A palavra constitui o mundo

Essa história começou com uma repreensão escolar que colocou um jovem isolado na biblioteca. Chegamos ao 6º artigo da série especial que apresenta trajetórias potentes da nossa juventude.

Por Bruno Souza*, Jovem Transformador pela Democracia

Foto: Arquivo Pessoal

Desde muito cedo — na escola, na rua e até em casa — , pessoas tinham palavras para relacionar minha experiência de vida de jovem negro, morador do Jardim Ângela, na periferia de São Paulo, com meu futuro. Palavras que, quase sempre, me associavam a fraquezas e subalternidades. As palavras que povoavam aquele cotidiano se materializaram, ao longo da minha vida, em expressões de racismo, violências e injustiças.

Certa vez, ainda menino, fui posto para fora de uma aula. Causei estranhamento por ter sugerido ao professor que fôssemos ver, na prática, um processo natural de “erosão”, já que a escola se localizava em uma área de proteção ambiental. Estávamos em Parelheiros, bairro do extremo sul da cidade de São Paulo, que fica em uma região de mananciais e de áreas remanescentes de Mata Atlântica.

O castigo foi ficar na biblioteca. Outra estranheza… Esses estranhos modos de tratar minha curiosidade me levaram a conhecer outras palavras e outros lugares, onde boas palavras vivem: a biblioteca da escola e a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura.

Descobri, naqueles lugares, que a literatura, como todas as outras artes, inspira e desperta sentimentos que favorecem a empatia e potencializa diálogos. E também descobri que a literatura cria modos de expressar as injustiças que sentimos pessoalmente e também as outras que são coletivas.

Acabei me envolvendo com a Caminhos da Leitura e aquela experiência coletiva me levou a cofundar o Núcleo de Jovens Políticos, que é um coletivo ocupado em refletir sobre políticas públicas voltadas para a periferia, através da articulação da juventude e ações na “quebrada”.

Novamente, aqui temos as palavras no centro da transformação. Percebi que o discurso repetido de que “o jovem não se interessa por política” não correspondia à realidade. Vi muitos jovens na periferia discutindo a sua realidade e propondo alternativas. Mas a política tradicional é feita por homens brancos, ricos e mais velhos, então ela soa assim e faz a gente acreditar que não temos lugar. Por isso, uma das tarefas do Núcleo de Jovens Políticos é decodificar as narrativas do campo e mostrar que política também é lugar de jovem.

O Núcleo quer contribuir para que os jovens falem e discutam política a partir da sua realidade e se formem politicamente a partir do seu território e de seu contexto. Para isso, vamos para dentro das escolas e ocupamos os espaços públicos com debates que reúnem os jovens e incentivam o engajamento nos movimentos políticos do território, como associações de bairro, grêmios estudantis e outros movimentos juvenis.

Uma coisa leva a outra e as conversas nos levaram a pensar e falar cada vez mais sobre um elemento importante do debate político: o racismo. Acabou nascendo o Coletivo Encrespad@s, que promove a educação antirracista.

Carolina Maria de Jesus, em “Quarto de Despejo”, diz que “Uma palavra escrita não pode nunca ser apagada. Por mais que o desenho tenha sido feito a lápis e que, seja de boa qualidade a borracha, o papel vai sempre guardar o relevo das letras escritas. Não, senhor, ninguém pode apagar as palavras que escrevi.”

Concordo com ela e já que descobri que a palavra constitui o mundo, comecemos a dizer as palavras certas que mostram o mundo que queremos. Pelo que aprendi, as palavras que dizemos juntos mudam muita coisa e, por isso, acredito que podemos construir um novo mundo, bem mais parecido com a gente.

*Bruno Souza é fundador do Núcleo de Jovens Políticos, que cria novas narrativas e articulações para a participação política das juventudes. Gestor da Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura. Bruninho também é integrante do coletivo Encrespad@s, que promove uma educação antirracista nas escolas públicas e em espaços educacionais.

SOBRE O PROGRAMA

Re-imaginar a participação cidadã dos jovens e um futuro no qual todos, independentemente de sua origem, tenham voz na formulação de políticas e na tomada das decisões que impactam suas vidas. Este é o propósito do estudo Jovens Transformadores para o Futuro da Democracia, realizado pela Ashoka em parceria com a Open Society Foundations.

O programa Jovens Transformadores pela Democracia identifica e apoia jovens cujas iniciativas incentivam o engajamento político, principalmente por parte de populações marginalizadas, que não têm seus direitos respeitados ou que necessitam de apoio para conquistar representatividade no âmbito público.

SOBRE A ASHOKA

A Ashoka é a pioneira e maior rede global de empreendedorismo social. Congrega pessoas e organizações que promovem mudanças sistêmicas para o bem de todos. Dedica-se a consolidar um movimento onde todas as pessoas se entendam como agentes na construção de sociedades justas, sustentáveis e igualitárias. Criada em 1980 e presente desde 1986 no Brasil, a comunidade Ashoka reúne mais de 3.800 empreendedores sociais no mundo (384 no Brasil), além de 300 Escolas Transformadoras e dezenas de Jovens Transformadores. Saiba mais em https://www.ashoka.org/pt-br

Este texto foi originalmente publicado no canal da Ashoka Brasil no Medium.

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