, que já vem ocorrendo por algum tempo, com o genocídio que vocês estudaram no passado e como esses temas estão interligados. Além disso, vejo muitos jovens aflitos com a política atual e sentindo-se de mãos atadas. Você pode falar um pouco sobre isso também?

MV – Os povos Yanomanis são povos que vivem há muito tempo nas florestas. Além disso, muitos desses povos são fronteiriços. No caso dos Yanomanis, temos povos vivendo no lado do Brasil e da Venezuela e eles vivem na floresta e com a floresta, e sabem que ela tem uma função especial no mundo. Eles têm clareza disso.

O jeito como está sendo pensada essa região é totalmente fora do contexto social e ambiental. Não existe nem de longe uma visão de ecologia integral. Por isso, se existe alguma mina, não importa se você acaba com uma boa parte das florestas que estão ali [para exploração], e são imagens terríveis [de] ver, [de] como [a floresta] está sendo devastada.

Se os jovens não conseguem saber o que está acontecendo nas escolas, precisam se juntar com outras pessoas e encontrar possíveis caminhos, outras pessoas e grupos para se orientar e se juntar com outras pessoas que já estão na mesma visão de mundo para encontrarmos possíveis caminhos. E nós também, pessoas de idade ou de menos idade que ajudaram a conquistar muita coisa para esse país e agora, não sabem direito o que fazer.

Não facilita o fato de estarmos em pandemia, mas como conseguimos estar juntos para aproveitar mais, se informar mais e buscar novas alternativas. Nós precisamos alimentar nossa esperança com a juventude e temos muito desejo de colaborar para que a juventude encontre caminhos, porque vocês são a nova geração. Mas é preciso existir mundo para vocês enquanto novas gerações [para] continuar criando e vivendo bem.

VS – Como esse apagamento histórico que você citou do nosso passado prejudica o nosso futuro na sua opinião?

MV – Prejudica muito. Se não nos ressituarmos historicamente, a tendência é continuar o que tem sido feito. O que estamos vivendo vem de muito longe. Se você entende de onde vem, mais facilmente consegue pensar onde está o erro. Tudo o que foi falado como descoberto, começou a ser naturalizado: brancos estudarem e os negros ficarem para trás, natural que os indígenas nunca tenham acesso a nada, branco acima do negro e indígena.

As leis de cotas nunca foram pensadas como algo eterno por exemplo, tudo isso está sendo feito para rever, resgatar e produzir menos desigualdade social. 

Por isso, o trabalho intergeracional é muito importante, temos que estar juntos. Precisamos ter muito mais jovens trabalhando em diversos movimentos, como no clima, por exemplo. Para que a Greta não fique ali gritando sozinha (risos). Existem muitos jovens aqui no Brasil que estão participando desse movimento para uma mudança global necessária.

VS – Quais os maiores aprendizados que podemos tirar de Abya Yala? E o que os leitores podem esperar dessas histórias?

MV – A primeira grande aprendizagem foi eu constatar o tamanho da minha ignorância. Como é necessário ir às fontes, procurar e se informar para perceber então como atuar. O segundo aprendizado foi criar coragem de fazer esse trabalho, olhando toda a América e entendi como estamos dependentes dos EUA.

Estudar a história me fez entender muitas coisas. E me fez entender o que os indígenas estão falando. Eles tem muitas profecias, uma delas é a da águia e o condor. Eles acreditam que o momento é agora, que, principalmente depois dos 500 anos de colonização que estamos no momento, que está se dando uma transformação.

A águia que representa os países do norte e o condor que representa os países do sul vão se encontrar de uma forma diferente. Quando esses povos se reunirem novamente, voltará a ter paz e harmonia.

Essa profecia está muito próxima do conceito de bem viver (último capítulo do livro). Outro aprendizado foi sobre a sabedoria dos povos ancestrais: os aymaras dizem que o presente está no passado e o passado está no futuro. O livro vai fazer você querer buscar mais entre pessoas, grupos. E a juventude vai levar tudo isso para a frente.

VS – Que recado final gostaria de deixar aos leitores? Para as pessoas valorizarem mais e darem mais visibilidade para este tema, principalmente para a geração que desponta com tantos desafios?

MV – Os povos originários já trouxeram muito conhecimento para nós, até mesmo nas conferências das Nações Unidas. Vamos tentar entender a realidade ambiental do ponto de vista deles.

Não dá mais para desvincular a questão social da ambiental. Não existe desgraça, acidente ambiental, tudo que está acontecendo de desgraça socioambiental foi criada

Pense em Mariana, pense em Brumadinho. Não é um desastre natural. Isso precisa ser absorvido pelos jovens, precisamos transformar o jeito de aprender nas universidades, não separar as áreas técnicas das humanas, porque tudo está interligado. Não pensar em evoluir individualmente, pensar mais horizontalmente. Repensar a produção e aplicação do conhecimento para o bem: o bem da humanidade e da natureza.

Além disso, sou muito fã da educomunicação porque o papel é transformar a educação pelos meios de comunicação. O trabalho de educomunicação precisa ser ampliado e entendido, principalmente agora com tantas possibilidades de acesso.

Foto: Mayke Toscano/ GEMT (14/11/2013) / Fotos Públicas

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