A MUDANÇA CLIMÁTICA QUE VOCÊ (NÃO) QUERIA CONHECER

Uma conversa sobre a crise do clima com Sergio Margulis.

Por Amanda da Cruz Costa e Lívia Gariglio

Desmatamento. Destruição de biomas. Exploração desenfreada do solo e da água. Mineração. Aquecimento Global. A crise é real e, apesar da retórica negacionista, nosso planeta vive uma emergência climática profunda e que exige reação drástica e global.

Como agir, individual e coletivamente, diante deste cenário de destruição?

Qual a postura de governos e instituições diante da crise climática?

O que a gente pode fazer?

Estas e outras questões foram tema de uma conversa que tivemos com Sergio Margulis, autor do livro Mudança do Clima: Tudo o que você queria e não queria saber sobre o aquecimento global e as mudanças do clima do nosso planeta, publicado em versão digital e disponível gratuitamente para download através do site https://www.mudancasdoclima.com.br/ 

Sergio Margulis é matemático, tem doutorado em economia ambiental pelo Imperial College, Londres. Foi economista de meio ambiente do Banco Mundial durante 22 anos, onde aprendeu e trabalhou com questões ambientais de mais de 40 países.

Desde 2005 tem trabalhado e estudado quase que exclusivamente sobre temas ligados ao aquecimento global. Coordenou um grande estudo sobre a Economia da Adaptação às Mudanças do Clima, e liderou um estudo pioneiro que integrou análises técnicas e econômicas dos efeitos do aquecimento global no Brasil.

Ao longo de sua carreira, foi Secretário de Desenvolvimento Sustentável na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, assessor especial de dois ministros do Meio Ambiente no Brasil, Presidente da Feema (atual INEA, órgão ambiental do Estado do Rio de Janeiro), pesquisador do IPEA e professor de diversos cursos de graduação e mestrado. Atualmente é Pesquisador Sênior Associado do Instituto Internacional para a Sustentabilidade (IIS), do Instituto Clima e Sociedade, ambos no Rio de Janeiro, e da WayCarbon, em Belo Horizonte.

Depois dessa apresentação, vamos à entrevista!

Ouça a íntegra deste papo em podcast:

Lívia Gariglio (LG) – Quando você se interessou pela questão ambiental? 

Sérgio Margulis (SM) – Eu trabalhei a vida inteira, praticamente, com essa questão do meio ambiente. Em 1980, quando eu estava fazendo o meu mestrado, teve a primeira crise do petróleo e eu era matemático, naquela época. Um pessoal do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) estava trabalhando com essa crise energética e eles queriam uma garotada que soubesse modelagem matemática e a gente foi lá ajudar. E aí, nessa época também, foi quando começou [a ser debatido] a questão ambiental, que ninguém nem sabia direito o que que era. Isso tem, então, 41 anos e desde então eu trabalho com essa questão.

LG – E de onde surgiu a ideia de escrever esse livro?

SM – A ideia de escrever o livro foi assim, eu estou trabalhando com isso há tanto tempo e de todos os problemas ambientais que a gente vive, a questão climática, no meu entendimento, é disparadamente a questão mais importante, porque é um desafio enorme, sem retorno e que realmente tá botando o planeta inteiro ameaçado. Eu achei que tava na hora de dar a minha contribuição para as pessoas se familiarizarem com o problema.

Amanda Costa (AC) – Perfeito, Sérgio! Acho que é muito rico quando a gente decide transbordar o conhecimento que a gente vai adquirindo ao longo dos anos e um desafio que eu tenho é comunicar a crise climática. Eu sou ativista pela sustentabilidade, pela ação climática e geralmente minha família não entende nada do que eu faço. E aí, eu gostaria da sua ajuda: como você explicaria para a Dona Jandira, a minha avó de 83 anos, o que está acontecendo no nosso planeta?

SM – Esse é um belo desafio! (…) A minha mãe tem 95 anos e esse é o mesmo desafio. Aliás, tem uma brincadeira que é assim: todo trabalho que você escreve, tem duas pessoas que precisam entender o que eu estou escrevendo: a minha mãe e o presidente da República, seja lá quem for. A minha mãe no sentido de ser algo acessível para qualquer pessoa e o presidente da república porque tudo que o que a gente acha relevante, se ele entender, ele pode fazer alguma coisa a respeito. Aliás, me parece que esse não é o caso do atual presidente do nosso país, infelizmente.

Como é que a gente responde a sua avó e a minha mãe? É manter o planeta habitável. (…) Se a gente bagunçar muito isso, não vai dar pra continuar.

LG – Falando sobre bagunça, a maior parte dos gases das emissões dos gases são feitas pelas pessoas ricas, mas são as pessoas pobres as mais afetadas, desproporcionalmente. Logo, na sua opinião, quais as medidas afirmativas e de diminuição da desigualdade social que deveriam ser melhoradas ou até mesmo criadas?

SM – Essa é uma pergunta excelente, é uma das coisas que eu tento passar no livro, que essa questão climática é uma questão de desigualdade profunda. Tem muita gente que [fala] assim: “ah, mas o Brasil não é responsável pelo problema!” E a gente diz assim: “Como não? Todo mundo é responsável pelo problema, pra começar. Mas é verdade que as pessoas ricas são muito mais responsáveis do que as pobres e igualmente os países ricos são muito mais responsáveis do que os países pobres.”

E por quê isso? Uma pessoa rica viaja de avião, que é um negócio ultra poluente; tem um carro de transporte individual, não divide as emissões no ônibus com mais 40 pessoas, ela tá queimando esse combustível sozinha; e a quantidade de comida, roupa, a casa que mora… então, as pessoas mais ricas consomem muito mais coisas e, portanto, têm maiores emissões e as pessoas pobres, que mal se alimentam, que mal conseguem ter uma casa etc, elas emitem muito menos, porque tem muito menos atividade econômica por trás.

E por outro lado, como você falou, as pessoas ricas são muito mais resilientes aos impactos climáticos. Ela mora numa casa de concreto, num edifício, num andar alto, que tem ar condicionado, já a pessoa pobre, vamos pegar num caso mais extremo, vive numa favela; sem saneamento; numa casa de madeira; que se tiver numa beira de mar, aquela água tá subindo e abaixando sempre, inundando tudo; cheio de vetores, de mosquitos… enfim, qualquer ameaça climática é um inferno. Essas pessoas são muito mais vulneráveis. E como é que resolve isso? É mais um problema na agenda das desigualdades entre pessoas e entre países e entre grupos, [como] gênero.

AC – Inclusive, eu escrevi um texto com este título: “a crise climática é assunto de branco rico?” e nesse texto eu construo essa narrativa trazendo esses impactos. E você trouxe essa questão, como que a gente soluciona isso e no capítulo VI do seu livro, você fala sobre mitigação e adaptação no que tange às mudanças climáticas. Mas vamos com calma. Primeiro, o que significa mitigação?

SM – A mitigação é o que a gente ouve falar mais é a parte das emissões, ou seja, a única maneira da gente realmente resolver o problema do aquecimento global é cortar imediatamente as emissões poluentes dos gases de efeito estufa. A gente fala em carbono porque ele é o principal, mas a gente tem outros gases, [como] metano etc, mas a gente passa isso para termos de carbono.

As petroleiras, por exemplo, não estão interessadas nisso, porque elas ganham dinheiro com a venda de petróleo, esse sendo a principal causa, junto com o carvão, das emissões. Por outro lado, nós, consumidores, também temos que fazer a nossa mea culpa. Isso envolve um sacrifício.

Se eu não puder cozinhar com gás de cozinha (que é de origem fóssil), eu vou começar a queimar lenha? Lenha também emite. Tem coisas que não tem o que fazer porque a gente não tem opção. Agora, a gente pode tentar se transportar menos, andar mais a pé e de bicicleta, pegar menos uber… são hábitos de consumo a nível pessoal e a nível de países também.

AC – E o que significa adaptação?

SM – O outro lado é a adaptação, que o nome mesmo está dizendo. A gente já tá no caminho de um mundo com aquecimento global. A mitigação consegue frear o aumento da temperatura, mas, de qualquer maneira, a gente já está na trajetória de um aquecimento global e a gente tem que se adaptar a isso.

Por acaso, esses dias quem está no sul, sudeste do Brasil, está sentindo uma onda de frio descomunal e quem tá no norte do Canadá, a gente tem visto as notícias nos jornais, um recorde de temperaturas que não foi pequeno assim, tipo “ah, era 40° e agora foi 41”, não, era 40 e foi pra 45, 46°C, foi um pulo gigantesco. Então, tem que se adaptar, isso vai ser inevitável, infelizmente.

A gente tem que trabalhar nas duas frentes. Por um lado, é claro que é muito mais importante a mitigação, porque é ela que resolve o problema, mas por outro, também você não pode ficar sem se adaptar, se não você vai dançar.

AC – Segundo, o que podemos fazer para cobrar ações de mitigação e de adaptação do governo municipal, estadual e federal? E terceiro, a gente sabe que estamos num governo horroroso. Quais formas, estratégias e instrumentos a gente pode utilizar pra ter ações independentes?

SM – Tudo que se fala ou que se sabe sobre o aquecimento global é 100% baseado na ciência, então quando a gente nega a ciência, já começou errado. Governos que negam a ciência e toda essa evidência do clima, não sei se é por maldade, se por ignorância, se por interesses escusos. (…) Tudo que está acontecendo agora está previsto há muito tempo por esses modelos. A gente não tá nem mais discutindo se é causa humana ou se não é, se tá ocorrendo ou não, a gente tá realmente na pergunta que você colocou: ‘como é que resolve isso? o que que a gente pode fazer?”

LG – Falando em adaptações e mudanças, a reforma agrária já está prevista em lei e ajudaria não só a aumentar a agricultura familiar e diminuir os impactos do latifúndio e da monocultura, mas também aumentaria a capacidade de resiliência de pessoas que atualmente não possuem moradia. Qual a sua opinião sobre isso?

SM –  (…) Então, eu não sei, sobre a questão agrária em particular, se a reforma agrária é a melhor maneira de fazer, eu não sei se é a melhor maneira de fazer. Eu nem me sinto confortável, por conhecimento, de dizer que os sistemas produtivos em menor escala são mais justos e vão dar maior retorno. O que eu concordo, com certeza, é o direito inalienável de todo mundo ter acesso à terra. Quem quer ter acesso à terra há de ter, porque é um país gigante com terras sobrando e não sabe nem o que fazer com tanta terra. (…).

AC – É um assunto bem desafiador porque perpassa várias opiniões, várias narrativas e várias construções sociais e um espaço que discute bastante esse tema é a COP (Conferência das Partes), o evento da ONU que reúne Estado, sociedade civil, organizações empresariais pra discutir essas soluções. Mas, segundo o seu livro, essas articulações climáticas internacionais são apenas simbólicas, elas não são eficazes porque não levam em conta o orçamento de carbono. Na sua opinião, quais seriam as medidas pra aumentar a eficácia e a rapidez dessas negociações?

SM – Essa é a pergunta de um milhão de dólares! (…) A gente não tem uma solução fácil, eu digo no livro que, apesar disso, eles escolheram um caminho que as pessoas ficam divididas. A pergunta é: se o Acordo de Paris foi um grande sucesso ou nem tanto. Eu acho que foi “nem tanto”, mas eu reconheço que foi um avanço enorme em relação ao que se tinha antes. Se você quer fazer uma abordagem mais rápida, pega os 20 países mais ricos, senta na mesa e resolve. Por quê? Porque você não precisa de ter 200 países na mesa, já que os outros 180 países não têm nem relevância nas emissões, os países do G20 são responsáveis por 75% das emissões.

Com relação ao orçamento de carbono, se você quiser realmente resolver o problema do aquecimento global, é o seguinte: pra gente chegar em um grau e meio [de aquecimento], que seja dois, quanto que a gente ainda pode emitir? Então você calcula a quantidade de carbono que pode chegar na atmosfera, essa conta é fácil de saber e isso é chamado orçamento de carbono. Sabendo essa quantidade, agora vamos negociar quem vai emitir, é uma negociação que apesar de difícil, ela vai ser efetiva, é o que vai resolver. (…) Tem que fazer mais do que o que está no Acordo de Paris, se não a gente vai chegar em 3 graus e meio, 4.

LG – Sobre o Brasil, quais são os reparos necessários depois dos estragos provocados pelo governo nacional atual (governo Bolsonaro)?

SM – Olha, o governo nacional atual realmente é um estrago. A única coisa que eu posso dizer que realmente não me faz perder a cabeça é que ele tá fazendo tudo que ele disse que ia fazer, não vem dizer que isso é surpresa, porque não é. Ele sempre se pôs como um cara completamente contra o meio ambiente, ele não tem respeito por nada, ele não tem respeito por mulher, por pessoas com orientação sexual diferente da dele… por nada.

Agora ele está desmontando o sistema ambiental do Brasil, não é um negócio casual, é um negócio calculado, determinado. Algumas dessas coisas são sem volta. Uma medida aqui e ali até podem ser facilmente revertidas quando tiver um governo sério, mas algumas medidas que são feitas são desastres irreversíveis. Cada quilômetro quadrado desmatado na Amazônia, não tem volta. É muito custoso e vai demorar muito tempo pra recuperar.

LG – E junto com tantas nuances desse papo, eu queria te perguntar: qual seu recado final para a juventude brasileira?

SM – Você tem dois níveis de atuações: um que é um nível macro, que são os governos, essas negociações globais, que nos torna muito pequenos, você fica assim: “bom, o que que eu tenho a ver com isso?”. Mas tem um outro lado que é o nosso lado individual, né. A gente tem que realmente aprender que a gente é só mais uma espécie aqui nesse planeta. Então, assim, vamos respeitar o planeta direitinho, baixar a bola.

Não dá pra crescer nessa velocidade, não dá pra todo mundo ser Estados Unidos, não dá, não tem energia, não tem terra, não tem floresta, não tem água, não tem clima pra alimentar um mundo onde todo mundo tem um padrão americano. (…) A felicidade é assim: se todos não estão felizes, ninguém tá feliz. Isso é uma pobreza de humanismo, achar que você está feliz sabendo que tem um cara que é igual a você que tá ali morrendo de fome. Ajude ao próximo. Compartilhe conhecimento. Divida as coisas. Não vão ser os teus bens materiais que vão te fazer feliz.

Photo by Muhammad Numan on Unsplash

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