A psicopatologização do mau caráter

As suas identificações permitem a você e aos outros a liberdade ou a loucura? As nossas identificações são laços emocionais que nos permitem ligar aos outros e à cultura, entretanto não há justificativas, como a famosa lógica de “personalidade forte” que possa autorizar um sujeito exercer violências como a intolerância, discriminação, feminicídio, racismo, xenofobia.  

Por Reynaldo de Azevedo Gosmão

Nem tudo que compreendemos como loucura, deve ser nomeado como transtorno mental.

Em nossa sociedade, alguns passos dados além dos trilhos do comum é motivo de compreender como “loucura”, por exemplo no amor: – “Aquele cara é louco de ter feito algo por aquela pessoa”; no emprego, – “Nossa João foi louco de ter tratado o cliente daquele jeito!”; no esporte: –“Você viu que louco o gol do Joãozinho do cruzeiro?” A loucura virou tudo e ao mesmo tempo nada. 

Misturamos o significado de loucura com o de coragem, demonstração de amor, habilidades de um esporte, impaciência, falta de assertividade, enfim, um amontoado de coisas que no final das contas, não tem sentido com a finalidade de transtorno mental.

Mas por que misturamos doença mental com aspectos morais, sociais e comportamentais?

O início da história da Psicologia e da Psiquiatria no Brasil, e podemos dizer que até hoje temos uma herança: o que se visava não eram os transtornos mentais, mas a higienização das cidades, ou seja, invisibilizar as diferenças.  

Portanto, o que não é aceito dentro de uma lógica machista, heteronormativa, ou àquilo que não visa à manutenção e estabilidades do poder dentro das classes sociais, cobra-se um preço através da loucura. Revisitando a história dos manicômios é possível observar as internações de homossexuais, mulheres que se tornavam mães solteiras, que eram postos como loucos para serem excluídos. 

Sabemos que a homossexualidade não é uma doença e o profissional da psicologia deve respeitar as orientações sexuais como um princípio ético a vida dos indivíduos, através de trabalhos que visem o apoio à elaboração de formas de enfrentamento no lidar com as realidades sociais preconceituosas e discriminatórias.  

Ser mãe solteira ou outras questões no debate de gênero, socialmente deveria ser algo superado. Diversos estudos demonstram, não só no campo da psicanálise, que o que está em jogo em uma adoção e para a constituição de uma família não é a junção de um pênis e uma vagina, mas a função de amparo e desamparo para estruturar o campo subjetivo; socialmente, não realizamos grandes avanços nessas temáticas. 

Porém, tornou-se hábito endereçar algumas questões que não são bagagens apenas do campo psicológico para esse campo, com enunciados muito marqueteiros ou de usos mais popularizados. Quem nunca viu em uma página que fale sobre psicologia e modos de vidas os enunciados “tóxicos”, “loucos”, “abusivos”, “doidos”?  

O que me toca nesse ponto é que nem tudo pode ser psicopatologizado… Violências são violências! Não podemos confundir personalidade a partir dos estereótipos, “Francisco é assim porque ele tem personalidade forte”. Personalidade não diz respeito  a intolerância, discriminação, violência, feminicídio, racismo, xenofobia.  

De forma muito equivocada,esses constructos deixaram resquícios no imaginário social que um sujeito que tem transtorno mental não tem responsabilidade pelos seus atos, muito influenciado por um discurso psiquiátrico onde o médico sabe o que o paciente tem e o próprio paciente não sabe, mas essa concepção é arriscada. Na loucura há uma dignidade e quem utiliza dela para se isentar de suas responsabilidades habita na canalhice.

As identificações, como aponta Freud (1921/1976, p133) são as mais remotas de uma expressão de um laço emocional com outra pessoa”, sendo possível atravessar as resistências, uma vez que se identificar não é fixo, mas um processo dinâmico, onde o sujeito pode questionar a existência de uma mente coletiva, em que ocorrem processos mentais exatamente como acontece na mente de um indivíduo” (p. 159).

Na psicanálise o sujeito é convocado a assumir um lugar frente ao seu desejo, fantasia, delírio, paranoia, ao passo que existe uma responsabilização do sujeito pela sua posição subjetiva. Ser louco não é uma carta branca pra se fazer o que se quer, mas “topar” um percurso de análise é se perguntar: “Por que se faz “coisas” de determinados modos”? e o que há do próprio sujeito nas resistências que são jorradas no campo social.

Parafraseando o título do texto de Djamila Ribeiro, na folha de São Paulo:  “aos amigos, o amor possível, aos inimigos, a lei”

A loucura não é um campo de irresponsabilidades, não podemos banalizar a loucura a tal ponto.

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