A mercantilização do pensar e sentir através do trauma

O tempo todo tem alguém dizendo no nosso ouvido que a gente precisa buscar um sentido, ser uma pessoa importante. O verbo ouvir só rola quando se fala do que te machuca.

Por Vitória Rodrigues de Oliveira

Eu estava fazendo o meu brigadeiro na segunda. Gosto bastante dele bem durinho, porque mole ninguém curte, né? Também sabia que na quarta-feira colocaria aparelho e que não conseguiria comer algo duro no começo (o detalhe é que, até a escrita desse texto não consigo), então aproveitei o momento para cozinhar e falar com a minha maior companheira dos últimos tempos.

Conversa vai, conversa vem… Como qualquer pessoa, eu tenho muitas dúvidas relacionadas ao amanhã e o que preciso fazer hoje para que o futuro aconteça. Busquei conselho, e a frase que narrei ter ouvido pra quem me ouvia na videochamada foi a seguinte:

“Você quer ser grande ou quer ser pequena? Se é a primeira opção, você vai escolher isso.”

E eu continuei seguindo a conversa, mas ela me interrompeu. E ainda bem que interrompeu. Perguntou-me como é que eu tinha coragem de falar aquilo com ela, porque se fosse pra seguir a lógica dessa frase, ela é ‘pequena’.

Mas afinal, o que é ser pequeno? O que é ser grande? O que é ser alguém na vida?

Acho que esse breve texto é exatamente sobre os questionamentos desses questionamentos. “Mas Vitória, como assim?” É isso mesmo. O tempo todo tem alguém dizendo no nosso ouvido que a gente precisa buscar um sentido, ser uma pessoa importante. Apesar de ser bem crítica desse discurso, acho que tô tão imersa numa bolha que acabei o reproduzindo sem nem me dar conta.

Foi um momento de estranhamento, mas também bom. Por que ao invés de só ouvir essas bobajadas, a gente não normaliza ser chamado atenção para não repetir tal coisa de novo? A gente foi criado pra achar que esse alerta é uma briga, sinal de que a pessoa quer ser melhor que você. Pode até ser, mas nem sempre. Depende, depende.

Uma semana se passou desde então, e sigo pensando sobre o que ela me disse. Não na fúria da voz dela, mas nas palavras dela. E como dava pra ver que o que eu disse não fez nada bem. Comecei a lembrar de quando tava chorando com ela por causa de algo que me disseram.

A gente não tem ideia de como as nossas palavras impactam as pessoas. E como elas também impactam a nossa.

Essa frase em destaque, que você está lendo acima, se relaciona muito comigo mesma. Até mesmo no WhatsApp, gosto de mandar mensagens com pontuação e usando emojis. Nem sempre o outro lado da conversa entende, pois acha que tô sendo agressiva e eu simplesmente não consigo enxergar isso em algo por escrito.

É algo que tá dentro de mim, mas estou tentando melhorar e pensando mais em como o que falo pode chegar pras pessoas, mesmo que a minha intenção não tenha sido aquela.

Se comunicar é bem complicado.

“Pássaros”, por Marquinhos. Reprodução Internet

Lembra que te falei da bolha que tô inserida? Pois é. Tô nela. Imersa. Dentro dela a gente tem objetivos, e mesmo que você chegue apenas sabendo desse desejo e sem ter a mínima noção de como conquistá-lo, você vai aprender nem que seja na marra, mas vai.

A partir disso, você vai pensar o tempo todo que a coisa certa é falar das suas dores pra conseguir o que quer, porque é disso que gostam, desde o testemunho até o LinkedIn. Mesmo que você não tenha aprendido absolutamente nada com aquilo, vai ter que falar de algo que mexe contigo querendo ou não. É obrigatório ter resiliência.

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay 

Como ela bem diz, é a mercantilização do trauma.

Quando você fala de algum deles, ganha várias curtidas, comentários dizendo que és uma pessoa incrivelmente inspiradora. A gente fala deles até quando nos machucam. Eu mesma faço isso. Ter que falar dos meus traumas também é um trauma. Tô fazendo isso agora, tu sabe.

Há uns meses atrás eu sempre tava escrevendo redações sobre alguma coisa que me doeu muito e que não superei, mas como a competitividade da sociedade sussurrou gritando no meu ouvido, não me importava. Só saía escrevendo, porque o que eu queria era mais importante do que os meus sentimentos. Não é bem assim.

Junto com a mercantilização, vem a banalização. Falar deles pra mim sempre sai da minha boca em tom sereno ou de piada, porque no fundo que na verdade é borda, não sei lidar. A maioria desses problemas surgiu por causa de velhos novos problemas da estrutura em que vivemos, e a gente precisa falar deles. E incentivar os outros a terem o mesmo discurso de meritocracia, aquela exploração tão dolorosa, sempre. Passar pro próximo que só precisa ter sangue nos olhos e ver maldade em tudo.

Imagem de Mike Foster por Pixabay 

Nem sempre vai ser assim, nem sempre.

Sempre pense sobre quem você é e o que quem está ao seu redor está a dizer. Não é nada errado falar que algo não foi legal, que doeu, que foi chato, que tem que melhorar. Se for pra não segurar a mão do próximo nessa caminhada do estar (que nem sempre precisa ser crescer), você só vai continuar a se esforçar para respirar.

Esse texto não é pra ser regra, muito pelo contrário: você pode e deve discordar dele onde quiser. Sinto que a falta de diálogo gera muito estresse a mim e aos outros, especialmente quando a gente esconde o que tá dançando ou chutando dentro de nós. Não deixe de aproveitar a sua história do seu jeitinho, porque o que a gente precisa é ser a gente contando a vida da nossa própria forma. E nem sempre precisa ter um trauma no meio.

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1 Comentário

  • Temos nossos ideais, críticas, e limites pessoas, mas vivemos dentro de um contexto que por vezes nos força a confrontá-los ou cruzá-los. Eu entendo quando você diz estar imersa em uma bolha, ou precisar fazer o que “tem que ser feito” pra conseguir algo que queira, no caso da mercantilização dos traumas. Às vezes nos sentimos incoerentes, confusos, às vezes sentimos que podemos escolher, ou às vezes sentimos que não podemos fugir de como as coisas são. Eu sinto que pra mim é um grande navegar meio turvo, mas parei de me cobrar tanto saber navegar sempre. O resultado é que a cada dia que passa sei mais sobre mim, e sobre existir dentro desse contexto que me foi dado.

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