A juventude não tem interesse na política?

Ouvimos isso há muito tempo. E não é uma particularidade de apenas alguns países: é um fenômeno global. Mas antes de afirmar isso categoricamente e colocar a responsabilidade dessa aparente falta de interesse na juventude, a gente precisa dialogar.

Por Mariana Descalço, da Agência Jovem de Notícias em Portugal

Não é de hoje que ouvimos que os jovens encontram-se cada vez mais distantes da política; desinteressados, preguiçosos ou imaturos, são algumas das características de que já fomos acusados, mas será isto verdade? Será que de facto não queremos saber, será que de facto não nos queremos envolver?

Para abordarmos esta situação temos primeiro de definir o que é política e como se faz política. Se para nós é quem vota que tem envolvimento político, então sim, existem evidências de que estamos perante um declínio no número de eleitores jovens; se para nós são os jovens que fazem parte de juventudes partidárias que têm envolvimento político então sim, temos um baixo nível de envolvimento nestes modelos políticos, e diante disto poderíamos fundamentar as acusações feitas: os jovens não se interessam por política.

Contudo, a política apartidária e cívica, o envolvimento online e nas ruas, os movimentos e coletivos e o ativismo, têm vindo a atingir uma popularidade inesperada entre os mais novos, o que torna difícil a fundamentação de tais acusações. E no mínimo questionável, afirmar que os jovens são indiferentes à política quando o número de jovens a posicionarem-se perante as maiores adversidades alguma vez enfrentadas e o número de movimentos e protestos organizados por jovens, para jovens, aumenta todos os dias.

É evidente que também existem jovens desinteressados e individualistas, para quem, por muitas vezes, é mais cômodo não fazer nada, seja porque beneficiam do sistema em que vivemos ou simplesmente porque agir “dá muito trabalho”, mas reduzir todo esforço, altruísmo, empenho, e preocupações de tantos à indiferença de alguns é injustificável.

Envolvi-me nas primeiras formas de ativismo com 12 anos, e se há coisa que isto prova é que não sou indiferente mas sim proativa, determinada e interessada. Tal como eu, cada vez mais, pessoas mais e mais jovens juntam-se a organizações ou coletivos, participam em protestos ou conferências, estão envolvidas. E ainda que, muitas vezes, não seja da forma “esperada” não se pode negar que existe envolvimento.

Jovens de Portugal em ato. Acervo pessoal

Mas porque será que estamos, gradualmente, a afastar-nos da política convencional e partidária?

Este afastamento é consequência do simples facto de termos crescido com constantes desilusões, promessas vazias, corrupção, descredibilização de partidos e políticos, mentiras e tantos mais episódios que mudaram a visão de muitos jovens acerca da política. Os jovens estão cansados, fartos, desiludidos e frustrados; já não vemos os políticos e a política como fonte de mudança e de melhorias para a nossa vida mas sim como fonte de perpetuação de um sistema que não funciona. São circunstâncias tristes que, porém, tornam esta posição de desinteresse e falta de fé na política convencional mais do que legítima.

Não é que não acredite no poder do voto, na democracia e não valorize o quanto lutamos para chegar aqui, não é que não pretenda votar quando atingir a maioridade, ou que não encoraje todos aqueles que já podem votar a fazê-lo, não é que não acredite nas boas intenções de muitos políticos mas como se costuma dizer: de boas intenções está o inferno cheio. Precisamos de ação, de mudança.

Temos que converter um sistema que funciona para uma minoria num sistema que funcione para todos, que beneficie todos. E é aqui que os planos políticos atuais convergem com o que a juventude quer. Enquanto os “desinteressados” querem justiça para todos, os planos políticos atuais perpetuam um sistema que quer lucro para poucos.

Depois de tantas tentativas falhadas de resolver problemas sistémicos, sociais e políticos através do próprio sistema que os cria e de sensibilizar aqueles que têm o poder para mudar algo, perdi (um pouco) da esperança de resolvê-los convencionalmente e simplesmente deixei de confiar naqueles que, teoricamente, tudo fariam para proteger a minha integridade, a minha vida, o meu futuro.

A minha falta de fé nos modelos políticos atuais deve-se única e exclusivamente à falta de capacidade que os agentes políticos têm vindo a ter ao longo dos últimos anos para integrar os jovens, e as suas ideias e preocupações na agenda política assim como integrar a política em si na vida dos jovens.

A verdade é que, envolver-se em política na qualidade de jovem não é fácil! Especialmente numa sociedade que ainda desvaloriza e menospreza o interesse e as capacidades dos mais novos. Até mesmo a linguagem política é na maioria dos casos inacessível para grande parte dos jovens, sendo muito complexa e um tanto elitizada, e se há coisa que a política não deve ser é inacessível ou elitizada.

Os pontos de vista e as propostas dos jovens são tão válidos como as de qualquer outra pessoa de qualquer outra idade, aliás, possuímos constitucionalmente o direito de livre expressão na sociedade, e portanto devemos ter acesso a espaços onde sejamos ouvidos, a tempo de antena e à oportunidade de levarmos as nossas ideias para à frente; ainda assim, ideias dinâmicas e fundamentais das mentes mais novas são constantemente desvalorizadas e pintadas de utopias de crianças imaturas.

Enquanto jovem estudante e ativista, sei quantas vezes a minha voz já foi silenciada e a minha opinião desvalorizada por ser adolescente. Porque não sei o suficiente da vida, porque sou hipócrita, estou errada e não tenho o conhecimento necessário para comentar temáticas importantes.

Discordo; não tenho conhecimento absoluto sobre tudo, é verdade, mas acima de tudo, e independentemente do conhecimento que tenha, tenho o direito, não só de comentar mas também de agir sobre todas as situações em que considere necessário.

Toda a compreensão que tenho sobre política e todas as aprendizagens que tive são fruto da minha autonomia e curiosidade mas podem, muitas vezes, não ter sido adquiridas nas fontes mais seguras. Isto não é culpa minha mas sim da inexistência de um currículo escolar que priorize a educação política em todos os cursos desde de tenra idade. É um absurdo não serem lecionadas, nas escolas, as bases da política ou não ser fomentado o debate de natureza política e o espírito crítico.

Nunca me foi ensinado o que é política, como funciona ou como se organiza e isto sim, cria uma situação de inação por parte dos jovens pela qual não somos responsáveis, pois ninguém defende algo que não conhece ou compreende.

Podemos também responsabilizar a educação, ou melhor as falhas na educação pela desvalorização da política de rua já que, apesar de muitos dos direitos que temos atualmente terem sido conquistados nas ruas, todas as vezes que partilho que vou a uma manifestação ainda ouço “ah mas isso não vai dar em nada” ou “mas o que é que isso vai mudar?”; isto deve-se ao facto de não nos ser explicado o impacto gigantesco que os movimentos sociais tiveram ao longo da história, afinal, saber a data do tratado x é muito mais importante e conveniente do que saber que nós, o povo, temos poder. A reformulação do sistema educativo é, portanto, um passo fulcral na integração dos jovens no contexto político, já que é na escola que passamos a maior parte do nosso tempo e estruturamos muitos dos nossos pensamentos e opiniões.

Apesar da crescente participação política de jovens, o envolvimento político da população em Portugal, seja em que faixa etária for, deixa muito a desejar. Estamos abaixo da média europeia para a cidadania ativa e isto revela que o problema de falta de envolvimento não é exclusivo aos mais jovens, aliás é consequência de décadas de más decisões. Mesmo os jovens que se tentam envolver, encontram muitas pedras no caminho, sejam elas barreiras linguísticas, demográficas ou socioeconómicas, entre muitos outros obstáculos que acabam por desmotivar e afastar pessoas.

Em vez de nos criticarem, talvez fosse mais vantajoso ouvir as nossas propostas e preocupações, e trabalhar para destruir as barreiras que distanciam os jovens, proporcionando-nos oportunidades e espaços onde de facto possamos aprender, ensinar, colaborar e surpreendemo-nos, a nós próprios e a todos os que de nós duvidam.

No fim de contas, não se trata de saber que os jovens não participam tanto como deveriam, mas de saber porque é que isto está a acontecer. A verdadeira questão é, portanto, estará a culpa na “juventude desinteressada” ou no sistema que não tem espaço para a juventude?

Juventude de Portugal em ato. Acervo pessoal

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1 Comentário

  • O grande problema na Política sempre foi o chamado Lobby: no Brasil ficou conhecida a bancada ruralista e, “deu certo”, unindo os pecuaristas com os agricultores, assim desmistificando os fazendeiros como “endinheirados” e os agricultores como a “parte empobrecida”, se tornando todos parte do grande sucesso denominado “agronegócio”! O Imexivel Paulo Guedes, mesmo tendo tornado o Brasil uma pobreza maior de todos os tempos, soube impedir a reforma tributária e agradar as multinacionais como as farmacêuticas, e deve chegar até dezembro como Ministro! Politica é: um olhar para tudo e todos, sem exceções! Fala-se muito em igualdade ampla, geral e Irrestrita, mas não pode haver ingenuidade: numa ocasião um Fiscal (LGBTI+) do Procon em SC, recolheu e retirou de circulação carne por não constar a frase, na embalagem “não contém gluten”! Nem mesmo pediu o bom senso ao Ministerio Público para a doação a Instituições de Caridade, ONG/S! Até a Receita Federal busca preferencialmente atender Ofícios de tais Instituições a ter que destruir – sumariamente – o que apreende! A verdadeira política exige consenso, uso da lógica e principalmente deixar de “levitar ao redor de si”! Chico Xavier poderíamos dizer um “ícone da adversidade”, mas soube se destacar pela Caridade e, claro alcançar o respeito de todos como pessoa, também!

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