A Tal Onda de Solidariedade

Voluntariado como instrumento de redenção?

Içados pelo contexto desolador e de desesperança crescente, muitos são levados ao voluntariado sem ter ideia do que se trata. Julgam ser simples idealizar, organizar, planejar e realizar uma ação social, mas há uma série de fatores que tornam toda a dinâmica bastante complexa.

Por Ana Radaelli

Os efeitos da Onda de Solidariedade

De 2020 pra cá o mundo vivencia o maior desafio do último século. Não há ninguém que esteja a salvo do risco que o coronavírus representa às sociedades, seja atingindo a si mesmo, a seus amigos e familiares, aos negócios que movimentam sua renda ou, pelo menos, impactando as dinâmicas da realidade em que se está inserido.

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay 

Na tentativa de responder a isso, vimos muitas movimentações interessantes, entre elas, a chamada onda de solidariedade que se instaurou em cidades e países ao redor do mundo. Essa onda foi responsável pelo primeiro contato de muitas pessoas com o voluntariado e com o terceiro setor como um todo, setor em franca expansão e consolidação, mas um universo ainda quase completamente desconhecido para muitas pessoas.

A questão que trago é: quais os resultados desse primeiro contato?

Voluntariado no Brasil

A percepção do trabalho voluntário no Brasil é ainda muito imatura: tendemos a perceber o voluntariado como ações pontuais em datas comemorativas ou em situações urgentes e inesperadas para estancar um sintoma problemático, mas não necessariamente curar o mal que aflige o sistema.

Assim, concluímos precipitadamente que o terceiro setor é constituído por um trabalho de caridade superficial que mais versa sobre boas ações do que ser efetivamente capaz de gerar resultados frutíferos. Muito no estilo Damas Caridosas do Brasil pós “descobrimento”, em modelo trazido na bagagem das naus portuguesas, através do qual a ação voluntária era uma forma de minimizar o sofrimento dos cidadãos que “não eram capazes” de construir uma trajetória de vida nos moldes da sociedade burguesa da época, segundo a visão católico-europeia de então, que propunha o chamado Voluntariado de Benemerência como instrumento de redenção.

Nesse prisma, a atuação social das entidades não governamentais é percebida apenas como um bônus, uma forma de expurgar os ‘pecados sociais’ que cometemos diariamente enquanto grupo, mas não como um braço da governança nacional.

A Realidade do Terceiro Setor

Apesar do estereótipo da atuação social que permeia ainda a sociedade brasileira, essa é uma visão bastante antiquada e distante da realidade do terceiro setor contemporâneo, que começou a galgar seu caminho rumo ao impacto social no início do século XX e ganhou força com a promoção do Estado de Bem-Estar Social e consolidação da Declaração Universal dos Direitos Humanos do pós-guerra.

Nas últimas décadas, as ONGs já consolidadas no país intensificaram a absorção de filosofias, metodologias e conhecimentos do segundo setor e da academia para dar corpo e estrutura às suas ações sociais, consolidando uma atuação muito mais robusta, eficiente e com potencial de real transformação das condições de vida dos públicos aos quais se destinam.

Muitos, ao se oferecerem como voluntários às ONGs (hoje já chamadas de OSCs – Organizações da Sociedade Civil, por serem muito mais complexas que apenas entidades desvinculadas do governo, mas sim arraigadas à manifestações de cidadania da população), tomam um susto ao perceber que as demandas existentes dentro das organizações vão muito além de arrecadar doações e organizar eventos de entrega de insumos básicos à população em vulnerabilidade social.

De frente a esse panorama inesperado, tendem a se afastar pouco a pouco, contribuindo com o famoso problema de engajamento dos voluntários, um dos principais desafios do setor.

Essa dinâmica acaba por reforçar o distanciamento da sociedade do impacto social, iniciando um ciclo vicioso perigoso para a manutenção do setor. Não coloco aqui a responsabilidade na sociedade, já que, na maioria dos casos, não se trata de má vontade ou indiferença e sim de uma comunicação ineficiente e expectativas frustradas.

Caridade ou Impacto Social?

Imagem: istockphoto

Içados pelo contexto desolador e de desesperança crescente, muitos são levados ao voluntariado sem ter ideia do que se trata. Julgam ser simples idealizar, organizar, planejar e realizar uma ação social, mas há uma série de fatores que tornam toda a dinâmica bastante complexa.

A comunicação do terceiro setor ainda deixa muito a desejar e não é eficiente em transmitir a realidade dos bastidores, insistindo em dar foco ao teor espetaculoso das ações a fim de atrair a sociedade pela sensibilização. 

O que, então, precisa ser evidenciado quando falamos em intervenções sociais de impacto?

Além das questões óbvias e práticas, como captação de recursos, logística de doações, mobilização voluntária, contato com grupos em vulnerabilidade social… há outra sorte de questões ainda muito presas à teoria, mas de fundamental importância para que todo o trabalho aconteça e seja eficiente, como:

  • Qual a intenção do voluntariado? Quais objetivos se pretende alcançar?
  • O que é impacto social?
  • Como garantir um impacto social positivo?
  • Como mensurar o impacto gerado?
  • Como sustentar a ação voluntária a longo prazo?
  • Como, quando e onde intervir?

Essas questões raramente chegam até a sociedade, nem mesmo aos cidadãos interessados em realizar algum trabalho voluntário. Muitas vezes, dentro das próprias ONGs, principalmente as de menor estrutura, esses temas seguem ignorados ou considerados superficialmente.

Isso porque são temáticas ainda recentes e de difícil acesso e realização, que geralmente só passam a ser aplicadas quando as instituições conseguem arcar com os custos de um profissional capacitado dentro da organização. 

Nem por isso são temáticas menos importantes, quanto mais secundárias. Esses são, na verdade, questionamentos fundamentais na avaliação de qualquer intervenção social e instrumentos-chave para a constante melhoria e aprimoramento dessas intervenções.

ONGs: A dúvida que paira no ar

Imagem por Freepik

A ausência dessa visão sistematizada e ampla sobre as problemáticas sociais e a intervenção social propriamente dita configuram graves riscos, podendo até chegar a inviabilizar o trabalho e/ou gerar efeitos negativos que agravam o cenário que se pretendia ajudar.

Assim como mostrado no texto sobre O Efeito Cobra, muitas vezes, uma iniciativa de boa vontade e objetivada a ajudar pode se tornar prejudicial quando não está orientada por um olhar crítico e competente para apontar os melhores caminhos.

Confirmando isso, eis os dados. A pesquisa ONGs e OSCs realizada pela AMBEV em parceria com a Ibope Inteligência aponta que apenas 59% das pessoas afirmam que as ONGs são instituições confiáveis, pouco mais da metade dos entrevistados. Ainda assim, 78% deles acreditam que o trabalho das ONGs de fato melhora a vida das pessoas com menos oportunidades e 76% acreditam que o trabalho desenvolvido pelas ONGs é importante.

Ora, as ONGs realizam um importante trabalho de melhoria de vida, mas ainda assim não são confiáveis para uma parcela relevante da população. Ou seja, pode-se inferir que a percepção geral quanto ao terceiro setor é de que ele é essencial, mas ainda deixa muito a desejar. E sinto muito em dizer, enquanto os conhecimentos sobre impacto social e suas metodologias não sejam normalizados, amplamente disseminados e levados à sério pelas instituições, essa lógica permanece valendo.

Portanto, já que tivemos esse crescente interesse no terceiro setor com a tragédia que estamos enfrentando nesses quase 20 meses de pandemia, não será o momento de, além de oferecer nosso tempo livre e mão de obra para o bem da humanidade, também buscarmos compreender como podemos, de fato, promover a mudança que queremos ver no mundo?

Referência:

Pesquisa ONGs e OSCs  – AMBEV e Ibope Inteligência

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